O Partido dos Trabalhadores tenta de todas as formas assumir, quando isso não é verdadeiro, o papel de guia do Movimento Sem terra, com o qual mantém claras afinidades, mas que estão longe de justificar o oportunismo dos que buscam apontá-lo como um subproduto de sua atuação no campo informal, pois de há muito a opção se voltou para o lado institucional, onde na questão agrária tende o governo a levar as vantagens decorrentes de avanços como o do juizo sumário e a taxação progressiva das terras ociosas.
Essa ambivalência petista, que oscila entre ação informal e institucional, nada tem de revolucionária, embora alguns dos seus mentores a encarem dessa maneira, está mais para ‘‘gincana’’ do que para luta focal, conquanto um setor da direita, o da UDR, tente levar as coisas para esse ângulo. Ocorre que é tênue o limite que separa um campo do outro, notadamente quando o cenário passa a ser nutrido pela anomia.
A moratória desse processo não é indefinida e está sujeita, a qualquer momento, a ser toldada por alguma coisa parecida com a síndrome de Ibiporã e que obrigaria o setor institucional, governo e justiça, a agir com um mínimo de rapidez antes que se instale o caos. Só espíritos românticos acreditam que na sociedade militarmente hegemônica algo como Chiapas, a rebelião mexicana, se pulverize no país e obtenha, lá adiante, algum progresso relevante, quando não deixa de ser, tragicamente, uma forma de imobilismo com todo o charme que existe nas causas da pobreza e dos oprimidos de um modo geral.
Como o governo não quer assumir o ônus da repressão, mesmo quando sob ordens da justiça, aos radicais da direita não há outro caminho se não o de sinalizar formas de resistência pela contratação de sistemas de segurança, os ‘rangers’, que poderão dar origem a uma contrafacção da Ku-Klux-Klan. Se a ameaça sair do jogo de palavras ao MST não haverá alternativa que não a de armar-se ainda que de forma discreta e bastará isso para que tenhamos aquilo que Mao-Tse-Tung chamava, com força imagética, de ‘uma fagulha na pradaria’.
O que não pode ser mantido indefinidamente é esse confronto contido em camisa de força pela circunstância de não se poder prever quando se sairá do discurso para a ação concreta. Chegará um ponto em que o governo também não poderá ficar posando de bom moço e politicamente correto porque terá perdido todas as condições de arbitragem e mediação. E se é ruim para FHC tal hipótese, também não é boa para os sem terra que sofreriam uma implosão na coesão interna se as ações de repressão fossem desencadeadas e com elas a esperança, hoje o motor do movimento, fundamento do voluntarismo, se dissipasse em frustração aberta.
Teríamos a reprise, no Brasil, daquilo que se dá no Zaire com o nomadismo agora não apenas dos sem terra, mas dos sem esperança.
BIZARRICE Frase de Fábio Campana sobre a reunião do PMDB semana passada: ela esteve à altura do cardápio do Madalosso. Aliás o vinho de lá e o de Colombo derrubam aquela frase ‘‘não há verdade que embriague como o vinho’’.
SPRAY Euclides Scalco, dirigente da Itaipu, estaria turbinando a marcha de Lerner para o PSDB. Isso está irritando os tucanos caturras, mas pelo jeito vai dar samba. - Álvaro Dias é trabalhador e amplia os quadros do partido, mas para FHC ter Lerner como adversário, nacional ou local, é mau negócio. Daí a razão de buscar-se fórmula que acomode Álvaro e Lerner e isole Requião. - Uma das coisas que deverá constar da reunião sigilosa dos diretores do Banestado é a situação herdada do governo passado. Aí se divulgarem os nomes de devedores é bem capaz de ‘‘pintar’’ deputado no pedaço, isso sem falar no caso de um dos dirigentes do PMDB que ficou devendo um milhão de dólares. Isso, porém, não irá livrar diretores atuais de perguntas embaraçosas na trilha dos títulos estaduais e das debêntures que colocam mal a Corretora e a Leasing. - Até o final desta semana sai no Diário da Justiça a nomeação dos 15 novos juizes substitutos (dez para o norte, cinco para o sul-sudoeste). - Começa hoje o III Congresso Nacional do Movimento do Ministério Público Democrático em Foz do Iguaçu (Hotel Mabu) sobre direitos humanos. Falam hoje Alessandro Baratta e Juarez Cirino dos Santos, o primeiro mestre da Alemanha e o segundo da PUC Paraná. - Por que a justiça é emperrada? Simples: há seis meses foi aberta inscrição para concurso de seleção a pessoal auxiliar do juizado especial da Capital e havia 6 mil candidatos para 30 vagas. Até hoje não saíram as provas que estavam marcadas para dezembro do ano passado. - Com o Ibope de FHC subindo - e ele cada vez mais majestático - não vai ser fácil tirar a oposição do desespero. Houve um consolo para os sulistas: aqui é o menor índice (pouco mais de 60%). - Campo Largo em tempo automotivo (Chrysler) vai ganhar uma revista chamada ‘‘Ideal’’. Da cerâmica para o carro, um salto enorme. -
FOLCLORE Um advogado da praça vai ao juiz e faz uma petição. Explica-a antes de encaminhá-la formalmente. O magistrado alega que não é competente para o exame do assunto. O advogado, desatento, o bajula: ‘‘modéstia sua; modéstia sua.’’ A autoridade esclarece que ela é ‘‘ratione materiae’’. Isso é em razão a matéria. O basbaque não se contém e replica: ‘‘apelando ao latim para insistir na modéstia?’’. O juiz não teve saída: mandou o cara pra fora da sala porque para bajulador inexistem limites.
CROMO Por que se fala tanto em privacidade quando virou mania a declaração de amor em ‘‘outdoor’’ ?
AFORÍSTICO Baudelaire dizia que o homem vai ao campo para reconstituir a cidade. Como tudo está igual à cidade, a busca é inútil e enfadonha.

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