Luiz Geraldo Mazza
O Paraná existe?
Há em Curitiba iniciativa brilhante do Sindicato dos Jornalistas, um Ciclo de Idéias. Gente altamente qualificada está listada para proferir palestras, tanto no caso da mídia (Caruso, Heródoto Barbeiro, Pedro Bial, Raimundo Pereira) como em outras áreas, tal o caso de Volnei Garrafa, maior autoridade do Brasil em bioética - e que escreveu um livro com Giovanni Berlinguer, senador italiano - e uma das maiores expressões mundiais na especialidade.
Pergunta-se: não seria o caso de num encontro desses haver alguém que fosse representativo da ‘‘inteligentzia’’ paranaense? Vou citar alguns nomes, todos de expressão nacional: Newton Freire-Maia, geneticista; Newton Carneiro Affonso da Costa, filósofo da matemática; Fausto Castilho, mestre de Filosofia e Ciência Política da USP e da Unicamp; coronel Cavagnari, comandante do Núcleo de Estudos Estratégicos também da Unicamp; Belmiro Valverde Jobim Castor, especialista em administração e habilitado a versar sobre o tema da moda, o do Estado Necessário diante do Estado Máximo e Mínimo. Isso apenas para citar alguns. Há outros, alguns ainda lecionando por aqui e que não perderam o contato com o avanço das suas especialidades. Dentre eles, se temas técnicos coubessem, listaria o engenheiro Nelson Souza Pinto, uma das maiores autoridades do País em hidráulica e por isso mesmo consultor internacional em projetos de grandes barragens, drenagem e irrigação.
Dias passados, numa reunião da Academia Paranaense de Letras, discutiu-se com a secretária da Educação, Alcyone Saliba, o problema da inserção curricular no primeiro e segundo graus do estudo sistemático da história-geografia regional. Uma das questões que podem nos levar à identidade não é apenas essa, mas ainda essa percepção dos valores da terra, não dos badalados da moda (aliás com toda a minha postura crítica com relação a Lerner, acho que tanto ele como Ficinsk e Rafael Delly podem figurar também nos campos de arquitetura e urbanismo como expressões nacionais) e preferencialmente dos que atuam na discrição do ambiente acadêmico, longe do sucesso frívolo do noticiário promocional.
Se não soubermos fazer esse ritual, saímos de campo e talvez isso explique a pouca importância que se confere ao Paraná nos escalões nacionais, tanto que a cada vez que alguém se arvora a uma candidatura presidencial, o faz com vistas ao público interno e não para valer. Tanto as iniciativas de Álvaro Dias e Requião, que perderam votos na própria delegação paranaense, como a mais constrangedora de todas, a de Affonsinho, do PTB, algo que não é possível recordar sem um tremendo sentimento de vergonha.


BIZARRICE
Paulo Pimentel fazia um comentário na TV, irado, sobre a solução dada ao caso da presidência do PFL. E criticou duramente o fato de o partido passar a ser dirigido à distância, do Rio de Janeiro. Empolgado, até com razão, alinhava os meios pelos quais se faria o contacto e falou em fax, telefax e incluiu o microondas. Talvez fosse o forno em que desejasse assar o escolhido. E acrescentou ainda um et cetera.



AXIOMA ‘‘O Coritiba está tão mixuruca que até no boxe perdeu para o Paraná Clube: o peso-pena Fernando Diniz abateu por nocaute o peso-cruzador Flávio.’
De Elísio Marques, anarcoxa, anarquista coxa-branca.
GLOSA ‘‘Ecos da passagem do Dalai Lama pelo país do ‘Dá-lhe, Lama’: concerto-show na Pedreira Paulo Leminski foi meio borocochô porque rock transcendental não rima com água mineral e fica difícil embalar um forró com chá-mate Leão Livre. Algo como dançar bolero sem tomar rabo-de-galo.’ Elísio Marques.
FILIGRANA Jaime Lerner e Mário das Dores Roque, governador do Estado e prefeito de Paranaguá, tão distantes nas versões sobre as culpas do surto de cólera e tão parecidos no porte físico e no jeitão, como se um fosse clone do outro.
SPRAY O prefeito Mário Roque bate forte em Lerner e Requião e diz que o primeiro, em nome da ecologia, quer evitar que a cidade lute contra a pior das poluições ao impedir o seu desenvolvimento industrial.- Quanto ao senador, ele o considera culpado indireto do que está ocorrendo, por haver segurado o empréstimo do Paraná-San no Senado por um ano e sete meses, que poderia ter melhorado as condições de saneamento básico.- Pois hoje o senador Osmar Dias - que também segurou os empréstimos, ainda que por culpa do governo que escondia os protocolos das montadoras, como faz com as patifarias do banco estadual - dá palestra às 8 da manhã para a Associação Comercial, Industrial e Agrícola da cidade, no auditório do Camboa Hotel, sobre ‘‘Primeiro Emprego’’. Na cidade, 60% da população economicamente ativa está descartada. E há muitos que jamais obterão o primeiro emprego, alvo de um projeto de Osmar.- Nessa semana passa no legislativo o ParanaPrevidência, sem emendas. Marcos Isfer jogou tão pesado como relator das emendas que ganhou apelido dos barnabés: ‘‘Pit bull’’ a serviço do governador.- Assessores de Requião estudam cuidadosamente mapas da campanha eleitoral em Curitiba, tanto a de governador como a de prefeito, e procuram identificar os pontos frágeis do seu lado e do adversário. Requião é o analista de todo esse levantamento, que, pelos primeiros dados, o anima a brigar pela prefeitura. Deseja fazê-lo com segurança, pois uma derrota para o Taniguchi encerra a sua carreira.- Bastou a notícia chegar ao Palácio e deu ziquezira geral: Curitiba pode ser, outra vez, a escala para o governo e uma campanha dessas teria efeitos cumulativos próximos. Lerner promete avaliar a situação, depois da próxima viagem ao exterior. Que não demora.- Processo
3150/98, que investiga a concessão da BR-277 no trecho litorâneo com a exploração do pedágio, ainda permanece no Ministério Público Federal.-
FOLCLORE Dizem que o governo já está acertando as parcerias para os Jogos Mundiais da Natureza. Cólera não deixa de ser também um jogo da natureza e tem até uma dimensão arqueológica, por se tratar de patologia da Idade Média. Temos outros jogos, como o da dengue, o da esquistossomose, de Chagas, da tuberculose e quase todos ligados com a pobreza, a insalubridade, favela, palafita. Que tal uma gincana contra tudo isso, hein?
CROMO Paranaguá nem pode ser condenada ao ostracismo: moluscos estão vetados.
AFORÍSTICO Para não ficar por fora do que se decide no PFL, ou para afirmar que detém espaços, Lerner indicou dona Fani para ocupar a segunda vice. É o que se pode chamar de solução doméstica.

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