Luiz Geraldo Mazza
Da mesma forma que FHC lembrou a Vicentinho da existência de uma relação dialética entre governo e movimentos sociais (e isso se dá com aliança ou com atrito, como se verifica neste momento) era preciso refrescar a memória dos deputados que preferiram a sessão secreta e o sigilo ao exame aberto das irregularidades do Banestado. Aí, também, a dialética se torna visível: na medida em que se escondem os fatos, oferecem-se nutrientes aos boatos, o que para um banco pode ser tão destrutivo quanto o silêncio.
Mais cedo ou mais tarde esses episódios voltam a circular e a pasteurização de nada adiantará, produzindo no público a impressão de que se escamoteia a opinião pública para preservar não a organização, mas os infratores. Caixa preta já existe demais no governo e talvez esteja justamente aí a causa maior das denúncias que nascem de um ecossistema que se recusa à transparência.
Lembra a anedota do boateiro preso em Florianópolis pelo regime militar e submetido a um fuzilamento simulado a bala de festim. Alertado de que se voltasse a falar demais iria de fato ao paredão não teve dúvidas e logo de saída, ao primeiro companheiro de bar, foi dizendo que o Exército estava em crise tão grande que nem tinha munição. Hoje alguns deputados, presentes à simulação de ontem, podem dar as versões que bem entenderem dos acontecimentos que quanto mais fantasiosas e inverossímeis melhor credibilidade terão. Como se vê, uma jogada de gênio contra a democracia e o direito à informação e que se transforma numa fonte de negativismo sinistro.
BIZARRICE Há quem diga que Requião, ao insistir em que senadores que apoiaram a emissão de títulos devam ser ouvidos pela CPI, iniciou o seu processo de desplugamento da mídia. Requião vai ser o Minotauro do labirinto de Creta e bufará, por todos os meios e modos, contra a restrição neste caso ou na sua intenção de atingir os bancos. Se o forçarem ao papel de Jim Jones o efeito pode ser mais desastroso.
SPRAY Justamente num instante em que os portos do Rio Grande do Sul passam à órbita estadual, o de Paranaguá corre o risco de ter um concorrente na Ponta do Poço onde funcionava a Tenenge. Vantagem locacional: está em cima do Canal da Galheta. - No governo Requião houve o caso do incêndio do silão e neste, o de Lerner, o afundamento da cábrea flutuante de 100 toneladas. Um com fogo e outro com água. Diz-se que o primeiro preço para o trabalho de recuperação era de R$ 140 mil e que ao final custou muito mais por causa da burocracia e das exigências formais, pois a menor oferta ficava fora da lei. É o Brasil. - Hoje tomam posse os 15 juízes substitutos no TJ: segunda entram em atividade. Em maio serão nomeados mais dez e no segundo semestre haverá novo concurso. - José Gomes de Carvalho, como outros políticos, anda assoberbado com processos eleitorais: ontem foi à 177ª Zona responder a um que é movido por Toni Garcia. Chegou atrasado alegando compromissos inclusive com a presidência da República, o que foi contestado pelo advogado da parte contrária, Genésio Natividade, alegando que a autoridade a que devia obediência era ao juiz Robson Curi. Carvalhinho protestou contra a forma como o advogado se referia a ele como réu. O advogado corrigiu: réu e acusado são a mesma coisa. Rescaldos da campanha em que Toni Garcia foi apontado como de passado duvidoso pelo atual presidente da FIEP. - Enquanto ontem saía no salão social anexo ao Museu do Judiciário o chá mensal das senhoras de magistrados, estes programam para o dia 26 um torneio de truco denominado Facão de Ouro na Casa do Magistrado. Na hora das cartas é proibido falar em limite salarial e controle externo, preocupações maiores. - Não dá para entender essa estória, que corre por aí, de duas termelétricas a serem implantadas no Pontal do Sul. Ecologistas já estão chiando. - Programada uma que usará resíduos de petróleo em Curitiba de 200 MW. Sócias: Copel, Inepar e Petrobrás. - Entrou areia no negócio com espanhóis na Costa Oeste. Teríamos dado uma de mineiro quando compra bonde ou prédio embalado. - Cúmulo da ironia: o sujeito para entrar de um terminal de ônibus em Rua da Cidadania precisa mostrar a carteira de identidade. Um caso concreto de essência acoplada à existência: sem o RG não somos cidadãos.
FOLCLORE A justificativa mais espirituosa que já ouvi para a adesão a boemia foi do Rui Ribas de Oliveira: Tudo começou na Segunda Guerra Mundial com aquelas filas de racionamento do Abagge (para o pão) e do Guerra Rego (para o açúcar). É que a gente tinha que estar lá antes das 6 da manhã e eu, para facilitar aquele trabalho, que fazia para minha irmã, me entregava na noite desde às 21 horas. Como se vê a guerra deixa efeitos indeléveis até como justificativa para o inesperado. Se na guerra é assim, imaginem na paz.
CROMO Na clarabóia, meu observatório, vejo que a lua é clara e bóia. Entre meteoritos e estrelas cadentes, por que não o suave trocadilho?
GLOSA Pergunta o anarquista e advogado Elísio Marques: É parte legítima em ação popular contra a venda, a preço vil, da Vale do Rio Doce, quem, na década de 60, entrou nas filas do Ouro pelo bem do Brasil logo depois do golpe? Piada pode ser a extrema expressão da impotência, mas é didática.
AFORÍSTICO Ironia das ironias seria, em meio à sessão secreta de ontem do Legislativo sobre o Banestado, um parlamentar reclamar do Ato 5 e do clichê da ditadura militar. Esperemos que o PT cumpra o seu dever e conte o que for necessário para salvar, a um só tempo, o banco e o mínimo de democracia.





