O que chamam de contramão da história - por exemplo o fato de defender empresas públicas num momento de discurso confessional e fascista é assim encarado porque o consenso de Washington é a regra - reaparece nessa questão da venda da Vale do Rio Doce. É indispensável colocar no debate não apenas o furor pragmático do sistema em mostrar-se palatável ao neocolonialismo do momento, em curvar-se enfim às razões externas, mas também as posições daqueles que defendem salvaguardas para que não abramos mão de um instrumento capaz de nos dar capacidade de barganha nos choques entre norte-americanos e o mercado europeu ou daqueles que brigam simplesmente para que tiremos o máximo possível dessa negociação.
O cosmopolitismo, que se acredita portador da verdade, já colocou suas razões através não apenas do presidente FHC, mas ainda dos dirigentes do BNDES, cujo realismo lembra o de Sancho Pança. Se é verdade que o debate não comporta, pelo menos nas condições atuais, a referência à ‘‘soberania’’ nada impede que se o encare na perspectiva daquilo que a Escola Superior de Guerra chamava de ‘‘poder nacional’’. A sociedade militarmente hegemônica teria posto fim a essa indagação? Obviamente não, mas os ‘‘realistas’’ do governo agem como se assim fosse com aquela mesma majestade, embora pareça o contrário, dos dirigentes das ‘‘bananas republics’’.
Há um debate no Brasil, mas não por desejo do governo e sim por resistência da sociedade pelos setores não contaminados com a síndrome das ‘‘maiorias silenciosas’’ que acabam apenas servindo às ‘‘minorias licenciosas’’, quase sempre no poder econômico ou do Estado. Ademais o que se pretende é próximo de uma doação se considerarmos a sangria com o socorro ao sistema financeiro. Se este exigia essa intervenção para preservar os correntistas, também não pode o Brasil abrir mão de um instrumental que o coloca em condições, na guerra moderna que é a dos mercados, de falar de igual para igual com as potências que são carentes desses minerais estratégicos.
O governo se coloca numa distância olímpica de tudo, acomodado com a maioria parlamentar que manipula com o jogo do ‘‘é dando que se recebe’’ e que está a configurar um fisiologismo nunca dantes registrado em nossa história como regra comportamental. Por isso o ato público de hoje à noite contra a entrega da Vale é relevante para ‘‘inquietar os aquietados e aquietar os inquietos’’ como na divisa cristã.
BIZARRICE - Pergunta ao caboclo na hora de fazer o cadastro no banco sobre quais bens de raiz que tinha. Resposta: os cabelos e alguns dentes. Um fato curioso no mesmo tom se deu com o escritor Jorge Baleeiro de Lacerda. Uma funcionária do Banestado pediu que declarasse alguns dos seus bens e ele foi relatando ‘‘Tenho algumas peças de valor etnográfico de civilizações do Alto Solimões’’. A mulher engasgou e pediu detalhamento. ‘‘Dentre as peças está uma tartaruga em madeira muirapiranga, lixada com língua de pirarucu e lustrada com óleo de copaíba’’. Aí a servidora chamou o gerente e este deixou o cadastro de lado e testemunhou o que jamais havia acontecido na agência.
SPRAY - No momento em que se discute a Vale do Rio Doce é importante lembrar o seu maior executivo, autoridade internacional no assunto, Eliézer Batista, que estudou Engenharia em Curitiba nos anos quarenta. Eliézer deu conselhos e não foi ouvido por FHC sobre o formato do plano de venda. - A Vale, ao contrário da Petrobrás, não pode defender-se do assédio da privatização e está impedida de expor suas razões, como corporação, ao público. O PT fez a sua defesa, mas a peça estava um tanto quanto primária.- No caso da Petrobrás, ao perceber que o objetivo ia muito além do eufemismo da ‘flexibilização’, seu setor de marketing decidiu botar a logomarca da empresa na camisa do Flamengo e não apenas a do seu produto Lubrax. Aliás o que não falta ao governo é lubrificante para empurrar a venda do patrimônio público. - Infelizmente não há motivação, como no caso das ‘‘diretas jᒒ, para mobilizações, pois a sociedade tem sido trabalhada, ao longo do tempo, para esse desmonte e a apatia do público é o fundamento maior da audácia. - Um dos fronts da batalha vai ser justamente o Judiciário para onde drenarão ações populares, ações diretas de inconstitucionalidade. - A Vale é a terceira maior mineradora do mundo, a primeira produtora de minério de ferro. Seu patrimônio, como alertou o ex-ministro Leônidas Pires Gonçalves, não está sequer devidamente medido, como se viu nas recentes descobertas de ouro e cobre que teriam a dimensão de uma nova Carajás. - Vamos ao detalhe dos minérios: 37 bilhões de toneladas de ferro, 1,1 bilhões de toneladas de cobre, 150 milhões de toneladas de níquel, 165 milhões de toneladas de manganês, 3,5 bilhões de toneladas de bauxita, 100 milhões de toneladas de caulim, 1,65 bilhões de toneladas de titânio, 800 toneladas de ouro metálico puro contido. Isso sem falar nas reservas de monazita, tório, nióbio, molebidênio, paládio, platina, prata, zinco, diamantes. - A propósito: o desembargador Wilson Reback, em discurso, apontou a venda da Vale como algo próximo de um delito de lesa-pátria.
FOLCLORE - Fruet engraçado era o Maurício, aliás volta e meia lembrado por suas passagens curiosas. Pois agora o Gustavo Fruet, o filho eleito vereador, está na crista da onda com essa história de trazer a Olimpíada para Curitiba. Sem querer, pois é sério demais para malícia, entra no campo em que o pai era um mestre: o da piada, uma piada olímpica, uma olim... piada.

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