Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A cegonha e o Carlini
Orlando Carlini, um mau humorado por estilo, faz uma história incrível sobre o seu próprio nascimento na tranquila Irati: A cegonha poderia ter me deixado nas muitas casas de milionários como as do Slaviero, do Zarpelon, dos Gomes, do Mansur, dos Anciuti Pessoa e me botou na casa de um trabalhador, o velho Carlini. É claro que a efabulação tem um sentido de ironia, de folguedo, como todos os saques do Orlando nos quais ele, para azedar a nota que concede aos outros, baixa a que daria a si próprio, forma oblíqua de justiça.
Numa dessas manhãs calmas da Boca Maldita, hora do almoço, Orlando está com o filho, ao lado de outros amigos na porta do caixa automático, e como passa de meia hora, dissimula nervosismo e ansiedade e dirige-se ao garoto: Bernardo, vamos já pra casa senão nós perdemos o sorteio do bife!
A troco de que lembrar das metáforas do Carlini? Simples: ontem saiu no jornal o resultado do vestibular de Direito da Tuiuti, ao qual concorreram 5.500 candidatos e na relação dos aprovados o que tem de sobrenome de político não está em gibi nenhum. A sociedade curitibana tem dessas: descobre o óbvio e com ele se espanta quando se trata da ordem natural das coisas, como ver na lista de servidores do Tribunal de Contas ou no de Justiça a mesma linha parenteral, na primeira os filhos, genros e noras de conselheiros e na outra, com os vinculados familiarmente à corporação.
Usando-se a parábola do Orlando Carlini chega-se à conclusão que não apenas a condição de nascimento, revelada pela cegonha, decide a fortuna das pessoas, mas ainda os demais acidentes de percurso da vida, como em vestibulares ou em concursos públicos. Os pais que tiveram filhos reprovados tentam presumir que houve favorecimento, o que não é fácil demonstrar e muito menos provar, mas a bronca, aprofundada pela tristeza do insucesso dos pais inconformados, dá asas à imaginação. E das asas chega-se, por associação de idéias, à cegonha.
Como presunção e suspeita, ainda mais tão vaga, não constituem prova, seria terrível com uma crítica genérica punir um ou mais vestibas, de QI incomum, que tenham passado por seus indiscutíveis méritos. A máquina de moer carne dos vestibulares cria atmosferas para a euforia e depressão, mais esta do que aquela porque, como na imprecação bíblica, muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Compensação dos mitos é a de que os pobres irão ao paraíso, já que aos ricos será possível passar no vestiba, mas difícil ou impossível chegar ao reino dos céus, a não ser que o camelo passe pelo orifício de uma agulha. Por causa disso, aliás, há ricos que não saem do analista e do padre confessor. É e há agulhas também que não transpassam certos orifícios.
AFORÍSTICO
O pai de um secretário teve seu carro importado roubado e se ele fosse queixar-se ao secretário de Segurança, ouviria que até agora ainda não descobriram o autor do atentado que sofreu no governo Lerner I
BIZARRICE Ontem a secretária de Educação, Alcyone Saliba, chamada de Candanga (por sua origem brasiliense, mas que denota discriminação), provou ao que veio: precisava urgentemente de uns R$ 2 milhões para a educação especial e a resistência dos burocratas e do esotérico Crafe impediam a liberação. Foi lá e com elegância e energia trombeteou e fez ruir as muralhas de Jericó. É a nossa Anita Garibaldi do dia. É prioridade menos discutível do que pagar uns empreiteiros e esnobar outros.
AXIOMA E no Canal Extravasor do Iguaçu, que recebeu grana do exterior, houve ganho de R$ 8 milhões (dispensada licitação) sem falar nas desapropriações (só a do Atlético, ao lado das propriedades de Aníbal Khury e Quielse Crisóstomo, obteve mais de R$ 7 milhões). As enchentes vieram o que prova que o sistema não funcionou, a não ser para drenar verbas e levá-las pelo ralo.
GLOSA Entre Lerner e Lessa, que estavam no Bom Dia, Brasil, quem ganharia no auditório e no palmômetro? Ganhar do Lerner em expressão verbal é como tirar bolacha de criança. O público ulularia em versos: Lessa, Lessa, tira o Lerner dessa!
GOVERNO DO LÁ TINHA Aplica-se a Lerner o que a oposição costuma atribuir a FHC ao dizer que este é o governo do lá tinha. A explicação: lá tinha uma siderúrgica, lá tinha um banco, lá tinha uma estrada. Em Curitiba basta chegar na Boca Maldita e apontar ao Palácio Avenida: Lá tinha um banco paranaense; para a Galeria Garcez, lá tinha o maior complexo de varejo da América latina etc. Depois virão a Copel, lá tinha a maior empresa de energia do Brasil; o Banestado, lá tinha o melhor banco estadual. O governo do lá tinha, pelo trocadilho, já é a exaltação da sucata.
ANTONINA NAGASAKI Com o estouro da Flutrans, que pode chegar a R$ 5 bi pela extensão dos comprometimentos, Antonina está, mais uma vez, vendo morrer o sonho da economia portuária. Aliás, Parigot de Souza, mestre de todos que aí estão, aquele que tocou o Canal do Varadouro e que fez da Copel uma empresa inconfrontável no País, dizia: Antonina está de costas para o mar. A visão preliminar do que seria o estouro se deu muitos anos atrás quando um gerente da organização holandesa se viu despejado da casa que ocupava porque não haviam pago o aluguel. Ele se mandou antes de todos. A Flutrans costuma indicar como garantia bens que não lhe pertencem e que utiliza em leasing.
Antonina está treinada em depressão, mas num quadro como o atual é demais.
A compensação ainda é que o porto da Ponta do Félix venha a funcionar.
SPRAY O secretário da Previdência, Renato Follador, é esperado hoje na sessão plenária das entidades de funcionários na regulamentação das eleições para os conselheiros classistas. Essa mania de depender do governo é fogo. - O advogado Marcos Vinicius de Lacerda, que foi elemento-chave do corpo jurídico nas eleições de Lerner e Cássio Taniguchi, é hoje procurador do município e desde 1997 não se vincula ao escritório de Gionédis. Está, aliás, cotado para o Tribunal de Alçada, pelo quinto constitucional. - Últimas ordens de serviço do IPE são restritivas: controlando atendimentos e medicamentos. Quando florirem os ipês, esse IPE fecha. Isso já deveria ter ocorrido. - CBN ouviu relato da Vila Trindade, de Curitiba, surpreendente da relação promíscua entre policiais e traficantes que operam, na maior folga. A rádio descaracterizou as vozes para evitar que a Polícia e os traficantes se unissem na represália.
FOLCLORE Uma diretora do time de basquete feminino queria pegar a renda de um dos jogos em São José dos Pinhais para pagar as jogadoras. Enquanto isso, uma equipe de esquiadores paranaenses aparece na imprensa como propagandista do Paraná e sua pródiga Secretaria de Esporte para competir na Europa. O nosso governador continua em outra galáxia. Poderia fazer os jogos intergaláticos.
CROMO O maçarico, ave migratória que, a essa época, pára no Parque Barigui, corre o risco de contaminar-se nas águas podres. Se isso acontecer, lá se vai de vez a Curitiba ecológica. Se por causa do macuquinho da várzea suspenderam a construção de uma barragem, imaginem o festival que ONGs ecológicas fariam.





