Luiz Geraldo Mazza
Tatuagem e vitiligo
O governo do Paraná vai ficar tatuado com essa história do pedágio. E também com a da falta de segurança, que transformou toda a população em refém das mais variadas formas de criminalidade. E ainda com a soma de escândalos como os havidos no Banestado e com a venda de ativos como os da Copel e os estímulos às empresas cosmopolitas que acabaram com as da terra, como se viu inclusive no setor de supermercados.
Anteontem, em São José dos Pinhais, uma cena típica dos novos caminhos: grupo de professores e estudantes se manifestava nas ruas contra o sucateamento do Colégio Estadual Guatupê, no qual faltam carteiras. Vejam a contradição: pela renúncia fiscal, duas montadoras tiveram vários incentivos para se localizarem na região e o governo não cumpre suas responsabilidades básicas como as da educação, mas pode, ao mesmo tempo, queimar mais de R$ 500 milhões em propaganda e mutretagens de estilo.
Enquanto isso acontecia na Região Metropolitana, em Campo Mourão, dona Fani, secretária da Criança e Assuntos da Família, era alvo de manifestação de professores e alunos também do terceiro grau. Em Maringá, quase na mesma hora, havia outra com variações em torno da mesma temática.
Cada governo acaba ficando com a marca mais forte, uma tatuagem, algo próximo daquela patologia da pele, o vitiligo. E se para este há correção médica, tal o que se diz sobre a medicina cubana, no da tatuagem há situações em que nem a cirurgia plástica resolve. Claro que pode haver reversão, nunca, porém, com este governo que consegue na reprise ser pior do que o do primeiro tempo.


BIZARRICE
Pintaram o Museu de Arte Contemporânea de Curitiba de laranja. É o monumento a um dos traços marcantes da época: a ‘‘laranjice’’. O que tem de ‘‘laranja’’ no caso do pedágio (com deputados e o governo fazendo o ‘‘lobby’’ das empreiteiras) é de assustar.



AXIOMA Vamos imaginar um caso de generosidade pública: admitamos que o atual secretário da Fazenda fosse dono de uma revendedora de veículos e estivesse a negar, como está fazendo, a queda do ICMS.
GLOSA Em nem tudo o Paraná perde na globalização: os irmãos Oliveira, que bolaram o sequestro do Wellington, são bichos da terra. A grife do crime cresce no momento em que as do mundo empresarial caem.
EPIGRAMA A América Latina começa a ficar parecida com a matriz do Norte: já mataram um vice presidente e qualquer dia acertam o titular, como se deu com Lincoln (o primeiro e último lenhador a chegar à presidência) e com Kennedy.
Lincoln foi o último lenhador porque precede a motosserra. E nos nossos reflorestamentos é mais fácil nascer um escravo do que um presidente.
SPRAY Sobrou, outra vez, para o Banestado, agora no ‘‘estouro’’ da Crefisul. Os gênios - aqueles mesmos da brincadeira com os títulos ‘‘podres’’ estaduais e municipais - fizeram uma operação de R$ 20 milhões e com a mesma corretora de sempre.- Para a operação saneamento é o pior que poderia acontecer porque não faz tempo tiveram que internalizar mais de R$ 100 milhões no passivo da Corretora, relativos a títulos estaduais.- Todo esse tipo de jogo é que leva à convicção de que o objetivo maior é botar toda a craca para baixo do tapete, como se fosse uma anistia.- Por falar em anistia, a lei Beto Richa volta a ser questionada, agora por uma omissão relativa ao não pagamento de indenizações aos familiares dos ex-presos políticos falecidos. Esse descuido - o de não pagar contas - é marca registrada da ordem imperante.- Queixam-se os pequenos fornecedores das redes de supermercados que não suportam as exigências de descontos: 5% obrigatório na nota fiscal, 5% no contrato de fidelidade, 3% para entrega no depósito central, 1% para pagamento no prazo combinado. Se isso pode ser suportado pelos grandes, cria transtornos para os pequenos.- Na quarta-feira, 31, Cândido Martins de Oliveira, secretário da Segurança, toma posse, em Brasília, como membro do Sistema Nacional Antidrogas.- A UFPR cancelou as consultas do Núcleo Profilático, primeiro ato para utilizá-lo de outra forma e não de cuidar da tuberculose. A unidade foi doação da Campanha Nacional contra a Tuberculose e está subutilizada, segundo os interessados em desativá-la. Se no Núcleo houvesse mais de um pneumologista (o único disponível atende três vezes por semana), poderia ampliar o número de assistidos a pelo menos 200 pessoas/dia. Não há prejuízo algum: a despesa não ultrapassa R$ 5 mil mensais e é paga pela produção do SUS. O mais grave é que isso ocorre quando o Brasil se vê às voltas com a expansão da tuberculose.- Essa história do encontro de contas na previdência não é bem assim como a simplificação que o ministro e governadores deram a entender. Na 6ª Vara Federal, na Capital, sob número 98.000.1521-3, corre um processo em que o governo estadual pleiteia essa indenização, que deveria, juridicamente, ser feita pelo IPE, razão pela qual foi até arguida a ilegitimidade de parte.- Voltam os estudantes secundaristas, apoiados por um vereador, na demagogia do passe livre em ônibus. Quem se ferra com a tolice é a população trabalhadora, que paga mais por causa das isenções exageradas.- A Procuradoria Fiscal da Prefeitura de Curitiba prova que o recibo provisório foi imposto pelo fato de o sistema de computação estar desativado e quanto aos pagamentos pela conta nº 999, a medida é provisória quando não se identifica de imediato quem efetuou o pagamento. Economia processual, além de prevenir riscos.
FOLCLORE A respeito dessa mania de algumas ‘‘classes’’ desejarem privilégios especiais (meia entrada em bordel, em cinema no futebol, meia passagem nos aviões, como se dava com jornalistas nos anos 50), num dos congressos da UPE um participante da direita (Paulo Ildefonso D’Assunção, que foi promotor em Londrina e um dos mais brilhantes agitadores) propôs moção pedindo o abatimento de 50% no transporte coletivo. Silva Thé, o maior orador da esquerda, emendou a proposta sugerindo que se a estendesse aos sepultamentos. Paulo, irado com a ironia, chamou o contestante de tudo. Este, muito frio, replicou: ‘‘Espanta-me que um defensor do primado do espírito não aceite a contribuição de um agnóstico. Estou numa linha transcendental porque enquanto sua moção cuida de transportes durante a vida, a minha trata daqueles que vem depois da morte!’’ É impossível imaginar um talento desses em reuniões de hoje, seja de estudantes ou dessa fauna pior, a dos políticos.
CROMO A cidade ficará cinza com a viagem do governador à Polônia.
AFORÍSTICO O culto à autoridade na República é mais xiita do que na monarquia.

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