Luiz Geraldo Mazza
Bem agora pintou um gancho - uma conta paga pelo Banco Vetor à mulher do prefeito de São Paulo pelo aluguel de um carro - capaz de complicar para valer tanto Celso Pitta quanto o seu chefe da época, Paulo Salim Maluf. É uma espécie de bumerangue em cima do assanhamento do senador Espiridião Amin na CPI dos títulos estaduais.
E, podem ter certeza, que as coisas não param aí e seus desdobramentos acabarão revelando o que não convinha. Aí, então, os especialistas nas artes de ocultar entram em campo para salvar algo mais abrangente, a República, a essa altura bem perto de voltar ao Baile da Ilha Fiscal que produziu o seu surgimento na monarquia desatenta.
Se chegou no Pitta, pode ser que esteja agora muito mais próxima da pizza tão decantada desde o início das averiguações. Esse envolvimento não retrai o malufista Amin, pois isso lhe seria fatal, já que tenta tirar o máximo para acumular energias eleitorais, como de resto fazem outros senadores, mormente aqueles que estão de olho no processo sucessório regional.
Há muito de cinismo e hipocrisia no ar de espanto das pessoas em relação a práticas típicas do capitalismo no campo dos intermediários financeiros. É da sua essência como o bolo fecal, antes de ser eliminado, percorre a tubulação digestiva a selvageria da especulação e o ar sacrossanto que marginais de gravata e pastinha 007 à mão adotam para simular limpidez na voracidade dos lucros, das fraudes e simulações como gestores da picaretagem. Isso lembra também as discussões éticas na política, sabidamente uma contradição em termos pela impossibilidade de ser adotado um regramento mínimo em relações, o mais das vezes delinquentes, que legitimam o absurdo.
A cloaca está vazando. Nem todas as fragrâncias do Boticiário seriam suficientes para ocultar o odor que traduz a essência do que é apurado. Agora nem chovendo água benta nos livramos da excrescência.
BIZARRICE - Muita gente impressionada com o desempenho de Requião anteontem no Roda Viva. Ocorre que além de estar em posição estratégica e de saber verbalizar como poucos, o entrevistado normalmente dá o banho. Lembro de uma entrevista que fiz com Munhoz da Rocha na tevê com uma pergunta aparentemente irreverente: se ele já havia desembarcado do Tamandaré? (Quando do impedimento de Carlos Luz, 1955, os ministros, dentre eles os paranaenses Munhoz da Rocha e Aramis Athayde, permaneceram a bordo daquela embarcação da Marinha em protesto contra a ação do Exército e contra a qual o Judiciário se mostrou impotente num voto do jurista Nelson Hungria e vagaram pela Guanabara). Bento deu um show ao afirmar que continuava com a bandeira da legalidade como naquele instante e defendia a posse de Jango nos idos de 61. Minha admiração por Bento impediria a malícia de colocá-lo mal, mas não iria ao extremo de levantar-lhe a bola. O entrevistado, em nove das 10 vezes, leva a melhor.
SPRAY - Governo pode atrasar o pagamento do funcionalismo público. Essa vazou do legislativo e embora pareça contrainformação é verossímel. Ajuda a alimentar a desonesta campanha contra o secretário da Fazenda e tenta brecar pedidos de reajuste do funcionalismo. - Por sinal que mais uma vez os professores das universidades estaduais acamparam diante do Palácio Iguaçu: não é a primeira e nem será a última. - O aumento do funcionalismo municipal de Curitiba vai mexer com a cabeça dos estaduais, cada vez mais na fossa. - Na fossa também a hotelaria de Foz do Iguaçu com taxas de ociosidade assustadoras que fez ato de protesto à luz de velas domingo passado. O turismo cai num dos maiores pólos do país em vista da violência (assaltos corriqueiros a turistas e compristas) e do baixo movimento (taxa de ocupação inferior a 40%, o que determina também a demissão de empregados). - Um receptador de carros roubados acusou comandante de pelotão da PM em Santa Helena de chefiar quadrilha de roubo de carros na região. Isso se dá quase simultaneamente com o episódio de Ibiporã, o que mostra o quanto está assoberbado o setor de Segurança. - No Roda Viva Requião sugeriu que Álvaro Dias e não ele havia montado uma cadeia de rádio. Ele também montou, mas não é isso a acusação no TRE: há sete quilos de papel sobre diárias frias, de desvio de função, propaganda pessoal e partidária com dinheiro público e assim por diante. Urge que o país conheça o conteúdo das denúncias para que o TRE não seja julgado com maior presteza do que o ex-governador. - Ângelo Vanhoni tentava, junto com o senador Requião, ontem em Brasília, obter documentos da CPI que comprovariam o envolvimento do Banestado, para a reunião desta quinta-feira. Urge esquentar esse encontro secreto e tentar fazer a CPI estadual, melhor solução para todos. E também uma que explique os fundamentos da cassação de Requião. Afinal o assunto é grave demais para não ter seu exame na instância apropriada, a política.
FOLCLORE - Nélis Rovedo, parnanguara histórico que lidava com importados, deu um sabiá laranjeira de presente ao delegado Nelson Vernalha. O delegado, ao ver a ave na gaiola, que ela não tinha uma das perninhas, reclamou ao Rovedo e esse estrilou: Você queria que ela dançasse ou que cantasse? Ela canta.
CROMO - Alma de gato, pavão alado e raro nas matas, quebra a rotina verde do Capivari. Se continuar perseguido, teremos de cloná-lo para manter o cenário.
AFORÍSTICO - A sessão secreta da Assembléia Legislativa para examinar o Banestado (amanhã) vai lembrar algo bem próximo do confessionário e o cura, o que é repetido no nome, é o Khury, o Aníbal, que como sempre age como depositário fiel da Casa.





