Luiz Geraldo Mazza
O desafio radical
A impressão que temos, a cada ocorrência na área de segurança, é que está zerado o sentido de governo. Aliás não apenas aí, como em tantas alquimias que acabam não apuradas como os feitos do Banestado, que no processo de saneamento serão devidamente esquecidos, lançados para baixo do tapete se depender deste governo comprometido por ação e omissão. Confia-se, aí também, na vigilância do Ministério Público que está de olho nos chunchos da Leasing.
O ataque de vinte encapuzados a uma delegacia de Polícia e com o propósito final de consumar um linchamento contra um matador de um membro da corporação tem todas as características de uma ação retaliadora. Apesar das declarações do delegado geral Newton Rocha no sentido de que investigações profundas serão processadas, e com a mediação indispensável da Corregedoria, não está recuperado o perdido sentimento de segurança da população. Não tivéssemos antecedentes de ações temerárias da Polícia, por vezes ao lado do crime, e não haveria razões para estabelecer tal presunção. Vide os casos paradigmáticos da delegacia de Almirante Tamandaré, em que armas da autoridade eram entregues a marginais para assaltar, ou os narrados pelo delegado Adauto Oliveira, que apontou a existência de 33 policiais da área de antitóxicos envolvidos no narcotráfico ou em extorsão, tanto de delinquentes como de viciados e seus familiares.
Até hoje não houve o esclarecimento do atentado contra o secretário Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, ainda no primeiro governo Lerner, apesar do alarido feito em cima do inusitado acontecimento. A área continua minada pelos políticos, o que é visível na movimentação de delegados e em medidas absurdas como a derrubada do coronel Honório Bortolini por gentileza de Aníbal Khury - para atender uma queixa do deputado radialista Ricardo Chab. A frouxidão do governador anima os ousados, mas esse ato selvagem do ataque a uma delegacia e a consequente execução de um preso, que estava sob custódia do Estado, por mais bárbaro que fosse o seu delito contra um policial exemplar e em ação covarde, é a institucionalização da Ku-Klux-Klan, da justiça encapuzada, a mesma do regime militar.
Dizem que o governador não gosta da área policial, daí transferí-la ao domínio dos políticos. Pelo que se vê é mais do que isso: o governador não gosta de governar, quer fruir o papel e as vantagens, mas jamais os ônus. Deve estar tinindo para fazer outra viagem, para o exercício da cultura ornamental no exterior e usufruir da mitologia que ele próprio erigiu de si mesmo.


BIZARRICE
Militante do PFL é no mínimo alguém com cargo em comissão ou com uma comichão por um cargo



AXIOMA Agora que o linchamento está em vias de institucionalização, o esquadrão da morte e os grupos de extermínio se tornam legais: é a justiça encapuzada.
GLOSA Jornalista adora ‘‘boca-livre’’. Os mais sensíveis da esquerda, até um tempo atrás, entravam em crises de consciência ao acharem que estavam se entregando ao vil capitalismo. Alguns só conseguiam a purgação de culpa coçando a garganta com uma pena de galinha (pavão seria esnobe demais) para regorgitar e livrar-se do terrível pecado.
SPRAY A estranheza do Ministério Público Federal no caso dos vestibulares de Direito da Tuiuti é centrada numa questão matemática (ou matemágica): como é possível dar notas em mais de 5.000 provas em menos de dois dias? - A imagem do curso daquela universidade é boa, tanto que vários bacharéis passaram bem nos exames da Ordem, e o conceito, dado pelo Provão, foi dos melhores. - Estamos numa nova ordem, mais conflitual e por isso mesmo sujeita ao contraste, razão pela qual o estrilo dos pais, cujos filhos foram reprovados, ajudou a erigir a desconfiança. - O fato de terem sido citados alguns vestibulandos aprovados por causa do nome familiar e de um presumido favorecimento não é suficiente para justificar uma precipitação de juízo, mas é pertinente a indagação quanto à rapidez do exame das provas e a instituição deve esclarecer cabalmente todas as inquirições. - A mentalidade cosmopolita do governo permeia a economia, a cultura e o esporte: para o adventício, tudo; ao tupiniquim, nada! Assim é no caso dos investimentos industriais, no do esporte (vejam a Rexona e o time da Hortência sem paranaenses visíveis) e agora no festival de teatro com nenhuma colher de chá aos grupos locais. Para os de fora, tudo; os de cá, sabugo! - Todo colonizado tenta sugerir que é o civilizado. Por mais respeito que se tenha por Fernanda Mentenegro não se justifica o investimento feito na peça de Becket, ‘‘Os dias felizes’’, ao tempo de Rafael Greca. - Surto de meningite em Curitiba: benigna, mas assusta. Muitos casos no Hospital Pequeno Príncipe. - Os dois primeiros dias de funcionamento do Restaurante Sabores do Campo em Bocaiúva do Sul foram além de qualquer expectativa. Na Páscoa é possível que funcione também a parte hoteleira. Única realidade do ‘‘circuito italiano’’ em torno do qual Greca fez um carnaval. A iniciativa é toda do Cícero Cattani, pois o governo inexiste na região. - Helô Montserrat não passou no vestiba da Tuiuti e foi até lá para saber se havia segunda chamada. Um segurança, nervoso, avisou que os 300 já haviam feito a inscrição. Esses 100% nem na Federal acontece, onde o estudo é gratuito. - O PPS, o partidão com filtro, sob o comando de Rubens Bueno, deve constituir-se em ‘‘partido de quadros’’. O Rochinha (Luis Carlos) cuida do proselitismo. Vai ser uma espécie de Sorbonne dentre os partidos. É a antítese dos outros, exceção ao PT.
EPIGRAMA Depois do Mr. ‘‘M’’ do Fantástico, empenhado em desmoralizar mágicos, temos o esquadrão de extermínio que substitui a Polícia, o Ministério Público e o Judiciário de uma tacada só.
FOLCLORE A Kayser anuncia hoje se financia ou não o campeonato de futebol. No começo foi mal: faltou cerveja anteontem no Couto Pereira. Engraçado: no futebol dirigido pela malta no País, regionalmente apela-se ao malte.
CROMO ‘‘Canta, canta o instante// porque ele existe// cheio de florescências e luzes.// Sede ávido do momento,// segura-o como um tesouro// em tuas mãos// enquanto palpita em ti// o milagre da vida!’’ Uma exortação do poeta-médico Mário Farah Rafka em seu livro de poemas ‘‘Asas Libertas’’. Lírica, mística e até onírica tal qual se vê nessa iluminura: ‘‘Via-Láctea,// messe de Deus no Universo,// cachos de luz//a pender do céu!’’
AFORÍSTICO Gustavo Franco, no ‘‘Estadão’’ de domingo, escreveu na página 2 um artigaço sob o título ‘‘Fundos de pensão estaduais - armadilhas a evitar’’. Sua tese é a seguinte: sem privatizar ativos bons (Copel, Sanepar nem tanto, em nosso caso), o truque é formar fundos de vento’’. Esse pesadelo faria com que os R$ 100 bilhões que os bancos estaduais legaram de prejuízo parecessem singelos trocados.

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