Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Nosso 1º de Abril
Já não se festeja, com a efusão de antes, o golpe ou revolução de 1964. Para o brazilianist René Armand Dreifuss, houve revolução e, na sua linha de argumentação, ele inclui o fato de a população montar desfiles gigantescos, por todo o País, com milhões de participantes pedindo a derrubada de Goulart. O título da obra 1964: a conquista do Estado e o subtítulo Ação política, poder e golpe de classe é o mais amplo documentário sobre o tema. Para muitos, no entanto, o que houve foi um 1º de Abril, o que é uma anedota quando falta outro meio de contestação, a impotência com bom humor, a perplexidade vertida em motejo, o que é apropriado ... cultura brasileira.
O tempo passa, o tempo voa e a mesma classe social continua numa boa. Muitos dos beneficiários de 1964 como Jaime Lerner e a maioria esmagadora da grei pefelista, que hoje faz o discurso da modernidade democrática, conseguiram, com a própria evolução dos acontecimentos, sugerir que estavam na resistência. É que entrou tanta gente, mas tanta, como vítima de 64 (eram tantos que se somados superariam as forças regulares do outro lado, minoritário, todavia aparentando a soma das legiões romanas com as do nazismo) que de repente, por efeito do mimetismo político, apareciam como liberais e democratas alguns dos garotos-propaganda daquela época. Lerner foi um deles, Saul Raiz, outro, apontados, em ciclos do regime, como exemplos de executivos jovens, abertos e com resultados da melhor qualidade. E com merecimento inegável.
Mas da mesma forma que essa oposição primária, arcaica, que há no Brasil (o PT não merece inclusão entre fósseis porque é a única esquerda viável dentre as que se apresentam como tal no país) acusa Fernando Henrique Cardoso de ser a expressão da direita, não se pode aceitar como esquerda o Brizola, que lutou contra o golpe em 61, mérito inegável, e que em início de abertura queria um ano a mais para Figueiredo e se fez, após, em defensor, imaginem só, por interesses puramente regionais (Linha Vermelha), da maior expressão fascista do Brasil recente, o Collor de Mello.
Ninguém mais faz festas no 31 de Março, como de resto, na Rússia, as paradas do 1º de Maio já não têm o aparato do predomínio soviético. E a Carta Testamento de Getúlio Vargas cada vez ser menos lida, apesar de sua sabedoria, porque os que mais a cultuavam, como Matias Júnior e Aldo Laval, já se foram. Espera-se também que, com a queda do muro, as celebrações de 35 saiam de moda. Se a utopia comunista era uma chatice, a pregação do anticomunismo era pior ainda.
AXIOMA
Perguntar não ofende: reunião como essa de anteontem do PFL, no Palácio Iguaçu, é legal ou apenas um extravagante excesso de sinceridade?
BIZARRICE Há pessoas que consideram extrema impropriedade confundir o 31 de Março com o 1º de Abril, mesmo como piada. 1º de Abril é a mentira saudável. Foi nesse dia, em 1854, que surgiu a imprensa paranaense, com O Dezenove de Dezembro. Não dá para comparar também a dimensão de estadista que tínhamos em Zacarias de Góes e Vasconcellos (presidente do Conselho de Ministros, quase um premier, ministro da Marinha, governador de três estados) com os que têm desfilado ultimamente no Palácio Iguaçu. Não é nostalgia. Nostalgia é celebrar 64, esquecendo da velharia, que a sustentava, a guerra fria.
GLOSA Cá entre nós, essa turma que está hoje no poder, tanto nacional como regionalmente, é ou não é de maioria esmagadora ligada ao golpe de 64, tanto a dos velhos como dos moços? E como eles fingem que não são vencedores!
FILIGRANA Só falta hoje, no Mineirão, haver uma penalidade máxima em favor do Atlético Paranaense e o batedor jogar a bola nas mãos do goleiro. Dá para chamar isso de tática Jim Jones, aquele do suicídio coletivo.
PURGAÇÃO O governo Lerner é a expressão permanente do remorso. Primeiro corta os descontos em folha do sindicato, violência gratuita como a de tirar bolacha da boca de criança, ainda mais num momento em que a fragilidade do trabalho acaba destruindo os sindicatos, e depois se mostra com medo de ter que acabar com as eleições diretas nas escolas. Se as eleições prosseguiram, mesmo após derrubadas pela liminar de 1992 no STF, a faculdade de ratificar nomeações extraídas de listas tríplices dão ao ato plena regularidade. Mas se o governo se preocupa com isso sinceramente, deve restabelecer o desconto sindical e associativo, até porque, para os banqueiros e agiotas, a facilidade é concedida.
SPRAY O PFL definiu os critérios da partilha de poder na convenção, mas tudo indica que Plauto Miró Guimarães, um dos delegados com voto potencializado, deve decidir a parada.
Era só o que faltava para colocar Paranaguá no mapa: um surto de cólera sobre o qual as autoridades sanitárias agora se debruçam para descobrir-lhe a origem e o encadeamento epidemiológico. Paranaguá, na situação atual, é aberta demais, por suas fragilidades de saneamento, até, a pandemias. Em passado distante, ainda como o principal núcleo urbano do Paraná, Paranaguá foi atingida por um surto de peste bubônica, este com origem nos navios. A população de baixa renda, hoje dominante no principal pólo do litoral, vive em péssimas condições de salubridade, o que poderia funcionar facilmente como um fator de disseminação da doença, face sua origem hídrica e a dificuldade de localizar os focos, com a maior rapidez possível, do vibrião colérico. Tenho alertado para uma lembrança nada construtiva: num dos governos mais promocionais da história do Ceará, o de Ciro Gomes, logo após receber um desses prêmios do Unicef, muito semelhantes aos concedidos aqui para destacar ações na infância, houve um surto de cólera que atingiu mais de 18 mil casos, dezenas deles fatais, e o próprio governador, na sequência, caiu de cama com dengue. Espera-se que se estabeleçam os cordões sanitários e que se faça tudo com muita habilidade, para que também o corredor de exportação não seja afetado pela contundência do episódio.
FOLCLORE O anedotário de 64 não é pequeno, normalmente exagerado em favor das vítimas, como no caso da filha de uma militante que foi depor na DOPS. Dizia que o ambiente familiar era sensível, desde o avô, pelas lutas sociais. Após constatar que a depoente seguia a linha da mãe, fez a observação: E se sua mãe fosse puta, o que você faria?
Aí - respondeu - iria ser como o senhor: agente ou delegado da DOPS.
Se disseram ou não, mal se sabe. Ficou o registro, sempre mostrando vantagem para quem está perdendo, o que é um jeito de produzir fé.
CROMO Espantalhos ao vento se tornam tão caricaturais e coreográficos que acabam divertindo como um balé as aves daninhas.
AFORÍSTICO O Paraguai tem menos tempo de experiência democrática do que o Brasil, e pelo jeito não tem muito a aprender por aqui.





