Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O sórdido estelionato
Para muita gente Aníbal Khury é um paradigma. Positivo ou negativo, conforme o ângulo de quem esteja observando, mas paradigma. Pois o Aníbal disse, de forma clara, com todas as letras, que a redução do pedágio por Lerner visou tão somente objetivo eleitoral. O nome disso é estelionato, mais claro do que o alegado pelo PT relativamente à âncora cambial de Fernando Henrique; maior mesmo do que o do Plano Real e do Plano Cruzado juntos. Se o sentimento de honra fosse aqui cultuado, e comprovada a afirmativa, direta e não presumida, do festejado Buda a Lerner, não haveria outra saída, a não ser a renúncia.
Como, porém, o culto da honra é olhado pelos pragmáticos como frescura e alienação, iremos assistir ao ritual já anunciado: Lerner faz uma conclamação pela televisão e o rádio dizendo que não há outra alternativa, diante daquilo que a Justiça vem decidindo (ele nunca vai até o fim e isso aconteceu quando o Judiciário deu a vitória provisória numa causa do transporte coletivo, no tempo em que era prefeito, em favor das empresas, e partiu para a composição com o cartel, que era formado também por aliadas e parceiras, inclusive no caixa eleitoral) e que com o coração sangrando não tem outra alternativa, senão a de reajustar o pedágio. Voltará certamente - e isso para nos aborrecer com imagens manjadas - a riscar o mapinha do Paraná no papel branco e explicar a funcionalidade dos Anéis de Integração.
Vão-se os anéis e ficam os dedos que vão encarecer a produção, torná-la sem condições de competir, seguindo-se as operações de toalete, como as até agora feitas, porque as tais obras de fôlego, duplicações por exemplo, mais obras de arte, como viadutos e pontes, vão ficar para as calendas. Votei, como tantos, em Lerner porque acreditei, entre outras coisas, que era honesta a redução da tarifa, e não uma jogada para induzir o eleitor.
A hipocrisia maior de todo o cenário está no fato de os deputados saírem à frente de uma decisão, única e exclusiva do governador, para aplainar o caminho de uma demanda das empreiteiras, como se o estivessem pressionando. É generosidade demais com as causas privadas. Gustavo Fruet, deputado federal, coloca muito bem a questão: Empreiteiros alegam que tomaram empréstimos externos e que a desvalorização do real inviabilizou os contratos. Muito bem, que abram suas contas e demonstrem que realmente estão inadimplentes.
FOLCLORE
Nessa história do pedágio, por toda a dissimulação que se vê, dá para perceber que a maioria dos interessados está empenhada em duplicar os ganhos muito antes da hipotética duplicação das estradas
BIZARRICE Sou um mediador entre o usuário e as empreiteiras. Declaração de Lerner que alega que vai ouvir os peritos sobre obras e custos. Ele aumenta ou baixa tarifas, como aconteceu antes, e portanto não é mediador, mas o poder decisório-chave. Se vier o aumento, apenas, uma vez mais, enganou o povo.
AXIOMA Conforme o raciocínio do Macaco Simão, a Tiazinha de hoje será, de forma inevitável, a Estriazinha de amanhã. Mas a longo prazo, conforme Lord Keynes, estaremos todos mais ou menos mortos. Enquanto vivos, olhamos o rebolado da Tiazinha; depois de mortos, corremos o risco de ser açoitados pelo chicotinho, não dela, mas do Cramulhão, o que é de péssimo gosto.
GLOSA Está muito baixa essa avaliação (em R$ 17 milhões) da área do Presídio do Ahú. Com essa ânsia em vender ativos públicos ou transá-los, o passivo oculto do governo só tende a aumentar. Dá a impressão que estamos na véspera do Baile da Ilha Fiscal. Querem fabricar dinheiro de qualquer jeito.
MEMÓRIA Frase de Lerner ao jornal O Estado do Paraná de 16 de julho de 1998: O Paraná me conhece há trinta anos. Se tivesse pensamento eleitoral, não teria iniciado o pedágio, reagiu. Ele assegurou que a redução é permanente e não será revista após as eleições de outubro. Outra, essa da Gazeta do Povo do mesmo dia: O corte pela metade no valor da tarifa deve vigorar por no mínimo três ou quatro anos, segundo Lerner, que não soube precisar exatamente o período. Ele garantiu, entretanto, que a medida não tem nenhuma relação com a campanha eleitoral já em curso. Se fosse uma preocupação eleitoral, eu nem teria instituído o pedágio, justifica.
Vai sobrar para o Heinz Herwig, dos Transportes, essa incômoda situação e, se a crise apertar, Lerner se manda de novo para novas viagens e fantasias.
SPRAY Há resistências na base aliada do governo contra o aumento do pedágio. Tony Garcia, líder do PPB, identifica vários desses focos e argumenta que se trata de algo intolerável num momento de crise, retomada da inflação, aumento da CPMF e dos combustíveis. - Se o telefone celular for o símbolo da vantagem da privatização, o governo está lascado. Tudo piorou. - Aliás, na energia ocorre o mesmo: vide caso Light e os apagões no Rio. Nos trens também: aumentou muito o número de acidentes devido à precariedade dos comboios. - Admirável a reação do pessoal de Jataizinho relativamente às estradas alternativas ao pedágio. O direito de resistência é respeitado em instâncias civilizadas. - Sérgio Malucelli, então superintendente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Paraná (Setcepar), declarou a esta Folha (em 16 de julho de 1998) que se a decisão (de baixar o pedágio) foi política com vistas à eleição e houver a possibilidade de retomada das tarifas atuais, estaremos diante de uma bandalheira na qual, sinceramente, não posso acreditar. Bandalheira mesmo. - Por que o governo não cria uma organização social, do tipo Paranaprevidência, Paranaeducação, para cuidar do pedágio? A idéia foi colocada por um assessor governamental e a irritação foi tão grande que quase lhe disseram o clássico Cala a boca, Magda! - Amanhã, Tarso Genro dá coletiva às 9 da manhã no Hotel Paraná Suíte de Curitiba. Vai participar do 1º Seminário do Campo Majoritário do PT nos dias 13 e 14, na Câmara Municipal. Se o estilo já é meio de seminarista, como se vê nas ações basistas, seminário é o que não falta no partido.
CROMO Aquele personagem que lembra o sapo da Budweiser vai ficar feliz, de novo, como se tivesse comido mosquitos e vagalumes, se aumentar o pedágio. O sonho do batráquio é crer na lenda de que se for beijado, vira príncipe.
AFORÍSTICO Aí o professor de ciência política perguntou ao deputado como via a questão da ética nessa atividade. O deputado era gago e só numa palavra disse a máxima verdade :É-ti-ti-ca, É-ti-ti-ca. Titica mesmo é isso aí...





