Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Precatórios, bomba-relógio
Parece incrível que a despeito do papel assumido pelo senador Requião como relator da CPI dos Precatórios nada tenha transpirado sobre a situação específica do Paraná nessa questão. Essas dívidas sempre foram empurradas com a barriga por todos os governos, mesmo depois de a Constituição de 88 haver fixado regras mais estáveis sobre o assunto.
Numa interpelação da Procuradoria Geral da República, o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, fala em erro de digitação. Mas os mesmos expedientes de traço protelatório em cima do assunto são comuns aos governos de Álvaro Dias, de Roberto Requião e de Jaime Lerner. Comentava-se nos bastidores que o Paraná se preparava para o mesmo tipo de lambança que as demais unidades federativas fizeram em cima dos precatórios, com o que saíram da inércia e levantaram fundos, indevidamente é verdade, para encarar a conjuntura adversa.
Nesta semana, um semanário divulga um dossiê sobre o tema, o que terá forte repercussão já que aparece um bilhete em que um secretário de Estado sugere (o que é óbvio, porque esse tem sido o tratamento tradicional) que se empurre a questão com a barriga. Ocorre que tem gente desesperada na fila dos titulares desses direitos e que não se dispõem a aceitar acordos com o Estado, pelo simples fato de que tais acertos são leoninos em favor do poder estatal, com deságios intoleráveis lubrificados pela coação irrestível da demora.
Há, também, em parte desses precatórios o caso das paqueras, advogadas que percorriam estradas recém construídas pelo governo (Ney Braga, Pimentel, Canet Júnior e ciclo peemedebista) e tomavam assinaturas em procurações dos proprietários confinantes a pretexto de indenizações, quando a administração pública deveria conseguir a doação por escritura pública, face aos ganhos que essas pessoas teriam com benfeitoria tão radical. Um dos mais pesados precatórios é o da CR Almeida, ainda relativo à construção da Estrada de Ferro Central do Paraná, aquela que liga Ponta Grossa a Apucarana.
Como nunca se viu um governo tão ao-Deus-dará como o atual, dá para imaginar as acrobacias que fará para obter moratória em relação a esses débitos, ainda mais numa quadra como a atual, com o caixa vazio.
BIZARRICE
Deputados estaduais fizeram rasgados elogios ao Dia Internacional da Mulher, anteontem. A única deputada, Serafina Carrilho, estava ausente
AXIOMA Antes o governo pressionava deputados com ameaça de isolamento ou até a ponta de facão. Agora é diferente: acerta-se o parlamentar teimoso (e assim foi no caso das isenções do Paranaprevidência) com uma ponta de costela numa churrascaria improvisada. É o governo do Chapéu Pensador e do Churrasco Sedutor.
GLOSA Curitibano anda meio neurótico: ora é a buzina do trem na madrugada, a música já abolida do caminhão de gás, o canto de um galo que virou notícia nacional pela Globo. Agora é a pretensão do Ibama em tirar o jacaré do Parque do Barigui. Enquanto isso, curiosos lançam nos rios do Paraná até peixes amazônicos como o tucunaré, o que acontece também nas represas. Ontem, no Norte (Alto Paraná) capturaram uma onça.
SANEAMENTO Não é preciso recorrer à engenharia sanitária para ter noção do que é saneamento, mesmo quando se trata de uma casa bancária. Este governo se preocupa tão-somente com o acerto financeiro, a injeção dos títulos federais, que neutralizará o efeito-cascata do auxílio interbancário. O governo não tem interesse algum em clarear as irregularidades porque é autor das ocorridas na Leasing e Corretora. Felizmente o Ministério Público, o federal e o estadual, vai se ocupar das apurações de fraudes e afanos e reside aí a única esperança de evitar que se dê uma anistia geral a inadimplentes e picaretas e se lance para baixo do tapete toda a craca acumulada. E no fim todos brincam de Roda Cotia comemorando mais uma acomodação geral.
SPRAY Norton Macedo é um dos principais consultores políticos de Lerner. Ontem ele se reuniu com o time da comunicação social em almoço. Este governo pode ter tudo, menos falta de calorias. No fim do ano, Lerner passa de Greca na balança, fácil, fácil. - Uma cena pirandelliana ontem no Clube Curitibano: havia mais de 100 personagens em busca de um autor (Luis Alfredo Malucelli), numa tarde-noite de autógrafos. Personagens que não saíram nesta edição vão aparecer nas próximas. - Tivéssemos cidadania ativa, a Prefeitura de Curitiba seria processada por pelo menos três pessoas que sofreram queda e fraturas em buracos, inclusive no Calçadão. Ontem havia acusação ainda à Sanepar e à Prefeitura por um bueiro perto do Rio Belém, que tragou uma criança. O povo vinha pedindo aos órgãos públicos que fechassem o bueiro há meses. - Mais uma desmistificação no futebol paranaense: a Kaiser desmentiu que pretendesse bancá-lo como patrocinadora. O pior, porém, é que se pretende (e o Lerner é bem capaz de embarcar nessa) passar o mausoléu do Pinheirão ao governo. Mesmo sem dinheiro, essa gente é capaz de prodigalidades, como já fez nos R$ 500 milhões em propaganda. O mico, tal qual o do Banestado, fica para o povo. - Quem vai gostar é o Atlético Paranaense; já levou R$ 7 milhões do parque desapropriado para o canal extravasor e agora recebe o que a Federação lhe deve pelas mãos generosas do governo. E o governador é Coxa. - Mais uma denúncia ontem na Delegacia de Crimes contra a Administração Pública visando personalidade do governo atual.
FOLCLORE Uma das figuras mais ricas da boemia curitibana foi Osiris de Brito, funcionário da Assembléia Legislativa. Numa noitada com intelectuais de sua roda (Dude Ghignone, Nireu Teixeira) tiveram uma surpresa: o filólogo Antonio Houaiss, falecido há poucos dias, falava de literatura, de política, de arte culinária e o interlocutor mais entusiasmado era o Osiris, que não sabia com quem estava dialogando. Na madrugada, na despedida, perguntou quem era o senhor simpático. Quando lhe disseram que era o Houaiss, queria brigar com todos por não o terem avisado. Ficou tão inconformado que permaneceu na rua.
CROMO Que realidade essa é a nossa em que sobra circo e falta o pão?
AFORÍSTICO A Universidade Tuiuti comunicou à Procuradoria da República que incinerou ou cremou, como habitualmente faz, as provas do curso de Direito. E com isso desaparece o material documental pretendido para atender à suspeita de pais cujos filhos não passaram. A imagem da instituição não está queimada como as provas, mas um tanto quanto chamuscada. É lastimável porque as informações sobre o curso de Direito eram bastante positivas.





