Luiz Geraldo Mazza
O assunto proibido
Quando Abdo Aref Kudri, presidente do sindicato de jornais e revistas, lançou a interpelação pública dos gastos de propaganda do governo, denunciados por Roberto Requião e fundados em documento assinato pelo secretário Lechinski, acabou, com seu gesto, tirando o caráter mágico que cercava essa questão. Os que tentaram, de alguma forma, questionar o caráter fascista dessa forma de condicionamento ‘‘dançaram’’. Lembro de um: Deny Schwartz, deputado estadual, que entusiasmado com a cobertura das sucursais dos jornais nacionais, vivia a perseguir o tema. Ganhou uma ‘‘geleira’’ da mídia durante muito tempo, por estar mexendo num tema de caráter mágico, um tabu.
Como o assunto foi devidamente ‘‘dessacralizado’’, mas assim mesmo o governo não deu a resposta solicitada e também o interpelante não insistiu, dá para perceber que ninguém deseja clarear coisa alguma, embora estejam todos convictos de que teremos (a baba em cima da grana do Banestado é intensa, ainda que se trate de títulos federais ainda não liberados e que vão tirar o banco das malhas tentaculares do interbancário) um ano de vacas magras. Tanto o secretário de Comunicação Social, David Campos, como o secretário Giovani Gionédis, da Fazenda, já deixaram claro esse aspecto: o dinheiro é escasso.
De uma forma ou de outra, dissimula-se abertamente com o tema e quando falta dinheiro (o débito com os meios de comunicação chega a R$ 40 milhões, o dos empreiteiros é de R$ 70 milhões), e ainda por cima o mercado está em recessão, dá para imaginar as dimensões do drama da área. Não houvesse o hábito, longos anos cultivado, da subvenção, denunciada em relatórios de prestação de contas do Tribunal de Contas especialmente quando relatados pelo conselheiro João Feder, que conhece todas as dimensões e facetas desse poliedro, pois já foi diretor de jornal (Grupo Paulo Pimentel) e é professor da cadeira de Legislação e Ética, e teríamos uma outra cultura a respeito do assunto.
Credores estão excitados e irritados: tentam mostrar paciência, tolerância e mal conseguem dissimular a decepção num momento difícil. Muitos deles foram obrigados a despedir funcionários nas proximidades do Natal e assumiram uma linha de vilania que no caso, indiretamente, é do governo que, muito vivo, prefere a alternativa de pagar pouco (e segurar férias, por exemplo) para evitar a medida radical da demissão de barnabés, coisa que o Mário Covas, de São Paulo, fez sem qualquer constrangimento e, assim mesmo, ganhou a corrida da reeleição.
Com a desmistificação do tema e já não cabendo mais coações como a sofrida pelo deputado Schwartz, até porque na sequência o PMDB foi governo e fez quase o mesmo com Richa, Álvaro e Requião, surge uma oportunidade de pleno clareamento do assunto. Quem deve mover a primeira pedra é o governador: como é possível, num quadro crítico, ter despendido mais de R$ 400 milhões apenas em propaganda? Segundo Kudri, as agências levam a parte do leão. Como é que isso é feito e por quê? A interpelação foi feita ainda no andamento da campanha eleitoral. Colocada essa resposta, urge saber como se está obtendo, a custo zero (essa é a hipótese mais ética), essa presença do governador em escala nacional, o que é meritório e até importante para rompermos com a tão proclamada timidez paranaense. Saber como se faz isso, mesmo que seja a leite de pato, é importante para a democracia e o direito à informação.


GLOSA
Autonomia provisória para as universidades estaduais não passa de um eufemismo para significar que as coisas continuam como estão. Precária é a autonomia do Estados e quase nenhuma a dos municípios



BIZARRICE No fim de carreira, o jornalista Dicesar Plaisant, o pai, passou a desempenhar uma atividade paralela: a de coordenar matérias pagas e negociar com as chamadas ‘‘guias rosas’’, quase dinheiro numa época dura. Seus colegas da área nova (diretores comerciais) o viram descer a escadaria da pasta da Fazenda com uma fatura boa, recebida naquele momento. Antes que perguntassem, respondeu: ‘‘Diante de um Tartufo insinuante, o jornalista levou a melhor.’’ Dicesar ‘‘socializava’’ as páginas que vendia da ‘‘Gazeta do Povo’’ com jornalistas que escreviam esses textos, quase ‘‘merchandising’’ de secretarias e prefeituras.
AXIOMA Luís Fernando Veríssimo lançou a cachorrinha ‘‘Catita’’ para a presidência da República num texto altamente crítico aos padrões da política nacional. No Brasil isso é uma temeridade: em São Paulo já votaram num hipopótamo; no Rio num macaco; em Pernambuco no bode ‘‘Cheiroso’’. Ponto hilário foi quando sugere a foto da ‘‘Catita’’ ao lado do Enéas e pergunta ao qual dos dois o eleitor entregaria o filho.
SPRAY Ninguém acredita no despejo das 44 áreas ocupadas pelo MST: Lerner tem pavor de que se dê com ele o que houve com Álvaro Dias no caso dos professores paranaenses. - Tudo vai permanecer no jogo de supostas intenções e o jeito é a Justiça conceder pedidos de intervenção federal. No governo Requião foi assim também: só com a intervenção é que os invasores saíram da Fazenda Can-Can. Quem paga os prejuízos que o proprietário exige na Justiça? Se houvesse previsão legal contra ações temerárias, os próprios governantes deveriam responder por essas indenizações. Lerner se daria mal, mas o exemplo ajudaria a criar outra cultura relativamente ao assunto. - Decisão da Prefeitura de Guarapuava de criar parques para caçadores deu margem a polêmica, mas no Paraná já existe uma fazenda entre Conselheiro Mairynk e Santo Antonio da Platina, que opera dentro da lei e faz o manejo de animais, permitindo a caça. - O time de basquete da Hortência pelo jeito vai exigir a sua entrada na quadra porque está muito ruim. Nem só de Rexona vive o esporte que era amador e hoje é mercenarismo puro. Quando não havia ‘‘grana’’, o Paraná chegou a mandar duas atletas para o escrete (Marta e Aglaé) e o masculino levava dois de Ponta Grossa: Almir de Almeida e Mair. De leve e sem nostalgia.
FOLCLORE Quem se dirigir ao Boqueirão, dentro em pouco, vai ter que tomar a cautela de vestir o aqualung. Providência mais importante do que a camisinha no Carnaval.
CROMO ‘‘Estrela, estrelinha// faísca da poça o brilho// Miúdo olho cintilas// Mas sendo assim tão arisca// De qual céu é que tu piscas?’’. Wilson Bueno, em ‘‘Flerte’’, no ‘‘Pequeno Tratado de Brinquedos’’.
AFORÍSTICO Se o dólar baixar rapidamente por obras e artes do Fraga, ele vai ser candidato a super-homem. Dizia Brecht: ‘‘Infeliz do povo que precisa de heróis’’. (Galileu Galilei).

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