Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A baía e a baia
Se é difícil manter a baia limpa, imagine-se como fazê-lo com a baía, a que penetra mais fundo o continente brasileiro e é transformada, pela expansão urbana de Paranaguá, em mais uma cloaca litorânea tão sórdida como os despejos das praias. Todo o pecuarista que seja digno desse nome cuida da baia, o estábulo, porque pode nascer aí a infestação do rebanho e o do Paraná anda com má fama, tanto que não ganhou o certificado que considera a região indene à aftosa.
Como Lerner retornou - e se deslocou a jato ao foco epidêmico -, já se pode esperar uma ofensiva publicitária, a contrapropaganda, para tentar sugerir uma dinâmica que o governo não tem. Graças ao fato de o governador não estar em Curitiba, o fluxo das informações foi normal, sem tentativa de direcionamento, até porque a mídia perguntava, e com toda a razão, como é que acontecia tudo aquilo quando a propaganda oficial tanto falava em mais uma iniciativa genial do mais criativo dos gestores com a maquiage denominada Baía Limpa.
Vejam a ironia: no sábado passado, nos pontos de divisa com Santa Catarina, havia cordões sanitários distribuindo informações aos que vinham do Paraná em seus automóveis. Na altura de Fragosos, estrada de Agudos do Sul, havia um desses bloqueios, como anteriormente se estabelecera para evitar a passagem de gado do Paraná porque Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão livres, há tempos, da febre aftosa.
A mania que têm nossos políticos de deturpar as coisas foi nítida naquele caso também, e demos o vaxame de criar tensão na divisa tentando o jeitinho para driblar uma responsabilidade que obriga a todos os brasileiros. Como de costume, Lerner estava viajando e quem ocupava o governo era o presidente do Tribunal de Justiça, que, desconhecendo as tortuosidades da política, foi até o bloqueio a pedido de secretários, o mais entusiasmado deles, justamente o que deveria cuidar do assunto com máximo zelo, o titular da Agricultura.
Como se vê, cuidar da baia e da baía com desleixo dá exatamente nisso.
BIZARRICE O ex-pedetista José Carlos Mendes viu no cassino de Puerto Iguazu o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, e o assessor governamental, Guaraci Andrade, jogando, semana passada, na roleta. Um secretário para ir ao exterior, mesmo que se trate de fronteira banalizada, não precisa de formal e expressa autorização?
Aliás, o secretário pisou na bola e levou um puxão de orelha de dona Emília Belinati por causa do bloqueio na fronteira para ferrar automóveis que pagaram ICMS menor em outros Estados.
AXIOMA Será que não existe nada aqui no Paraná parecido com esses problemas das regionais de São Paulo? Como o advogado de Celso Pitta considera que o prefeito até então era refém de uma articulação política muito forte, alguma coisa parecida poderia estar aqui ocorrendo. Ou não?
GLOSA Agora já deu para entender o que é Baía Limpa: pescadores e peixarias sem poder vender o seu produto sob suspeita. Para que tudo fique efetivamente limpo, não podem nem morar (suas casas não têm esgoto e a água dos pobres foi cortada pela Cagepar, privatizada, já que seus moradores não podem pagar as tarifas), nem satisfazer suas necessidades e menos ainda trabalhar.
Dá para desconfiar da limpidez deste governo pelos episódios da Corretora e da Leasing Banestado, que se pretendem lançar para baixo do tapete com o que, antes de privatizar o banco, socializarão a fraude e os prejuízos que todos nós pagaremos.
FILIGRANA Curitiba era a terceira cidade do mundo, segundo Allan Jacobs, mas de acordo com critérios da ONU é no Brasil a quinquagésima, quando se cruzam dados econômicos (renda per capita, Produto Interno Bruto) com os sociais (escolaridade, expectativa de vida, mortalidade geral e infantil).
Como a Veja deu matéria destacada apontando Florianópolis como o melhor lugar para se viver no Brasil, dá para imaginar duas coisas: inconformismo dos áulicos da terra, da nossa Curitiba, e o risco que correm os catarinenses se essa onda continuar acabando com a paz e tranquilidade dos seus moradores e com a segunda melhor cidade do Brasil transformada em megalópole.
SPRAY A especialista em cólera do Ministério da Saúde adiantou que de cada caso concreto apurado pode-se considerar a existência de uma potencialização de mais cem. - Pois apesar desse alertamento, que é feito no sentido de aguçar a profilaxia, ontem, já nos primeiros noticiários, os números começavam a cair: apenas mais 18 eram dados como casos novos. - Uma epidemia é também uma luta de informação, desde que não desvirtuada e manipulada. Pode-se esperar aspectos emocionais, como ocorreu nos efeitos da vacinação contra o sarampo, mas só a reafirmação da gravidade do surto, acompanhada por alto nível de mobilização sanitária, trará resultados satisfatórios. - Havia queixas no litoral, por parte do pessoal embarcado (porto e baía), da falta de matéria-prima para ações preventivas, como o uso do cloro, que alguns vieram buscar em Curitiba. - Se o surto subir a serra, ficará escancarada, como já se viu nas enchentes e em casos de leptospirose, a má condição de salubridade dos fundos de vale, das nossas favelas e ainda de assentamentos em áreas de preservação permanente como no Guaraituba, junto ao rio Palmital. - Moradias sub-humanas ao longo dos rios Barigui, Belém, Ivo e Iguaçu (são visíveis as da BR-277 ao lado da Estação de Tratamento de Água) são outros dos focos de disseminação.
VINHETA Como diz o repentista, dinheiro de propina vira vaca na Argentina.
FOLCLORE Essa é do Rubinho Ferreira, caricatural, é lógico. Mal chegou de viagem, Lerner foi cercado por seus assessores, que só lhe traziam problemas de intrincada solução como a questão do comando do PFL, o problema das áreas invadidas pelo MST agravado com um assassinato de sem-terra, a questão do pedágio e especialmente a do surto de cólera. Parecia uma compota gigante de pepinos azedos. Lerner ouviu todos e teria dito: Se me trouxerem mais um pepino, viajo outra vez! Rubinho acha que viaja mesmo sem pepino.
CROMO O mar era verde-musgo e escureceu: o vibrião da cólera, vetor da miséria como em todas as endemias (do caramujo/cercária da esquistossomosse ao inseto barbeiro que conduz o agente da doença de Chagas), lavra o terror.
AFORÍSTICO Mais uma sessão de grampos telefônicos, agora no Paraná: com isso fica demonstrado que a história se repete menos por ser farsa do que por uma absoluta falta de imaginação.





