Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O apaga-rastro
O segundo governo Lerner vai tentar, de todas as formas, apagar os rastros, as pegadas do primeiro. Ontem, outra vez, o Palácio Iguaçu tremeu com a informação pelo STF DE que a lei que mexeu na estrutura funcional do Fisco foi derrubada por unanimidade. Essa vergonheira, mais uma dentre as muitas típicas do regime de compadrio entre o governador e um legislativo que aceita tudo, pretendia permitir que funcionários sem concurso ocupassem o cargo de fiscal. E o governador, mais o Giovani Gionédis, a quem cabia resistir para defender o estamento que administra, que é a corporação fazendária, se curvaram à jogada primaríssima - o primeiro sancionando algo que a inconstitucionalidade era por demais visível e o segundo se omitindo. Em dupla, como sempre.
Como o apaga-rastro é para esconder, ocultar, enrustir, transformar tudo numa espécie de tesouro da arca perdida, percebe-se que só há um jeito de conter a fúria deste governo: valer-se da justiça, como já está ocorrendo no escândalo da Leasing. O perigo que há, não apenas na forma, como se saneará ativos públicos como o Banestado e se privatizará a Copel, é o de se buscar formas de driblar as atenções, jogando a sujeira para baixo do tapete, uma anistia que beneficiaria a corrupção e a fraude.
A derrota da leviandade do Executivo e do Legislativo é um bom sinal. Todavia, a lentidão dos procedimentos (casos da Leasing, Corretora) é um elixir para os que fraudam, já que os gravames mais sérios não são punidos. A situação do governo não é essa que se extrai do noticiário, aparentando saúde de vaca premiada, higidez extrema. Num debate no Senado, Esperidião Amin, ao comentar o empréstimo superior a R$ 4 bilhões ao Banestado, disse que isso cheirava a fermento e possível queima de arquivo. Nesse mesmo dia, Requião, bem no seu estilo, declarou que com mais esse ônus, o do empréstimo, cada paranaense passava, em função disso, a dever quatro salários mínimos.
Ontem foi o dia de receber a nota formal da decisão do STF no Palácio. Se tudo continuar do jeito que está, chegará o dia da visita do meirinho. O segundo mandato não vai apagar os rastros do primeiro, como alguns querem.
BIZARRICE
Volta e meia aparece uma dessas histórias de santas que choram como essa de São José dos Pinhais. Com tanta efusão, só falta um santo rir do excesso de crendice militante.
AXIOMA Para viver no mundo da lua não é preciso sair do Chapéu Pensador.
Como também se pode escorregar na lama pisando sobre o carpê.
GLOSA Agora chegou a vez da rede de supermercados Condor ser absorvida. No fim deste governo não haverá uma só empresa paranaense operando, mas felizmente, para o conjunto da população, os governantes vão morar nas sedes dessas grandes multinacionais, Paris de preferência. Ontem, por sinal, havia em vários pontos da cidade um out-door com os seguintes dizeres: HSBC não pagou os 53 mil acionistas paranaenses. Nesses novos caminhos os paranaenses saem sempre na pior.
AUTOFAGIA A cada vez que alguém se dispõe a denunciar as mutretas públicas, diz-se que se trata de autofagia. É o velho truque do poder para cobrir-se com o manto da impunidade. Interessados na questão dos precatórios do Paraná, o que mostraria que o céu do nosso vôo não é de brigadeiro, pretendem mandar uma correspondência ao Banco Mundial para que tome conhecimento dessa realidade sempre dissimulada. Em escala nacional, a entidade dos que têm precatórios a receber já fez isso. Autofagia é a dos que comem o Paraná, o seu patrimônio e até mesmo a sua esperança.
EPIGRAMA A subversão dos ditos populares, com o pragmatismo da moda, engendra coisas incríveis: diz-se agora antes mal acompanhado do que só. O poder, como se sabe, em hipótese alguma, está só.
ÓCIO Volta com todo o vigor o tema da liberação do homem para o lazer diante do mundo moderno com nova entrevista, agora na Exame, do sociólogo italiano Domenico De Masi (aquele que abafou na Roda Viva e que pelo sucesso teve repeteco por duas vezes). Uma das primeiras pessoas, embora imersas nas lutas imediatas do socialismo do século passado, que tratou do tema foi o cubano-francês Paul Lafarge, genro de Karl Marx, no mini-opúsculo O Direito à Preguiça. Na capa, a sentença: 8 horas de trabalho, 8 horas de lazer, 8 horas de sonho. Esse ideário, àquele tempo uma aspiração, está de longe superado em termos mundiais, embora em bolsões subdesenvolvidos ou híbridos como o Brasil ainda possa significar alguma coisa.
SPRAY Ensino privado com duas situações - que ferem a sua imagem em Curitiba: os vestibas da Tuiuti e da Uniandrade. No primeiro uma ação civil pede a anulação do vestibular de direito, suspensão das aulas e novas provas: no segundo a Adoc está pegando no pé por causa da falta de condições operacionais dos cursos ofertados e propaganda enganosa, com a agravante de haver o pagamento da taxa de inscrição sem garantia do funcionamento da área escolhida. Uma zorra.-
Estória do uso de minas em batalhas rurais tem tudo de guerra psicológica. Pra começo de conversa, o expediente não garantiria a propriedade (pessoas e animais) dos que a empregassem. Tática de Jim Jones.- O governador Jaime Lerner deveria renunciar ao mandato, recebido pelo voto do povo, por desrespeitar a Constituição ao deixar de cumprir decisões da Justiça de reintegração de posse de propriedades invadidas por sem terra. A sentença é do presidente da OAB-PR, Edgard Cavalcanti. Lerner não está nem aí com o tema porque prefere empurrá-lo com a barriga, como vem fazendo. Até quando? Não dá mais para fazer o bom moço. Essa indecisão é mais mortífera do que a tal mina referida pela advogada Dionéia Dresch.- Terreno minado é o que Lerner deixou para ele próprio. Até para autodestruição há limite.-
FOLCLORE O João Batista Moraes, ex-diretor do grupo Paulo Pimentel, é uma pessoa de bom humor, mas anda não aguentando um conjunto musical da Praça Osório, em Curitiba, e que passa o dia inteiro tocando nas proximidades da rua senador Alencar Guimarães. José Nociti, o cartorário, quando se viu diante de uma situação dessas nos anos 60, quando morava no Palácio Avenida, deu um tiro de revólver de sua janela no luminoso da loja de som, e quando o vizinho do andar superior abusou no barulho, não teve dúvidas e disparou o revólver porque com a vassoura já havia batido dez vezes. Quando todos estiverem enlouquecidos, aí as autoridades intervirão.
CROMO Caiu a segunda estrela no firmamento e já não tenho poesia para imaginar algum sonho que deva ser realizado. Não caí mais do que as estrelas cadentes, apenas e infelizmente perdi a ingenuidade.
AFORÍSTICO Acabara de ver uma sessão parlamentar e me mandam um convite para a abertura do festival de teatro, em que o cenário seria um circo. É redundância demais, embora o circo da ficção só nos alegre e o outro nos faça tristes. -





