LUIZ GERALDO MAZZA
Os vitoriosos de sempre
Normalmente a frase ‘‘ao vencedor, as batatas’’ é lembrada com ironia para marcar acontecimentos. Vejam a farsa do cotidiano: todo esse pessoal de PSDB e PFL chega ao cúmulo de usar o escudo da resistência democrática (o que Lerner andou fazendo num desses anúncios eleitorais recentes) em seu favor e ainda ao extremo gesto de exorcizar o fantasma que os nutriu - a ditadura.
A solução, dada ao comando do PFL, é típica: João Elísio veio para o posto de sacrifício evitando o confronto. João foi governador, na condição de regra três de Richa (ele como integrante do extinto PP de Canet Júnior e que iria, como tantos outros, para o PMDB), e é, portanto, do grupo originário da Arena e depois PDS. Essa aproximação, que precede a anistia, parece ‘‘depurar’’ os fatores de origem a que convergiam na fidelidade ao regime militar.
Nacionalmente isso se repete, e a ironia máxima é que o presidente FHC, este sim, tem uma história de resistência e exílio. Ocorre que da mesma forma que apareceram, em 64, muitos revolucionários de primeira hora, depois de haver o fato consumado, e na sequência da anistia tivemos legiões de vítimas (bem maiores do que as do Papa, conforme a pergunta de Stalin), as circunstâncias, como prelecionava Ortega y Gasset, modelam os acontecimentos à margem daqueles mecanismos do determinismo histórico de Marx.
Por isso, quando perde o embalo da comemoração do golpe, fica mais nítido que os vitoriosos, de fato, não gostam de lembrar esse passado tão abominado e que no caso do PFL, o PDS encabulado, é emblemático em sua irresistível vocação para o poder. Lerner, por exemplo, foi nomeado por um governador (Leon Perez), que acabou detonado por denúncia de corrupção, e por força dos seus inegáveis talentos se transformou numa referência de quadros jovens e bem-sucedidos como executivos públicos do pós-64. Da mesma linha tantos outros, como Saul Raiz, o herdeiro-chave do neysmo, Lubomir Ficinski, Rafael Dely etc.
Torna-se ridículo sugerir que o golpe foi derrotado quando elegeu maioria de constituintes à sua imagem e semelhança para fazer a geléia de 88, demagógica, que era, em seus aspectos sociais, uma espécie de purgação de culpas ao longo do tempo acumuladas. 64 está aí, estuante de vida, retemperado pela democracia que ajudou a reerguer e convalidando o modelo perverso que dependerá, como se deu com a ‘‘distensão lenta e gradual’’ do general Golbery, de um cronograma de conveniência da classe no poder e cuja mobilidade será ditada em função de uma correlação de forças até aqui, e por muito tempo, na contramão do impotente discurso oposicionista. Não devemos esquecer que o mimetismo político permitiu que um Lerner se abrigasse, como uma das figuras nacionais mais fortes do socialismo moreno do Brizola. E quem realmente sumiu do mapa foi esse partido, afogado no personalismo e no populismo delirante. Quem ouve o Brizola falar pensa o contrário. O discurso, tanto o dele quanto o do governo, nada tem a ver com a realidade. Ambos autoritários. Conclusão: 1964, a ordem que persiste e finge não existir.
BIZARRICE O lernerismo está com tudo: só falta agora dar um prêmio da Unesco para o ‘‘Baía Limpa’’ depois desse surto de cólera. Tenho insistido naquele caso do Ciro Gomes, governador do Ceará, que depois de ganhar prêmio Unicef por atendimento ao saneamento básico, (e de abusar também da propaganda), teve a desventura de enfrentar uma quase pandemia de cólera de 18 mil casos e ele próprio acabou com dengue. Não dá para chamar isso de ‘‘justiça poética’’ porque a vítima maior nada deve e o beneficiário político sofre pouco.
AXIOMA Nossos ambientalistas são incríveis: Paranaguá tem um problema grave de salubridade nos assentamentos indevidos, como se vê nas áreas de propagação da cólera, e eles calam, mas se mostram zelosos quando se trata de proteger mangues da industrialização. Em Curitiba se dá o mesmo nas áreas de preservação invadidas como se houvesse a precedência do direito de lançar dejetos na água que a esmagadora maioria vai beber.
GLOSA Anteontem, no Rio Grande do Sul, manifestantes de Guaíba, onde deve ser instalada a fábrica da Ford, fizeram ato hostil ao governador Olívio Dutra, na frente do Palácio, porque este se recusa a repassar recursos à multinacional. E diziam em coro ‘‘Ford sim, Bigode não’’. Para quem é novo, Ford bigode é mistério maior do que a resistência do governador em cumprir seus contratos. Ford bigode era o fordeco da segunda década do século.
SPRAY PFL estava no Paraná entre três alternativas: a ruralista de Lupion, a da revenda de automóveis do Carvalhinho, a do conselheiro empresarial Saul Raiz. Aí a sabedoria do Aníbal Khury funcionou ao dizer: ‘‘Não é muito seguro, não!’’ E como seguro é especialidade do João Elísio, ele foi escolhido.- Tanto a Peugeot como a Renault cederam carros à polícia: dois da primeira estão no 1º Distrito, dois Méganes no 7º Distrito. É um teste operacional.- Na guerra da Iugoslávia três americanos foram presos nos combates, dois deles com nomes de Rodrigues e Gonzales. Chicanos e negros - observa Guilhobel Camargo Filho - dominam as forças ianques e ironicamente intervém numa ‘‘limpeza étnica’’.- Dos 117 bares citados na operação prefeitura/polícia de fechamento, por falta de alvará, consequentemente clandestinidade, 20 já foram fechados e seus donos notificados, pois na maior parte dos casos operavam até como ponto aberto de prostituição de menores. A operação, que está no centro, vai à periferia.- Apesar de haver processo na 21ª Vara Cível contra a Federação de Futebol por não pagar prêmios, está anunciando o ‘‘bingo-gol’’ com o global Nuno Leal Maia, o Gato da novela ‘‘Suave Veneno’’. Este outro veneno não é nada suave.- Artigo 192 da Carta Cidadã, de 1988, está em foco: pretende-se revogá-lo, pois afinal o Deus maior é o mercado que a tudo prevê e provê na moda neoliberal. Dona Regina Helena Afonso de Oliveira Portes, desembargadora, é contra por entender que se trata de matéria auto-aplicável. Ela decidiu perto de 300 casos quando no Tribunal de Alçada.-
FOLCLORE Conforme Rubinho Ferreira, Lerner viajou porque sabia do surto de cólera. Tanto essa, que hoje preocupa o litoral, como a outra, a cólera do seu adversário Roberto Requião e que negou ao governo, em discurso no Senado, um mínimo de condição moral para reger o saneamento do banco que quebrou.
CROMO Que fim levou o silêncio místico da Sexta-Feira, hoje tão ruidosa quanto as de sempre? Amanhã a Tiazinha é capaz de aparecer com um terço em lugar do chicotinho. Até para dessacralizar há limites.
AFORÍSTICO O caso do PFL foi acertado e o povo, quando terá a sua vez? Isso não é da pauta do governo: nesta a prioridade é o grande negócio da privatização.

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