Luiz Geraldo Mazza
Mesquinharia e chantagem
Golpeado pela mesquinharia do governador Jaime Lerner, que ameaçou abandonar o PFL se insistisse em sua candidatura à presidência do partido, Abelardo Lupion deve ter aprendido que os sem-terra são muito mais éticos em suas disputas com os ruralistas do que os políticos de campanário. Só um homem sem firmeza, sem disposição de luta, destituído de energia, pode apelar para a ignorância e por isso se entende por que o PSDB se recusou a recebê-lo.
Ao lado da mesquinhez, a chantagem: se Lupion mantivesse a sua candidatura, Lerner tiraria o time juntamente com Cassio Taniguchi, seu irmão siamês. No jogo bruto do pôquer, Lerner não blefou ao ter convicção de que perderia e partiu para a medida radical que equivaleria a dar tiros nos parceiros da mesa verde. Aliás, é na mesa de jogo que se descobre o cavalheiro e o honrado, ambos aceitando as regras do jogo, e na política se desvela o estadista, o que jamais será o nosso governador, por sua falta de energia e determinação, sua vocação para o ‘‘clinch’’ ou as cordas no box.
Aqui no Paraná, partidos nada fazem para afirmar a sua autonomia, atrelados que estão a um caudilhismo que vem de longe. Obviamente, tanto Lerner quanto o senador Requião - e isso se repete, em escala menor, com Álvaro Dias - são mais fortes do que as agremiações a que estão vinculados. Isso não justifica, porém, que as organizações permaneçam tuteladas. A solução dada ao caso do PFL é tão artificial que seus ideadores, à frente o governador e ao lado Aníbal Khury, nem se lembraram que o ‘‘ungido’’ João Elísio vive no Rio de Janeiro como dirigente da Fenaseg.
Um episódio lamentável, pequeno, que dá bem a dimensão da nossa política e que explica o pouco respeito que se concede ao Paraná em nível nacional. O mais curioso é que ainda há áulicos que imaginam Lerner com dimensão para ser um candidato presidencial. Se com um chochicho do Aníbal foge da raia, dá para imaginá-lo às turras com Antonio Carlos Magalhães.


BIZARRICE
O Rafael do conjunto ‘‘Polegar’’ vai ficar pelado numa dessas revistas masculinas. Pretende-se colocar em destaque o tamanho do polegar.



AXIOMA Pergunta de um distraído: ‘‘Será que em Curitiba não teríamos algo parecido com esse das regionais de São Paulo sob outra roupagem?’’
GLOSA Alegoricamente, às vezes, os políticos lembram o drama do Calvário: ao lado de um crucificado apenas há bem mais de um ladrão bom e outro ruim.
FILIGRANA Já tivemos a leptospirose em Curitiba, depois de uma enchente, e agora nos defrontamos com um surto de cólera que pode se tornar endêmico. Nada disso animará os governistas a cortar o embalo ecológico: muito eco, tal qual se vê nos meios de comunicação social, e pouco lógico.
NÓ GÓRDIO É claro que o governo estadual criará as maiores dificuldades para o esclarecimento de tudo o que houve no Banestado. Todo o empenho é para evitá-lo, já que haverá a identificação dos aliados beneficiários de toda trama da Leasing e da Corretora. Com a oposição que temos, frouxa e preguiçosa, não chegaremos a lugar algum. E serão criadas dificuldades intransponíveis para que o Ministério Público, o estadual e o federal, possam agir. O governo confia numa operação higiênica: toda a craca vai para baixo do tapete e uma espécie de anistia acertará as fraudes de agora e as anteriores.
ARTE Editorias de arte dos jornais estão badalando um pintor novo, Lenzi, filho do artesão que executava painéis do Poty, e percebe-se um comportamento acrítico da parte dos meios de comunicação. Essa área, a das artes visuais, já foi bem melhor, pelo menos na existência de polêmica e contraste. Depois que os contestadores dos anos 60 saíram de campo ou assumiram posições na hierarquia burocrática, há essa pasmaceira.
SPRAY A cólera pode se transformar em endêmica não apenas no litoral como no Paraná, tal qual se dá hoje no Nordeste. Significa que teremos de aceitar indicadores elevados de mortalidade como um fato comum. É o que ocorre, desde anos passados, no Nordeste.- Paranaguá tem as condições de salubridade mais ou menos próximas da Índia, Etiópia e Burundi. Basta ver a forma como os picaretas da política estimulam a invasão dos manguezais, incluindo aí agentes da prefeitura.- O que se dá em Paranaguá é bem mais grave do que ocorre com os fundos de vale em Curitiba porque os rios do planalto, condutores de esgotos a céu aberto, não chegam diretamente aos assentamentos.- A prevenção, antes enunciada no dualismo botina e latrina, é insuficiente para atender a gravidade do problema. Instalados os focos, não haverá como debelá-los e lá se vai para o esgoto a nossa fama ecológica, e com ela o folguedo ‘‘Baía Limpa’’.- E o IPMC da Capital como é que fica: vão esconder o que houve lá, da mesma forma como se deu no caso Banestado? Se a saída do Baracho, da Saúde, não ficou visível e ninguém clareou os murmúrios da substituição do secretário de Administração, tudo indica que haverá intoxicação via pizza. Aos montes.- Apesar do noticiário negativo (cólera) tivemos razoável movimento turístico na Semana Santa. Nem o governo estadual e muito menos o municipal fizeram qualquer pesquisa e estudo sistemático para aproveitar o evento como fator de atração.- Cogitação de levar o professor de educação física Munir Caluf (que foi técnico, durante anos, no futebol japonês) à condição de supervisor do Coritiba foi bem recebida.- Grupo de economistas e sociólogos, ligados à oposição, vaio contestar o ufanismo de que teriam ingressado no Paraná US$ 18 bilhões. Fábricas implantadas empregam pouco e algumas delas estão despedindo. - Aqui perto da ‘‘Folha’’ em Curitiba, duas das melhores cantinas portuguesas: a Açores, na esquina das ruas Augusto Severo com Euzébio da Mota, e a do antigo Ligeirinho, esta igualmente na Rocha Pombo, com a Euzébio da Mota. Bacalhau espertíssimo. No Açores, ao forno; na Portuguesa, a caldeirada.-
FOLCLORE Cândido Gomes Chagas, jornalista, dava uma de Karabichewski e ensinava seus amigos atleticanos a cantar o hino do Coritiba para o jogo de amanhã contra o Paraná, para arrancar ao menos um empate, já que vitória o coxa só vai conhecer no dia em que for à capital do Espírito Santo.
CROMO A opinião pública, sob a forma de massa, lembra as cigarras em canto comum. Só que os insetos são mais decentes e harmoniosos.
AFORÍSTICO Tenho a desconfiança de que o Engov está patrocinando a política do Paraná. É que a cada movimento percebe-se a intenção de levar o público ao vômito, e tudo é feito com tanta maestria que dá idéia de ‘‘merchandising’’.

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