Luiz Geraldo Mazza
O mau exemplo
Qual a moral que tem um governo de pregar austeridade, rigidez nas contas, se vive a viajar para o exterior (a próxima parada é a Polônia) e deu mostras de prodigalidade extrema nos gastos com propaganda (R$ 500 milhões num período de quatro anos)? Se sai daqui, numa crise e em meio a uma negociação relevante entre o presidente da República e os governadores, para assistir a algum ato artístico ou social de sua filha no exterior, carece de razão moral para exigir dureza nos comportamentos. Ademais, quem promove a secretário um diretor (Leasing) que ajudou a afundar o Banestado não parece estar na mínima condição de fazer cobranças. E o exemplo é bom para mordomias como a desejada pelo Legislativo na compra de automóveis de luxo, importados.
Não se vê, pois, atitudes exemplares - e que cabem ao comandante - para que se crie uma ‘‘cultura’’ generalizada de sobriedade. Num momento em que o Paraná é prestigiado, como em nenhum outro período de sua história, com a presença do presidente da República em inaugurações públicas ou privadas, é, de fato, assustadora a frequência com que o governador abandona seus afazeres para ir ao exterior. A cada viagem, segue-se a acrobacia da Comunicação Social palaciana para tentar justificar esses deslocamentos com vagas promessas de que haveria este ou aquele benefício.
O Paraná é hoje um balcão de negócios, e quanto mais se praticam os chamados atos de privatização, mais nítidos ficam os enlaces com grupos privados internos, seja nas estradas pedagiadas, na venda dos ativos públicos que vão da Copel, Banestado e Sanepar a prédios como o da Prisão Provisória do Ahú, enfim, um clima de fim de festa. Se é verdade que os tempos que vivemos são desmistificadores dessa relação público-privado, aí marcada abertamente por favoritismos, nada justifica que tenham ganho tão excessivo, ‘‘aggiornamento’’ como nos dias atuais, ao ponto de não mais existirem limites, de não se conhecer a fronteira entre o ato temerário e o regularmente fixado em leis e costumes.


BIZARRICE
Se o governador aprovar novas tarifas para o pedágio, e o ato não vier de decisão judicial, deveria renunciar. Seria atitude de decência e uma prova de que sua palavra é para valer. Mas aí deveria morrer também porque, segundo Aníbal Khury, numa entrevista a Sílvio Sebastiani, Lerner teria dito que preferiria partir desta para melhor se fosse obrigado a vender a Copel. Como ensina a Bíblia, a ninguém é dado dizer que desta água não beberei. Bebe a água, a represa, a turbina e as linhas de transmissão. Menos os raios.



AXIOMA Como se não bastasse o Executivo e o Legislativo estarem promovendo o reajuste do pedágio, há ainda gente da área de Comunicação Social do governo com firma prestadora de serviços às concessionárias. É assim mesmo: paga-se pedágio para tudo e, por vezes, em nome da sobrevivência.
GLOSA As mesmas empulhações sacadas no exterior sobre Curitiba se repetem agora a respeito do Paraná. A revista francesa ‘‘Le Point’’ entra naquela de chamar a região de ‘‘Paranaíso’’. Paranaíso para alguns: os que vão receber o aumento do pedágio, os que vão comprar empresas públicas, os deputados que ganharão o seu Passat importado, os grupos multinacionais, enfim, e mais, é claro, a tchurma de sempre, especialmente a da propaganda.
Para a maioria do povo é purgatório. Menos ruim do que o inferno.
ENDOMARKETING Houve um dentista do Paraná, o mestre Cavanha, que ficou famoso por ter nomeado cientificamente o tratamento de canal: endo-ducto-odonto-terapia. Pois agora os marqueteiros, de olho no Banestado, vem aí com uma proposta de ‘‘endomarketing’’, isto é, marketing para o público interno, que vai fazer a persuasão, a sedução do corpo funcional para os novos tempos. Como não tempos oposição, porque institucionalmente é limitada, é preciso ficar de olho nos dispêndios ritualísticos do saneamento à privatização do Banestado.
Haverá campanhas voltadas para outros alvos: o público em geral, o acionista, o correntista. Depois das tramóias que ocorreram e permanecem impunes, o povo, que afinal é sustentáculo do banco público, teme fazer o papel de palhaço ao ver os inadimplentes deitando e rolando e não pagando coisa alguma.
ADÁGIO ‘‘Só se lembram de Santa Bárbara quando ronca a trovoada.’’ Esse dito popular cabe como uma luva no caso do ‘‘apagão’’ do sistema elétrico do País: se um raio é capaz de provocar tão extenso drama, como se justifica a falta de salvaguardas técnicas para evitá-los, no caso específico de Bauru, que já foi famosa pela úlcera e o sanduíche que levam o nome da cidade, pela presença do Pelé na infância como atacante do ‘‘Baquinho’’, e agora pela fúria dos elementos.
Na minha infância, em Paranaguá, quando havia raios, a primeira providência era cobrir os espelhos que se acreditava que os atraíssem, como pensávamos o mesmo, mais tarde, relativamente aos balões que tentávamos magnetizar.
SPRAY Sérgio Reis vai ser convocado para as tarefas de marketing do Banestado, da transição com o saneamento até a privatização.- Um panfleto circula na praça indicando caixa 2 em órgão estadual, e seu autor promete denúncia ao Ministério Público. Deveria fazer isso antes do panfleto.- Antonina volta a esperar uma solução (e isso tem acontecido tantas vezes ao longo da história) para o seu complexo portuário em função do fim da Flutrans.- Solução nova para o metrô de Curitiba vai surpreender: é elevada e operará no intervalo da pista dupla. Nos viadutos haverá a interseção de ‘‘pontos intermediários’’. Entendeu-se que não é possível, com o adensamento já existente ao longo do eixo Norte-Sul, adotá-lo para esse fim.- Vejam a brincadeira que é o ensino superior no Brasil: a Uniandrade ofertou 7.500 vagas no seu vestiba e compareceu menos da metade de interessados. Empirismo demais e o Ministério da Educação só observa.
FOLCLORE Como a revista ‘‘Le Point’’, francesa da terra da Renault, já disse que somos um Paranaíso, houve quem confundisse a expressão com panarício, aquela infecção que atormenta. Há o caso de um garçom que padecia do mal e foi aconselhado a botar o dedo inflamado na sopa quente que servia no restaurante. Aí o cliente perguntou por que ele fazia aquilo e houve a resposta de que o panarício é congestivo e com o calor abranda. O resto da história é tão impublicável quanto será o fim deste governo.
CROMO Outra vez, além da janela, como se estivesse fora do mundo, ou pelo menos dos esquadros, o beija-flor, minúsculo, adeja no pequeno jardim, dando expressão incomum às rosas e margaridas que corteja.
AFORÍSTICO E quando será, Senhor, que nos livraremos de todos os governos?

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