Luiz Geraldo Mazza
Gravitar é preciso
Há uma espécie de mecânica celeste - a que explica e define o movimento dos astros, a gravitação dos corpos - inteiramente aplicável à dinâmica política de Estado e Poder. No Paraná há um campo riquíssimo para mostrar o processo e que se lastreia no seguinte: há alguém nos últimos 20 anos que tenha enricado fora do âmbito das relações com o Estado?
Gravitar em torno do poder, tal ainda o seu âmbito de influência realçado até no momento do desmanche estatal e do modelito privatizante, que não nos dá nem privadas, como se observa no surto de cólera em Paranaguá, é preciso. A razão pode não estar lá, mas a ração certamente está.
Essa, também, a causa-chave que leva o empresariado da praça, em maioria, a ligar-se ao poder. Aliás, de Richa para cá, porque com a absorção do grupo de Canet o PMDB ficou mais palatável, se observa isso. Esse complexo de interesses se auto-realimenta operando como contribuinte e até coordenador de campanhas eleitorais, todavia o faz em troca óbvia de vantagens.
Esse quadro sustenta o sistema atual de clientelismo, que alcança empresas até de tecnologia sofisticada, organizações que operam em barragens e áreas de engenharia civil, havendo também algumas que atuam simultaneamente no campo educacional e da telemática. As coisas não param: alguns notórios executivos, de empresas multinacionais inclusive, sustentam posições como conselheiros em função de sua passagem pelo poder, onde ainda atuam como conselheiros, agora especialmente no momento do saneamento e privatização do Banestado e da Copel.
Claro que a oposição eventualmente se serve, para fins de financiamento, de parte desse contexto, já que é muito comum, principalmente entre empreiteiras, financiar simultaneamente governo e oposição. Isso se deu, por exemplo, quando Richa venceu Saul Raiz. As que estavam operando no governo deram maior cota ao situacionista e menor ao oposicionista.
Se houvesse uma anatomia do Banestado, especialmente nos casos específicos da Leasing e da Corretora, daria para compreender melhor o ecossistema de poder.
E pontas até aqui, meio obscuras, do iceberg seriam reveladas.


BIZARRICE
Agora o governo achou um bode expiatório (respiratório, como diria o vereador do Piauí) para a cólera: é o senador Roberto Requião, pelo fato de haver bloqueado no Senado as verbas do ParanaSan. Por isso o senador muda de nome, a partir de agora: é Roberto Vibrião. Êta, governinho colérico!



AXIOMA Programa Luis Carlos Martins na Rádio Banda B apurou, em pesquisas das 8 horas às 12 horas de ontem, que se a eleição para prefeito de Curitiba fosse agora, Cassio Taniguchi teria 50%, Roberto Requião 47% e 3% nenhum deles.
Se assim for, Requião volta com escala na prefeitura.
GLOSA Cândido Gomes Chagas, inimigo crônico de Lerner, acha que o período de sorte do governador passou e aponta como evidências o surto de cólera, a grita dos produtores pressionados pela rede Sonae, os litígios rurais, a falta de recursos orçamentários e a sequência de escândalos.
RESISTÊNCIA Setores do governo pressionam o jornalista Abdo Aref Kudri porque está ‘‘rodando’’ em suas oficinas o semanário ‘‘Impacto’’, que vem denunciando muitas irregularidades. Abdo é um resistente, como o demonstrou em 1963, quando apoiou a paralisação de jornalistas cedendo a gráfica para que produzíssemos o ‘‘Jornal da Greve’’, o único a circular e, por isso, foi acusado de comunismo e teve que prestar depoimentos para os milicos em 64.
Mas Abdo não é resistente apenas aí. Ainda ontem me confidenciou que vai renovar a interpelação pública ao governo estadual pelos gastos em propaganda da ordem de R$ 500 milhões em pouco mais de quatro anos. O governo se fechou e não dá o serviço, habituado que está ao regime da ‘‘caixa preta’’ que pode ocultar a ‘‘caixa dois’’ , a ‘‘três’’ e tantas mais, como se depreende do que ocorreu na Leasing e na Corretora Banestado.
Suspeita-se, e com fundadas razões, que sob a rubrica ‘‘propaganda’’ estariam sendo atendidas prestações de serviço como consultoria, apoio a promoções como a dos Jogos da Natureza e também assuntos jornalísticos.
SPRAY O grupo Sundown já está enquadrado judicialmente por importações de caráter irregular com o uso de empresa fantasma para trazer peças e bicicletas para o Brasil.- Ainda que atribuindo as acusações a manobras das concorrentes, Caloi e Monark (dominam praticamente 90% do mercado), essa empresa é apoiada pelo ‘‘rush’’ industrial lernerista e ganhou, inclusive, o direito de explorar a marca ‘‘Ika’’ das malas famosas, cuja quebra trouxe mais um ‘‘mico’’ para o Banestado e não se sabe como se acertou tudo, já que a dívida não era pequena. - Gugu Liberato, que tem patente de brinquedos, faz campanha neste fim de semana em programa nacional em Curitiba (Canal 4), na base do troque sua arma por um brinquedo. Em comum acordo com a secretaria da Segurança.- Secretaria desmentiu MST de que não estaria dando andamento a processos de tortura e morte de sem terras. Como os deputados Roque e Rosinha trataram do assunto, a secretaria aguarda os nomes dos fazendeiros e peões que estariam ameaçando e agredindo os lavradores.- Conforme a secretaria, a maioria dos processos está no Judiciário, os recentes e os antigos como aquele de Campo Bonito, em que morreram três PMs e o líder Teixeirinha.- A cólera sobe a serra? Ontem em Morretes havia seis casos suspeitos. O caso mais grave era autóctone, isto é, o marisco ingerido era de Porto Barreiro.- Povo unido, como se deu ontem com os agricultores em guerra com o grupo Sonae, pode ser bem sucedido: o Legislativo quer a derrubada dos incentivos fiscais concedidos e que abrangem os da Tafisa, inaugurada pelo presidente FHC. Davi um, Golias zero. Isso se Lerner não entrar nessa para ficar ao lado dos fortes, outra vez, contra os fracos.-
FOLCLORE Diferença entre Lerner e Ney Braga: autenticidade. Ney vai inaugurar uma quadra de basquete e usando o estilo ‘‘lavadeira’’ (o jogador se curva e lança com as duas mãos da altura da cintura) mete a bola no cesto do meio da quadra. Lerner foi fazer o mesmo ontem: errou três bolas e, na terceira, derrubou um dos cinegrafistas oficiais.
CROMO Emboguaçu, em tupi-guarani, é cobra grande, hoje minada pela cólera.
AFORÍSTICO Faixas no Centro de Excelência de basquete da APP-Sindicato: Lerner, tire o pé da nossa garganta. Educação no Paraná: 1º Ato Comédia, 2º Tragédia. Depois de ler tudo isso, nem o Oscar acertava a cesta.

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