Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Acima do bem e do mal
O baixo nível de participação democrática leva a lideranças como a de Aníbal Khury, presidente da Assembléia Legislativa, que está defendendo abertamente o aumento em 50% do pedágio. E tenta ainda sugerir que o faz por motivações nobres e indispensáveis à economia e ao bem do Paraná e não para atender uma demanda das empreiteiras. Chegamos a esse ponto: um absurdo como esse é colocado como se fosse a coisa mais natural do mundo. Dias passados um outro deputado, Divanir Braz Palma, já tinha sinalizado a mesma coisa e até adiantava um número: 30% de reajuste. Uma operação claramente orquestrada.
É possível efetivamente que as concessionárias do Anel da Desintegração - porque é o que vai ocorrer se tais demandas forem satisfeitas - estejam até sofrendo prejuízos, conquanto mal cuidem, no caso de muitas delas, da simples tarefa de manutenção. Não é crível que tenhamos chegado a tal absurdo na deturpação do regime representativo. Norberto Bobbio lamenta que a democracia tenha se tornado apenas a representação dos interesses, que sustenta formas, cada vez mais sofisticadas, do chamado poder invisível e suprime os órgãos intermediários, isso é os mediadores entre o Estado e a cidadania.
A questão do pedágio foi muito mal introduzida no Paraná e com os exageros e a volúpia, característicos do lernerismo: o País não comporta nada que seja suntuoso e o megaprojeto é incompatível com a nossa realidade, agravada com a crise cambial. Desde o início (e comecei a fazê-lo numa reunião no Slaviero Hotel com as áreas interessadas, iniciativa do Heinz Hervig) estranhei os valores da planilha esotérica. O governo, oportunisticamente, só mexeu no caso quando viu que a sua eleição estava sob risco e deu um corte linear de 50% nas tarifas, o que levou as concessionárias, através do administrativista, um dos maiores do Brasil, Romeu Bacelar, à Justiça.
Esperar firmeza do governador é sabidamente uma impossibilidade: só se mexeu no caso das áreas invadidas pelo MST quando a situação transbordou e sua base aliada ameaçou com represálias. No caso do pedágio, ele deveria lutar até o fim na Justiça e buscar em meio à pendência algo como um juízo arbitral para que se chegasse a uma composição com os interessados e se estes se mostrassem irredutíveis adotar a medida extrema de reassumir as responsabilidades que foram delegadas, cabendo-lhe gerir o fruto da arrecadação.
Se o pedágio for aumentado, mais as elevações dos fretes, estaremos diante de um caso de deseconomia, da inviabilidade do transporte rodoviário. Mas quando deputados em maioria defendem esse aumento o que se pode esperar além do caos?
AFORÍSTICO
Nunca os parlamentares, por suas ações e omissões, trabalharam tanto pela fujimorização como hoje no Brasil: um Jim Jones solto
BIZARRICE Muita gente comprando a Playboy para ver a Tiazinha. Olham com efusão as fotos da nudez anunciada. Cá entre nós o que é mais alienado: ser sobrinho do Tio Sam, como o governo FHC, ou da Suzana Alves? Tem gente que se açoita com o chicotinho, enquanto contempla a retaguarda da Tiazinha. Como dizia aquele guerrilheiro vietcong: a vanguarda está na retaguarda.
AXIOMA O Renê Dotti, jurista e bom contador de anedota, refere-se muito à cena de teatro em que o ator deveria entrar no palco e dizer que cheiro de papel queimado e como não havia fósforo o personagem, com quem contracenava, decidiu rasgar o papel e ao intérprete não houve outra saída se não a de proclamar hum, que cheiro de papel rasgado!
O papel queimado da Tuiuti (as provas incineradas do curso de Direito) é inodoro, insípido e incolor, os atributos, enfim, da água. Não essa da Sanepar que de tanto produto químico leva jeito de Q-Boa.
GLOSA Só no Brasil é possível: o Ministério da Educação credenciou a Uniandrade (Associação de Ensino Versalhes) em 11 de fevereiro deste ano e no dia 4 de março decidiu, pela Portaria 254 da Secretaria de Educação Superior daquela pasta, instituir comissão de cinco mestres para fazer a verificação das condições de implantação e funcionamento do Centro Universitário. É o fim da picada a existência de cursos como o de Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia. Só um exemplo: 300 vagas em Comunicação Social.
SPRAY Abdo Aref Kudri, presidente do Sindicato de Revistas e Jornais, abriu suas oficinas para a produção do semanário Impacto que estava ameaçado, segundo seu diretor, de represálias do governo. - O delegado de Crimes contra a Administração Pública tomou a termo as denúncias do jornalista Luis Fernando Fedeger contra o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis. - Uma denúncia, que circula em papel impresso, sugere a existência de Caixa 2 em órgãos públicos. - Mais do que Caixa 2, o que há por aí é Caixa Preta. Vejamos essa história dos encapuzados que executaram um preso e também esse milagre que foi o governo gastar R$ 500 milhões em propaganda. - Abridor de caixa preta é sempre o Ministério Público. No caso da Leasing age com firmeza. - Incrível nessa brincadeira que é o ensino superior no Brasil, é a omissão dos órgãos de controle do exercício profissional como CREA, CRM, OAB etc. Como é que pode uma oferta de 100 vagas em Agronomia na Uniandrade ou de 300 na Comunicação Social (100 em jornalismo, 100 em propaganda, 100 em relações públicas) sem a mínima vinculação com a realidade do mercado? - Há um surto de meningite na cidade e a burocracia (Estado e município) tenta botar um celofane colorido em cima, bloqueando informações. Em vários hospitais há casos como o do Pequeno Príncipe, com o registro de 14 internações. - Todos se lembram dos efeitos da vacina contra o sarampo e a postura distanciada, brechtiana, do Armando Rággio ao explicitá-la como se a sua serenidade acalmasse a todos. - Diretor do Detran conseguiu amaciar exigências como a da carga horária nas auto-escolas de 18 para seis horas e também o absurdo de que pelo menos dois diretores deveriam ter curso superior.
FOLCLORE A Kaiser alinhou Curitiba como Cidade Nota 10. Agora só falta a Skol provar também que a nossa Capital é redonda como alguns dos seus ex-prefeitos dentre os mais famosos. O Itaú vai fazer megapesquisa para indicar o ponto mais simbólico. Depois de toda essa bajulação em cima dos 306 anos ainda nos espantamos com a chegada de mais migrantes.
CROMO O pintor tem fases: sai da figura para a abstração desta para sinais de informalismo. Há os que são bons em todos os ciclos como Elaine Werneck às voltas agora com um expressionismo brando, amanhã com outra descoberta.





