Luiz Geraldo Mazza
O maior estimulador da crise no campo é o governador. Com o temor, a paranóia de que se dê com ele o ocorrido com Álvaro Dias no confronto com as professoras, vive a postergar decisões sobre o assunto, enrola, anuncia cumprimento das medidas judiciais relativas aos despejos, fica tudo no papo furado.
Com isso, facilita as invasões. Bastou, por exemplo, dizer que iria atender a 11 reintegrações para que o MST respondesse de bate-pronto com mais 12 invasões no Noroeste. Acaba, por uma via indireta, instigando o bem organizado movimento basista a novas audácias. Percebe-se que desde o incidente de Santa Izabel do Ivaí, em que um sem-terra perdeu uma perna, o que também implicou na queda do Comando do Policiamento do Interior, tudo fica em panos quentes.
Aí os ruralistas começam a perder a cabeça e querem derrubar a direção do INCRA (Petrus Abib) como já haviam tentado em relação a Maria de Oliveira, a quem acusavam, como fazem agora com seu sucessor, de jogar a favor do MST. O dirigente se irritou com o passionalismo dos parlamentares, muitos deles proprietários de terras, e desafiou-os a que abram as respectivas propriedades para uma competente vistoria. Como ninguém gosta de vistoria alguma, é claro que irão tergiversar.
Tudo é feito em vassalagem à sociedade do espetáculo, a respeito da qual ninguém teorizou com tanta desenvoltura como Guy Debord. Enquanto as cenas vão se sucedendo, Lerner ganha tempo e por uma circunstância - a de que estamos diante de um caso de inércia nervosa, tensa, que sugere uma falsa dinâmica. Também o ayatolá da utopia regressiva, João Pedro Stédile, campeoníssimo de bravatas, ameaça invadir agências do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal se o governo, por ordem do FMI, decidir privatizá-las. Já fez igual ameaça quando do leilão da Vale do Rio Doce e das teles e tudo se limitou à melancólica e pobre manifestação de sempre: as palavras-de-ordem primárias, a visão do atraso, do arcaico, a patacoada de cantar as delícias da sociedade pastoril, a ingênua proclamação do nacionalismo e da autarquia econômica que nem a China Continental foi capaz de cultivar.
É verdade que o ritmo da reforma agrária parece acelerado aos proprietários e lento demais aos sem-terra, o que mantém a tensão dialética de um país que precisa avançar (e já detém sinais de pós-industrial), mas que desdenhou o problema do campo da mesma forma que agiu na questão abolicionista. O pior é que guardamos até hoje os sinais da sociedade escravista e que o partilhamento da terra será apenas uma solução social e provisória para milhões de pessoas e jamais uma saída econômica. Daí a demagogia verberar no discurso dos dois lados. Finge-se que há uma luta até que estoure algo como Eldorado de Carajás ou também Campo Bonito, seguindo-se o ritual das purgações de culpas.
BIZARRICE Numa reunião, que teria havido entre Lerner e Requião sobre o caso dos precatórios, na casa de Maurício Frischman, o peemedebista disse que o seu adversário estava cometendo uma loucura e o outro replicou, como quem sugere o remédio, que frequentava um psicanalista porque queria ser feliz.
Por que será que a felicidade de um governante, seja Requião ou Lerner, é quase sempre a infelicidade da maioria?
AXIOMA Nos últimos meses do ano passado, o governo limpou o mico na maxipicaretagem que foi a negociação com títulos estaduais. Internalizou os tais prejuízos. O banco estadual tem sido tão negligente nessas questões que já deu margem até a uma anedota entre árabes. Um liga para o outro.





