Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A carruagem da realeza
Esperava-se que a República pusesse fim aos transbordamentos aristocráticos, já que se entendia que esses sinais eram típicos da monarquia. Um engano, pois as práticas de mordomias, faraonismo, não só se intensificaram como parecem ter ganho mais elasticidade como o regime republicano.
Ao mesmo tempo em que a Assembléia Legislativa se dá aos abusos costumeiros das convocações extras e desconvocações, o que tem sido uma forma indireta de estimular a volta do autoritarismo por um raciocínio tortuoso, agora anuncia a compra de 22 Passat VR6, importados. Num momento de crise cambial não debelada - ontem o dólar andou chegando outra vez perto dos R$ 2,00 - Aníbal Khury anuncia a importação. Passa por cima também de qualquer consideração ligada à licitação. O que, de certa forma, não espanta, já que estão acima do bem e do mal, a ponto de o presidente não cumprir decisões judiciais até do STF, em favor de grupos funcionais.
O governo faz um esforço brutal, prejudicando a sua arrecadação e o conjunto da economia, ao valer-se da imunidade fiscal para atrair as montadoras (nada menos de três aí estão), e os nossos parlamentares resolvem dar o exemplo contrário do que deveria ocorrer agora, com a restrição a importações e não com o seu fomento, como está, no caso, ocorrendo.
É o sinal que o regime republicano mantém o que havia de característico da ordem monárquica e num sistema de castas: o apego ao luxo, ao voluptuário, com uma compulsão de escola de samba, regida pelo Joãozinho Trinta. A impressão que se tem é que jamais no Paraná teremos algo como o ocorrido na denúncia contra a família de Íris Resende em negócios públicos ou a patifaria dos vereadores e administradores regionais de São Paulo, pelo menos nos meios de comunicação.
Aqui o que prevalece é a versão oficial de tudo, seja no governo estadual, seja no municipal. Naquele, como neste, se estiver ocorrendo algo bem parecido com o que se dá em São Paulo não vamos saber de nada, a não ser que um empreiteiro ou fornecedor passado pra trás abra a boca e chegue aos jornais. Como também a maioria desses está em conluio com o poder político, vide o episódio do pedágio, a corrupção aqui há sempre de ser presumida, porque os sinais de riqueza dos agentes públicos são cada vez mais evidentes, como também a sua certeza de que jamais terão problemas, porque essa é a normalidade desses dias e desse ecoambiente. Anormalidade é ajustar-se à lei.
CROMO
O sapo da Budweiser é tão colonizado que no coaxar dá o nome da multi. Em dupla, é claro. Como convém a um coral do charco
BIZARRICE Argemiro Garcia, jornalista, atravessava a Rua XV de Curitiba portando uma silhueta, em papelão, de propaganda da Tiazinha. Num determinado momento, deixou a armação na forma vertical e se espantou com o número de curiosos: um deles, mais afoito, chegou a morder a parte anatômica mais visada da titia. Vá ser fetichista assim na casa do chapéu.
AXIOMA Nunca se fez tanto negócio na área pública: dá impressão que tudo está à venda, do Presídio do Ahú (no qual raramente entra um político a não ser para visitas) às estatais e nunca também houve tantas parcerias. Nesse ritmo, acabam privatizando a rua e com a cobrança de pedágio.
GLOSA Por falar em pedágio, percebe-se o intento do lobby em acelerar tudo para que saia o reajuste ainda no meio da safra. Tony Garcia, que recebeu várias mensagens do interior de apoio à resistência, vai pedir ao governador que no mínimo deixe qualquer decisão para depois do escoamento.
PRECATÓRIOS O caso dos precatórios volta à baila com a publicação detalhada, num semanário, desse problema no Paraná. Antes de 1988, havia 415 precatórios. Em 95 entraram mais 35, em 96 mais 267, em 97 mais 441, em 98 mais 320. Tema gravíssimo, já abordado pela Carta Capital, que mostra um débito, ainda incompleto, de R$ 70 bilhões no Brasil, fato já colocado junto ao FMI e aos credores internacionais e demais financiadores. Vai sobrar alguma coisa para o Paraná também nesse assunto e em escala internacional. Quem aciona é uma associação de vítimas de precatórios (maior parte de São Paulo). O assunto regional estava ontem, coloridíssimo na Internet. Se segurassem o jornal, como alguns pretendiam, não seria possível mostrá-lo na infovia.
SPRAY Tanto o ouvidor como o delegado dos Crimes contra o Patrimônio Público cumpriram seu papel institucional ao receberem, documentadas, as denúncias contra o secretário da Fazenda. Se houver qualquer represália contra esses servidores, é prova de que dentro em pouco teremos o DOI-CODI. - Os autos do inquérito levam o número 056/99. Na certidão consta o seguinte: apuração de crimes de advocacia e improbidade administrativa e sonegação fiscal. E aponta o indiciado: A apurar e vítima: O Estado. - Já a OAB-PR, conforme informei, mandou arquivar a denúncia de idêntico teor junto ao Tribunal de Ética da mesma entidade. - 245 casos de janeiro até agora provam que há surto de meningite em Curitiba: desse total, 196 no Hospital Pequeno Príncipe. Esse é o levantamento de apenas três hospitais. - Muita alegria nos meios intelectuais com a vitória do escritor Valêncio Xavier no Prêmio Jaboti. - Quinta-feira, na Associação Benfaz, dos servidores da Receita Federal, junto à Represa do Capivari, foi capturada uma carpa de 27 quilos. Na represa há carpas não apenas autóctones, como também as exóticas: cabeçuda, húngara, espelho, capim. - Espera-se que a Polícia não durma no ponto em relação aos abusos das torcidas no Atletiba de amanhã. Indispensável, a qualquer momento, alguém fazer campanha como a de uma rádio alternativa de Belô para pregar a paz no clássico Atlético versus Cruzeiro, ainda mais depois da inteligente decisão da diretoria do Atlético Paranaense de fazer os dois jogos da Copa Sul no Couto Pereira, o que vai dar mais dinheiro para ambos, conforto para o público e, obviamente, mais beleza como espetáculo.
FOLCLORE O blecaute de anteontem levou a uma reminiscência da 2ª Guerra, ocorrida com o crítico Wilson Martins, à época locutor da Rádio Clube: ele anunciava os que burlavam o exercício de defesa passiva, através de ligações de ouvintes. Só que incluiu algo que não podia estar apagado: uma vela permanente da Catedral Metropolitana. Wilson ri muito da história.
AFORÍSTICO Muito espírito na manifestação das vovozinhas, fantasiadas de forma caricatural de Tiazinha, diante da Câmara Municipal de São Paulo, prometendo tirar não o pêlo, mas o couro dos vereadores safados. A esquerda tem muito a aprender com elas. O bom humor é melhor do que histeria verbal.





