Luiz Geraldo Mazza
A mania do ‘‘aparelho’’
Uma das maiores deformações do Brasil é a hipocrisia das suas corporações: todas têm um discurso, um alinhamento deontológico, que colide com a praxis do cotidiano. E aí valem as públicas (Petrobrás, Banco do Brasil, as regionais como a Copel) e as privadas (Votorantin, do Ermírio de Moraes, Pão de Açúcar, do Abílio Diniz, Rede Globo, do Roberto Marinho). Cada uma é um fim em si mesma: numa perspectiva bem à brasileira mais relevante que o conjunto do País, do Estado, de um setor da economia.
Vimos aqui no caso do Banestado, já em coma, quando se viu a inexistência de saída a aliança que suas clientelas, na verdade seus aproveitadores, fizeram com políticos e o corpo funcional. Este, à falta de qualquer argumento, fazia discursos inúteis contra a privatização. Se a Vale do Rio Doce e o sistema das teles, que detinham força efetiva, ‘‘dançaram’’, não seria um moribundo que se oporia à implacável rota do saneamento para a privatização.
Um dos maiores ônus que a mais avançada central de trabalhadores do Brasil detém é exatamente a circunstância de ter crescido demais na representação dos servidores públicos. Como a precarização da área é inevitável, a CUT faz as maiores acrobacias para justificar a defesa de um segmento onde o que é mais moderno, como a Petrobrás, está marcado pelo arcaísmo.
Outro fator negativo: uma das categorias mais combativas do Brasil tem cada vez mais o aspecto de uma fauna em extinção - a dos bancários em função da moeda de plástico e dos avanços na automação e outra, a dos metalúrgicos, que foram os geradores do sindicalismo de vanguarda (Lula, Meneghelli, Vicentinho), subprodutos da acumulação capital, de que Marx falava, enfrentam o desgaste das novas tecnologias que reduzem postos de trabalho.
Isso não é bom, ainda mais num país de capitalismo tardio, o que tem tudo para torná-lo mais reacionário e avesso a avanços sociais. Não será pensando na volta ao passado (nacionalismo, substituição de importações, autarcismo) que iremos enfrentar da melhor forma o combate. Aliás, uma das empulhações tem sido lembrar os feitos getulianos na lei trabalhista, o salário mínimo com base numa cesta, até hoje brandida pelo Dieese, quando o Brasil tinha apenas 20% da população nas cidades, já que o campo só muito mais tarde receberia parcela desses direitos, o que desorganizou a produção.
Urge uma nova forma de organização para contrapor-se aos abusos capitalistas sem tutela, com outra cultura e visão de processo. Se possível - e isso até soa meio quixotesco - imaginar uma nova Internacional, ajustada aos nossos dias e pela simples razão de que o trabalho não está globalizado, politicamente.


BIZARRICE
Anos 70, Lerner prometeu devolver o lambari de rabo vermelho ao Rio Belém. O rio enfeiou mais ainda e houve avanço: do bagre cabo-de-pito chegamos ao ‘‘capitão’’, nome popular do dejecto que flutua. Cabo a capitão



AXIOMA Brevemente, numa ordem transparente, os políticos, tal qual corredores de Fórmula 1, terão em suas roupas todas as logomarcas que os apóiam. Boa parte deles não teria espaço para indicar tantos interesses.
GLOSA Se as agências governamentais indicadas para monitorar as privatizadas agirem como fazem aqui as agências de propaganda, especialmente no governo Lerner, onde servem como intermediárias em assuntos fora da sua área, dentro em pouco haverá a grita pela volta à estatização.
SPRAY Amanhã é dia de euforia: a chegada dos títulos, já liberados pelo BC e Delegacia do Tesouro Nacional, para o saneamento do Banestado vai ser muito festejada pelo governo. - O cronograma, no entanto, está apertado; Stephanes acha que é indispensável prorrogar o prazo pelo menos por mais 60 ou 90 dias, para que tudo ande nos eixos. O Senado deverá ser ouvido. - O risco de um acidente indesejável, que transformasse o processo em federalização (o que é menos ruim do que a liquidação extrajudicial, pura e simples) deve ser, o quanto possível, evitado. Pegaria, antes de tudo, mal para a imagem do governo Lerner, autor de constrangimentos e embaraços como os da Leasing. - Oposição vai insistir em que os abusos sejam exemplarmente punidos, como pretende a própria Procuradoria Geral da República. Ocorre que muitos dos seus audazes integrantes respondem, em governos anteriores, por irregularidades sérias e um vasto quadro de inadimplência e fraude. - Será bom para todos e ao conjunto da sociedade que toda a verdade venha à tona. Inclusive o empréstimo de mais de US$ 2 milhões de um dirigente peemedebista e que desejou trocar o débito por sêmen do seu rebanho. - Quem estará amanhã em Curitiba será o senador Roberto Freire, do PPS, que instalará a Comissão Provisória sob o comando de Rubens Bueno, o novo filiado, e que sempre jogou na meia-esquerda. O que vai espantar muita gente será o quadro de novos integrantes, principalmente dos meios jurídicos e do magistério. Há tudo para evitar o minimalismo que sempre marcou as organizações de esquerda. - Reação desfavorável, em princípio, ao processo de melhoras na BR-116 com a cobrança de pedágio, à base de US$ 2,50 por 100 quilômetros. O objetivo é atender correções num pequeno trecho da Capital à Fazenda Rio Grande. Entre Curitiba e Rio Negro a buraqueira é intolerável, isso sem falar nos defeitos da pista, incluindo desbarrancamentos graves.
FOLCLORE Quando houve o programa ‘‘O Povo e o Presidente’’ com Figueiredo, no finzinho do regime militar, o prefeito de Antonina, Joubert Gonzaga Vieira, decalcou a iniciativa na rádio da cidade. ‘‘O Povo e o Prefeito’’ teve versão estadual quando, mais tarde, Requião assumiria o governo. Mas o de Joubert era mais autêntico. Numa Dia de Finados, ele falou sobre a data e explicou por que havia feito melhoras no acesso ao campo santo: ‘‘Com aquela rua escorregadia, o pessoal acabava xingando a minha mãe, a do prefeito, pobrezinha, que está enterrada lá. Deus a tenha!’’
CROMO João Cabral viu nos canaviais um movimento sinuoso de mar, tanto na forma, como no ruído uniforme das hastes tocadas pelo vento. Baudelaire disse que o homem vai ao campo para reconstruir a cidade. O mar se funde ao céu e transfunde o homem neste espaço numa tela marinheira de Panceti.
AFORÍSTICO Deve chegar amanhã a esperada remessa de títulos federais para tirar o Banestado da UTI. E quando, pergunta-se ansiosamente, chegará a vergonha na cara?

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