Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O apagão e a paranóia
Bastou haver o blecaute do sistema interligado de energia para que fossem imaginadas até ações de sabotagem, como houve no caso da queda das torres da linha de transmissão ou ainda naquela questão específica da Eletronorte, quando os índios derrubaram duas com protesto contra a demora na demarcação de suas terras. O fato é que ocorrências do gênero se dão, inclusive, no chamado Primeiro Mundo. O Brasil aprendeu tudo nessa área, mas deu mancadas como as absurdas situações de Xingó e agora de Porto Primavera. Houve também erro de manejo, anos passados, quando por falta de melhor coordenação, duas usinas hidrelétricas acabaram carregadas pelas águas. Uma delas, lembro, levava o nome de Euclides da Cunha.
Como o apagão se dá em meio à controvérsia em torno da privatização radical do setor, tendência dominante, ou a devolução do sistema ao Estado, como pretendem petistas e brizolistas, isso dá margem a ricas conjecturas de forte conteúdo ideológico. A entrevista coletiva de anteontem de todo pessoal ligado à área acabou mais confundindo do que clareando, tal a dificuldade em precisar as coisas e projetar as dimensões dos prejuízos sofridos pelos consumidores.
A própria agência do governo, Anael, que vem sendo criticada violentamente pelas falhas de concessionárias, como se dá com a Light no Rio de Janeiro, em nada recuperou a imagem na coletiva. O público, de um modo geral, que sofre demais com os telefones celulares, e portanto põe em dúvida a eficácia da privatização das teles, projeta essas preocupações para a área de energia elétrica. Os grupos internacionais perderam o domínio da área porque, alegando nenhuma lucratividade com tarifas deprimidas (e apenas reajustadas pelo custo histórico), aceitaram as formas como acabaram encampadas com seus patrimônios materiais degradados, sucateados. No caso do Rio, na questão da telefonia, há toda uma herança que vem da Telerj, e o mesmo se dando com o da energia.
É vendo as médias condições operacionais e seus respectivos custos do sistema nacional em contraste com o eficaz operado pela Copel, que se teme que esse governo do Paraná, que dá tudo fácil aos investidores no caso das montadoras, o que é um escárnio aos empresários nacionais e regionais que nada ou pouco recebem em estímulos, não saiba vender bem o seu principal ativo. Há sólidas desconfianças de que o processo não será transparente quanto se deseja e que, mais uma vez, como se dá em outros setores, o circuito mais íntimo decidirá não só o modelo da venda, como também os beneficiários.
O incrível é que numa gravação de TV com Aníbal Khury, este declarou que ouviu Lerner dizer que preferia morrer a alienar a Copel. A língua, como diziam as vovós, é o chicote do traseiro. E nada tem daquele da Tiazinha.
AFORÍSTICO
E que tal para nós, pecadores, uma chuva de água benta? Seria o ideal se precedida do castigo de uma tormenta de m. Purgação para valer
BIZARRICE As concessionárias do pedágio sugerem que estão no vermelho, mas pelas publicações que editam, a grana não está faltando. Além da luxuosa da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (Abor), há também as muito bem feitinhas das regionais.
AXIOMA Se o Pinheirão for vendido para o governo é chuncho, porque nem o que a Federação Paranaense de Futebol deve ao Banestado foi pago e que acabou recebendo cadeiras cativas, que não consegue vender porque ninguém acredita no mausoléu. No momento em que privatiza coisas boas, como a Copel e o Banestado, o governo tende a assumir um conto do vigário. Como se vê, o que precisa ser desprivatizado é o Poder Público.
GLOSA O presidente do Banestado Reinhold Stephanes anunciou que é hora agora de cobrar os devedores. Se agir com a mesma eficiência que teve à frente do ministério, quanto aos devedores do INSS, tudo ficará na mesma. Um conselho: atribuam, mesmo que pareça pouco ortodoxo, ao Funbep essas cobranças e veremos se os políticos tradicionais terão peito de impedí-las, como sempre fazem. O fundo de pensão dos bancários depende disso para receber as aposentadorias e iria atrás dos caloteiros com o furor de um pobre atrás de um prato de comida.
SPRAY A emenda ficou pior do que o soneto: Aníbal Khury afirmou que os carros novos, Passat VR6, irão apenas para os novos deputados. Os veteranos, como Orlando Pessuti, exigem o princípio da isonomia, isto é, querem a caranga. - O mais grave é que a repercussão foi a pior possível, como se verificou na CBN anteontem, com dezenas de ouvintes protestando. Quem tem o peito de pleitear o aumento do pedágio, tira essa de letra, pois não estão nem aí com esses pundonores. - E que coisa mais mal inspirada do que esse pleito de Álvaro Dias para que haja mudança no ministério. A muda deve ser de rumo, não de nomes. Isso pouco altera a correlação de forças e o nível de eficiência. Retórica inócua, nada mais. - Luiz Alfredo Malucelli, Malu, empolgado com o sucesso das vendas do seu livro Nem só de pão vive o homem, aguarda o levantamento da Livraria Ghignone para saber se lança já a segunda edição. E já estão propondo a gravação das historinhas em fita. Um dos intérpretes seria Jamur Júnior. - Um conselho do cartel das concessionárias de rodovias, baseado em parecer de Antonio Carlos Cintra do Amaral, sugere, imperativamente, que as leis estaduais que estabelecem isenções (como houve aqui no Paraná) exige recursos substitutivos ou revisão da estrutura tarifária. O jogo que vem aí é pesado e se Lerner bobear, por descuido ou método (o que pode acontecer), a parada vai ser duríssima. - Sobre estradas quero insistir numa coisa: não botem asfalto na Estrada da Ribeira - que é federal, e que grande parte dela no Paraná, entre Curitiba e União da Vitória, foi feita pelo Estado - antes de uma revisão em profundidade do traçado, tortuoso, antigo, antieconômico e perigoso. - Caso mal explicado da juíza, punida pelo corregedor, que contratou gente para matá-lo, ainda sem solução no Judiciário. Segundo se propala, teria havido uma sessão secreta para apreciação do caso que chegou a sair na imprensa, mas que não convenceu nem o delegado de polícia que presidiu o inquérito.
FOLCLORE Situação curiosa no Conselho do ParanáPrevidência: como o presidente da sessão saiu, o da entidade mais antiga assumiu e é da Sociedade dos Sub- Tenentes e Sargentos da PM, criada em 1915. Quatro coronéis PM que representam outras entidades milicas não querem participar de sessões posteriores para não ter que bater continência para o sargento. Kafkaniana para valer.
CROMO Moto contínuo: a minhoca retém o húmus do solo, a galinha a bica e depois também deposita mais fertilizante.





