Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A venda e a venda
Dá para tirar a venda dos olhos: isso que o governador Jaime Lerner faz, em suas viagens ao exterior, é venda do Paraná, isso é promoção para atrair investimentos, ou venda pura e simples, tal qual se dá com a entrega das nossas empresas, linha geral do que está acontecendo, tanto do setor público quanto do particular?
Se formos pelos relatos oficiais acharemos que é venda, como sugeriu o jornalista Hudson José, do staff palaciano. Se acompanharmos, no entanto, os desdobramentos veremos que, de um modo geral, trata-se de venda, de entrega do que é nosso. Vejam, por exemplo, o feito de ontem: a inauguração da última grande geradora, a de Salto Caxias, da Copel, como testemunho da eficiência máxima do setor, a melhor estatal da área, mesmo dentre as federais e que vai ser leiloada para cobrir os furos do setor público, ineficiente e esclerosado.
Não há como negar que tudo aconteceu sob o comando de Lerner. Claro que as causas da quebra do Estado são anteriores, mas esta administração contribuiu poderosamente para que o barco fosse a pique.
Na missão de Lerner à Europa (cada vez que ele sai, e isso é compulsivo, sua assessoria tenta sugerir alguma utilidade à viagem, pois este é o seu papel) diz-se agora que buscará convencer o pessoal da Renault a reduzir de oito para quatro anos o tempo de isenção fiscal. Ora, se a ex-estatal francesa fizer qualquer concessão nesse sentido, poderemos presumir que havia excessos desnecessários ou olhar o fato como nova encenação marqueteira, pré-acertada. E se não houver o atendimento (o que é improvável, já que essa hipótese teria sido precedida de conversações), aprofunda-se ainda mais o grau de compromisso, até hoje guardado a sete chaves, deste governo com os interesses externos.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. O jeito é correr ou então viajar. De preferência ao exterior.
BIZARRICE
A cada dois meses, o governador viaja para o exterior e quando aqui permanece fica mais tempo no Chapéu Pensador, quase no mundo da lua.
AXIOMA Por que será que as empresas particulares de petróleo, especialmente as das Sete Irmãs, são as maiores interessadas na manutenção da Petrobrás? A gente sempre pensou que era justamente o contrário.
Quem faz a reflexão é o Guilhobel Camargo Filho.
GLOSA Quem põe a bunda em Caras não põe a cara em Bundas. Esse é um dos teasers da nova revista que passa a circular em junho e com aquela mesma disposição de O Pasquim. Dois paranaenses aparecem com 40% da sociedade da nova publicação que tem, além de Ziraldo, Jaguar, Millôr, irmãos Caruso.
Mas da mesma forma que a exibição em Caras promoveu as bundas, também em Bundas teremos caras e, em ambos os casos, raramente novas. Tanto a frente como o verso e o reverso.
FILIGRANA Quando o Tribunal de Contas contraria algum interesse do Legislativo, é imediatamente ameaçado da criação do Tribunal de Conta dos Municípios. A Constituição de 88 proíbe a criação de tribunais, mas Aníbal Khury não está nem aí. É como ACM, que faz a CPI do Judiciário contra dispositivo expresso do próprio regimento interno do Senado.
EPIGRAMA Os insetos voejam em torno da mesma matéria-prima. O problema é o seguinte: mudar as moscas ou trocar, de uma vez, de insumo?
SPRAY Mais terceirização: agora os computadores da polícia também são alugados. Este é o governo que temos: o que não consegue vender, vale-se do aluguel.- Sobre a telemática, o entreguismo é total em favor de um grupo e que age em nível nacional, já tendo acumulado problemas no Detran de Recife. Essa é mais uma prova de que não temos um mínimo de oposição.- A privatização do Estado traz compensações como a proporcionada pelos empreiteiros, que ganham uma colher de chá como a dos anéis de integração num mercado sem obras, ou pelas empresas (Cotrans, Ouro Verde) que alugam veículos e depois, para compensar, colaboram nos fundos de campanha eleitoral.- Terceirizaram a educação, pretendem fazê-lo com a previdência e agora o fizeram com as multas que eram tarefa do DER, valendo-se de pessoas e veículos descaracterizados. Só falta institucionalizar o esquadrão de encapuzados, que se supõe ser da polícia, conforme o delegado Corregedor, e que executou um preso no interior de uma delegacia, o que manteria tudo na linha da descaracterização. Não se pode negar que há uma coerência em tudo isso.- A queda de braços no interior do PFL continuava, apesar da chegada do Bornhausen. Lerner briga para ter maior representatividade, o que não deixa até de ser justo em relação à força dos deputados federais.- Sensível como ninguém, Aníbal Khury assinala volta ao PTB, onde teria maior liberdade de movimentos. O conflito, no entanto, não deixa de ser um sinal de democracia.- As medidas judiciais contra a Tuiuti vão produzir prejuízo irreparável à empresa educacional. Boa parte da culpa cabe aos seus dirigentes, que não souberam responder, com um mínimo de articulação, o chio do público, a rapidez da correção das provas e da incineração delas.- Alô, alô: o período de isenção do ICMS para montadoras é de quatro anos, ainda que prorrogável por mais quatro. A alegada revisão, para justificar a viagem do governador a Paris, é meio forçada. Excesso de conversa e não de bagagem. Na viagem à Itália, o excesso de Greca foi de 40 quilos e não de 180, segundo a esposa, Margarita Sansone.- O STF derrubou ontem o dispositivo da Constituição Estadual do Paraná, que tratava das eleições diretas nas escolas. Trata-se de jurisprudência pacífica, reafirmada em julgados semelhantes, e assentada , entre outras coisas, no fato elementar de que a responsabilidade do gestor público não pode ser delegada.
FOLCLORE Clinton estava, ontem, mais abalado do que quando das denúncias da mocréia Mônica ou do sucesso dos ataques sobre a Iugoslávia, ao saber que o pessoal do PCdoB em Curitiba iria queimar uma bandeira norte-americana bem na frente do Banco Central. A perda do senso do ridículo está em alguém acreditar-se um herói por um espalhafato desses e não por fazê-lo porque todos nós nos dedicamos, em algum momento de nossa vida, a essas coisas lúdicas.
CROMO O edifício de vidro, metálico, reproduz o pôr-do-sol e a tormenta e quase sempre parece ampliá-los ou reduzí-los como você diante do espelho.
AFORÍSTICO Essa turma que participa do Festival de Teatro em Curitiba está próxima do complexo de inferioridade, ao acompanhar a nossa cena política. É que o ator representa, faz a persona e o político é aquilo mesmo.





