Luiz Geraldo Mazza
Diz-se por aí que o governador Jaime Lerner volta hoje ao Paraná, ainda que nada se informe sobre a próxima viagem ao exterior que virá, fatalmente. Se a cada gesto correspondesse um tipo de música, a simetria melódica para dramas e comédias, como se dá no cinema e na televisão, poder-se-ia lançar mão de peças da lírica popular para a descida do personagem no aeroporto. Aquela do Paulo César Pinheiro: Pode ir armando o coreto// e preparando aquele feijão preto// que eu estou voltando... não pegaria bem. Como ele não veio do exílio, afinal era protegidíssimo pelos milicos, a cantiga não teria sentido.
Poderia igualmente ser acompanhado, é claro que em forma de paródia, por aquela que era o sucesso de Nelson Gonçalves: Boemia, aqui me tens de regresso, já que Lerner, há muito tempo, tirou o time desse tipo de dissipação. Haveria outra canção, a do Roberto Carlos, aquela que diz: Eu voltei... voltei para ficar... porque aqui, aqui é o meu lugar, que também não emplacaria pelo motivo óbvio de que logo estará fazendo a trigésima viagem, desde que assumiu o governo.
Lá na Polônia e na França, enquanto acompanhava nervoso as articulações internas do PFL, que tendia a consagrar Lupion na presidência, a música que lhe veio à mente foi a renúncia, não do governo, que muitos apoiariam, entre os quais muitos que nele votaram, mas do partido. Hoje não existe nada mais entre nós// somos duas almas que se devem separar//, e assim por diante, até a minha renúncia dá me desgostos que não tem remédio, coisa tão antiga que mal consigo rememorar.
A saída do partido mexeu com todos os agregados, tanto os áulicos de sempre como deputados estaduais e federais, prefeitos (para esses a substituição por dona Emília seria uma boa), aspones, empresários vinculados e burocratas. O gesto extremo não seria o suicídio de Lerner, que poderia enganar no PTB e, quem sabe até, no PSB, que tanto não anda seletivo que imaginou levar para suas fileiras o Belinati pai, pois o filho já está engajado. Seria, no entanto, um homicídio em massa, um pontapé no pau da barraca.
E o que ele encontra no seu retorno? A situação do PFL pode não estar, claro, definida. De repente o João Elísio é mais conveniente para o Aníbal Khury do que para ele. Tudo o que estava pendente assim permaneceu e ainda houve a morte de um sem-terra para complicar a novela que empurra com a barriga. Pior de tudo, veio a cólera, não a divina dos textos bíblicos, mas esse pepino azedo aí para desmentir os supostos cuidados com a ecologia e para botar os pingos nos iis dessa tal de Baía Limpa. Diante de tudo isso e mais o caso do Banestado, da Paranaprevidência, até que dá vontade de viajar outra vez.
BIZARRICE Tato Taborda é hoje figura de proa do governo, mas já foi em semanas santas passadas figurante teatral das encenações da Paixão de Cristo, no Colégio Santa Maria. Numa delas estava no papel de um dos apóstolos e que no texto não tinha fala. Judas acabara de ser descoberto e todos o chamavam de algo como traidor, espião e o Tatinho, que devia permanecer mudo, tascou Contrabandista!. Jesus, que era o Fernando Fontana, assistia a tudo como sempre: sem dar palpite como se a cruz próxima fosse mais um posto, hoje no BRDE, amanhã numa secretaria.
AXIOMA E que tal - perguntou aquele filósofo em Paranaguá - se essa cólera ficar como a nossa economia e política sem saída?
GLOSA A execução de um preso, que estava sob custódia do governo, no interior de uma delegacia, pelo jeito vai ficar sem punição. Numa ordem que de tudo é capaz pode-se imaginá-la de capuz. É o nosso Riocentro.
EPIGRAMA Sanitaristas admitem que a cólera poderá transformar-se em endêmica no Paraná, quer dizer, permanecer crônica. Também é endêmico o desemprego em Curitiba, com a oscilação de 150 mil a 180 mil desempregados.
RE-INAUGURAÇÃO O senador Roberto Requião fez, como é do seu estilo, um show com o fato de o ministro dos Transportes ter vindo inaugurar a BR-376, dizendo que ele já o fizera antes do próprio Lerner. Não detalhou um aspecto: a via não estava concluída e muito menos paga, o que empenharia o final de mandato de Mário Pereira e o início do de Lerner.
Essa é uma tradição: quando Ney iniciou seu governo em 1961, inaugurou a Curitiba-Ponta Grossa, que já estava inaugurada e concluída por Lupion. O que faltava era apenas a correção mínima de um trecho.
A parte boa da mensagem requianista foi a que lembrou a hipótese de tanto Lerner como o ministro inaugurarem a Serra do Mar, com placa e tudo, sem lembrar que Deus já o fizera sem pompa e circunstância.
SPRAY Duas fábricas de chicotes elétricos no Paraná, segundo o noticiário. A da Siemens, em Irati, não está com essa bola toda e anunciam outra.- Galpões industriais de Palmeira fracassaram, muitas outras empresas que firmaram seus protocolos transferiram a data de implantação e algumas desistiram.- Está em andamento um levantamento abrangente, por parte da oposição (tanto a política quanto das entidades empresariais), para dar a verdadeira dimensão de todo o cenário, depurando-o da fantasia e triunfalismo.- Voltemos ao caso de Heloísa Hilário, que reclama autoria da idéia da novela Andando nas nuvens, da Rede Globo. No Talmude há uma lenda, com todo o requinte de um raconto, em que um personagem dorme setenta anos. Em Legenda Áurea, sete crentes têm um sono de dois séculos, e num dos primeiros contos da literatura colonial dos States, Washington Irving conta a estória de Rip Van Vinkel, um aldeão, pouco ligado ao trabalho, que dorme na montanha 20 anos. Irving viveu de 1783 a 1859.- Depois de amanhã, 6 de abril, vai ser inaugurado o Bar Brahma, um botequim dos mais autênticos no interior da mais antiga cervejaria de Curitiba, Avenida Getúlio Vargas, esquina com João Negrão. É interessante ressaltar que fica nas proximidades do maior centro de lazer da Capital, o Estação Plaza Show, o que ajuda a consolidar o eixo de animação.
FOLCLORE Cuidado com o diagnóstico diferencial. É que entre os sintomas da cólera estão os vômitos e isso pode acontecer com qualquer pessoa que acompanha o padrão de política do Paraná e tenha um mínimo de sensibilidade.
CROMO E essa purgação de culpa coletiva pelo sangue de um justo redime o homem ou lhe concede mais tempo para repeti-la?
AFORÍSTICO Só o temor de uma epidemia é que abre aos nossos olhos o cenário insalubre do litoral, caldo de cultura para todas as tragédias.





