Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Pepinos herdados
Mais uma vez sobra para dona Emília Belinati a tarefa de administrar pepinos da área política e administrativa que Lerner empurra com a barriga. Enquanto espairece, em meio a tantas homenagens na Cracóvia e em Paris, o que apenas reafirma seu pendor cosmopolita e seu horror ao provincial, a vice se vira para manter tudo em calma, seja o alarido dos ruralistas na questão do MST ou a pressão dos consórcios de empreiteiras em cima do pedágio.
O pepino azedo, mais ácido, fica para o PFL e, especialmente, para o Tato Taborda, da Casa Civil, no caso da partilha de poder eletivo na próxima convenção partidária. Como tato é o que não falta ao mediador de Lerner, uma vocação que já demonstrara quando serviu no gabinete de Amauri Silva no governo João Goulart, tenta-se impor aos pefelistas de origem a vontade mais pesada dos partidários recentes e que antes figuravam como brizolistas. Essa é uma questão que não pode ser subestimada, conquanto não se deva desconsiderar que Lerner e Cássio Taniguchi são as maiores forças eleitorais da agremiação.
Bornhausen, que dá de dez a zero nos da terra, vivíssimo, disse que o problema era doméstico e que deveria ser resolvido pelo consenso. Era o Acácio, o conselheiro do lugar comum de Eça de Queiroz, dizendo o óbvio e fugindo do constrangimento em que tentavam encurralá-lo. Fica tudo agora para amanhã com nova rodada de conversações.
Mas na volta de Lerner a pauta que estará esperando sua intervenção será das mais complexas, razão pela qual o repouso europeu lhe desanuviará a cabeça. Em primeiro lugar a execução imediata, como foi prometido, das desocupações de terras. O MST tenta, a meio caminho, como já o demonstrou, liberar algumas áreas para ganhar mais fôlego na barganha e na moratória. Também a cupidez de vários setores para que saia de uma vez o aumento do pedágio é outra questão difícil, ainda mais para alguém despojado de determinação como Jaime Lerner.
AXIOMA
A correção de 5.400 provas em menos de dois dias (caso do vestibular de Direito da Tuiuti) vai para o livro dos recordes. Queima das provas também.
BIZARRICE Na discussão senatorial sobre o saneamento do Banestado, o momento de maior brilho foi o de Esperidião Amin, que citou o adágio de Martin Fierro para que não parecesse invejoso da diferença de tratamento entre o Paraná (que recebia quase R$ 5 bi) e Santa Catarina (R$ 331 milhões). Nunca invejes na tua vida// É muito triste invejar// Cada leitão, na sua teta, é um modo de mamar. As tetas aqui no Paraná são imensas, que não bastariam para Rômulo e Remo na fundação de Roma. O grupo de mamadores é fechado, mas guloso, e quando fica muito manjado simula uma briga interna.
GLOSA Lerner viaja a média de sete vezes por ano ao exterior e o único jeito de mantê-lo por aqui é tornar mais frequentes as visitas do presidente FHC.
FILIGRANA A chuva, muito reacionária, claramente da direita, atrapalhou o ato do PC do B de queimar a bandeira americana diante do Banco Central. E quanto mais se agitam, mais o dólar baixa, ao ponto de o governo intervir no mercado para que não despencasse de vez.
REFLEXÃO Ao contrário do que disse FHC, o livro de Norberto Bobbio Direita, Esquerda (Dextra, Sinistra) reafirmou a existência desses pólos, embora hoje não facilmente identificáveis. No Brasil, então, a geléia é geral: a que se diz esquerda defende a economia autárquica, o nacionalismo (esse o maior dos reacionarismos) e o populismo; a direita quer um Estado minimalista, a supressão dos controles e que a mobilidade social surja espontaneamente. Aliás, aqui se pode comparar tais disputas ao choque entre Alka Seltzer e Sonrisal.
PARADOXO Lerner sugere mudanças nos critérios de partilha de poder no PFL, sob a alegação de que não pode ficar refém de Lupion, mas assim permanece em relação a Aníbal Khury, a Belinati e ao grupo econômico que o ajuda sempre. E, mais do que isso, é refém da incerteza, da lentidão e do medo.
SPRAY O senador Requião viu, anteontem, pelo menos uma vitória sua do tempo em que era governador: o STF lhe deu ganho de causa ao derrubar o dispositivo da Carta estadual que obrigava a eleição nas escolas. E, convenhamos, se foi ele ou não, pouco importa, já que é tese corretíssima diante de uma prerrogativa indelegável do Executivo - a de escolher ocupantes de cargos de direção superior.- Basistas vão tentar atribuir a providência ao governo Lerner, mas a demanda vem de 1992, quando inclusive o STF suspendeu o Inciso VII em 7 de fevereiro em julgamento de liminar pelo plenário. É, portanto, de Requião que, neste caso, estava certo.- O que diz o Inciso VII: Gestão democrática e colegiada das instituições de ensino mantidas pelo Poder Público estadual, adotando-se sistema eletivo, direto e secreto, na escolha dos dirigentes na forma da lei.- A adoção de eleições diretas em nada melhorou o sentido de participação da comunidade votante, pois sem as associações de pais e mestres de pouco adianta o processo interativo de co-responsabilização com a escola. Essa matéria é jurisprudência pacífica nos tribunais superiores.- Deformação do eleitoralismo, que veio atabalhoadamente com o fim do regime militar, era preciso dar um breque em mais essa manifestação primária de democratismo.- Da mesma forma deve ser olhada a eleição direta no terceiro grau com a escolha dos nomes da lista tríplice. Também aí em nada melhorou o desempenho dessas unidades que politizaram demais o sistema interno de designações pela Reitoria, impostos em função do jogo político de forças de potencial desigual como professores, funcionários e alunos, aqueles um vetor permanente e este último, transitório.- O sentido mais amplo da decisão abre caminho para rever o que ocorre também nas universidades.- A decisão do STF é uma derrota do democratismo. Já imaginaram as forças armadas elegendo o seu comandante? Esse espírito chegou à área dos magistrados que defendem a eleição direta pela categoria dos dirigentes do poder.-
FOLCLORE No dia em que o Senado apoiou os R$ 4,780 bi para sanear o Banestado, Requião fechou seu discurso pedindo a federalização, mas em qualquer hipótese de privatização ou liquidação à revelia das pessoas que o roubaram. E prosseguiu: Vejo aqui à frente Rui Barbosa que, na sua linguagem quinhentista, diria Há uma grande roubania no Paraná. Dá pra imaginar a manchete, pois Rui também foi jornalista: Roubania no Paraná!
CROMO Goethe pediu luz ao morrer e não estava diante de um apagão.
AFORÍSTICO Políticos deveriam purgar suas culpas em piscina de água benta.





