Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O eixo do bom humor
Na inauguração do complexo viário que leva os nomes de Maurício Fruet e do engenheiro Dario Lopes dos Santos, em Curitiba, houve um momento de extrema afetividade, em que se descortinaram os fatores que unem mais do que os que separam. Lerner sugeriu que aquele eixo viário era um monumento ao bom humor, tanto do ex-prefeito e ex-deputado federal, como do engenheiro que fez dessa arte na pior das adversidades, uma prova de que essa é uma qualidade dos que amam.
A maneira como Lerner e Taniguchi destacaram o que aprenderam no convívio com Fruet nas artes da comunicação e da participação foi, antes de tudo, a evidência de que os espíritos bem formados salvam a política no que ela tem de melhor, que é a abertura para o convívio, a gestão das diferenças e daí, como sequência natural, a solidariedade. Por mais de uma vez já tentei mostrar que quando falou da ternura necessária, Che Guevara se referia essencialmente ao humor e dessa reserva todos dispomos, obscurecida, porém, pelos impulsos mais primários como o da coação para o exercício do domínio, às vezes nutrida por formas variadas do terror.
De Fruet há passagens homéricas daqueles momentos em que se travestia de Pedro Malasartes para caricaturar a empáfia, a pompa, aquilo enfim que forma o que há de irritante no solene e formal, na hipocrisia do exercício político. E do Dario o que se pode dizer é que o seu humor foi essencial na luta contra vários tipos de câncer de que padecia. A maneira como encarava a doença era surpreendente e se constituia num refrigério mais para a alma dos outros. O humor, por vezes, era mórbido. Ao submeter-se a uma tomografia, mergulhou disciplinadamente naquele tubo e quando lá se alojara, o médico, fazendo o coloquial e amável, fez a pergunta de como se sentia. A resposta veio fulminante: Como um marreco no forno de microondas, em Joinville.
O ideal seria que o humor estivesse presente na ação política. Quando houve a discussão no Senado sobre a questão manicomial que sempre se procurou restringir, o senador Roberto Requião teve um lampejo: Sou favorável aos hospícios abertos. Vejam só o Senado: eu melhorei, o Pedro Simon está calmo e o Ronaldo Cunha Lima não atirou em mais ninguém! Quando a pessoa perde esse senso de humor, pode contar: a causa que defende está igualmente perdida. Tomara que esse eixo de circulação, inaugurado com tanta inspiração, não acabe se transformando num fator adicional de loucura no trânsito curitibano. Pelos nomes que aparecem naquela via seria uma contradição em termos. Que seja um desafogo.
AXIOMA
Depois da entrevista do sociólogo italiano Domenico Di Masi à TV Educativa (Roda Viva), já reproduzida várias vezes, desmistificando o mundo empresarial, a bajulação e a fofoca desperdiçando três horas do expediente nas organizações, quando você ouve alguém dizer que a pessoa procurada está em reunião, significa que ninguém está fazendo coisa alguma
BIZARRICE Dias passados, o ex-deputado Roberto Campos dava uma entrevista. Aí o entrevistador perguntou como ele se sentia quando chamado de Bob Fields. Bob fez uma ponderação, referindo-se ao ápodo, quando a pronuncia correta é com entonação no primeiro o. Lembrou o também ex-senador Enéas Faria que traduzindo sua indignação na televisão, disse esperar que o malsinado Ato-5 ficasse na sua condição de putréfato, quando o correto é putrefato. Acontece com as melhores pessoas.
GLOSA Não apenas o secretário Giovani Gionédis aparece em procurações em ações contra o poder público. Numa delas está arrolado o advogado Marcus Vinícius de Lacerda, também do escritório de Gionédis, que é procurador do município de Curitiba. A fronteira entre o público e o privado é tema permanente. Aqui essas relações não parecem nem perigosas, nem melindrosas.
SPRAY Apesar da decisão do PT nacional por 70% dos seus membros negar apoio à bandeira da moratória, o Reage, Brasil do Paraná ainda acredita que junta gente no dia 29, em concentração interna. - O delírio desse pessoal é imaginar (e isso atinge também o PT) que se possa recriar as condições do Diretas já e do movimento do impeachment de Collor. Basta uma recuada (e isso pode acontecer) no dólar e tudo se dissipa. - Londrina e Maringá acertam hoje com a Casa Civil os nomes do segundo e terceiro escalões regionais. O é dando que se recebe vem aí com toda força no seu significado mais visceral. - Todos os indicadores sociais do Sul mostram o Paraná em desvantagem, seja em expectativa de vida, escolaridade, analfabetismo. Detalhe curioso: o ensino médio dá bom desempenho ao Paraná. A média salarial dos professores com 3º grau chega a ser a maior do Brasil: 768,41, contra a média de 708,33 no Sul e 739,59 do Brasil. - Vi, anteontem, o estrago que fizeram no início da Estrada da Graciosa: a pretexto de manter acostamento, capinaram flores que ornavam o lugar por mais de 2 quilômetros. - Outro detalhe: permitem operações de caminhões e caçambas, o que é proibido e tira o sentido da rodovia turística. - De 20 a 21 de março, na Represa do Capivari, na região de Curitiba, vai haver mutirão ambiental com remoção de lixo, plantio de mata ciliar (gabirobas, pitangas, goiabas silvestres, araçás) em forma de gincana, inauguração do Parque Ambiental Ari Coutinho Bandeira e ainda, é claro, torneio de pesca. - Um detalhe: urge regular, o quanto antes, operação de jet-skis junto às duas pontes da BR-116. Vai dar tragédia, brevemente, pois há gente se banhando nas praias da represa. - O livro Nem só de pão vive o homem, do Luiz Alfredo Malucelli é o nono (não ficção) mais vendido do Brasil, conforme a Veja. Imaginem quando houver lançamento formal.
FOLCLORE Moacir Mitsiamu, o Nanquim na Cara (tinha mancha no rosto), era fotógrafo e repórter, pau pra toda obra. Um dia teve que atender um evento na Rua Carneiro Lobo, cujo nome não lembrava, a não ser para dizer rua bicho bom, bicho mau, a forma que encontrou para memorizá-lo.
Uma das coisas que endoidavam o Moacir era quando se postava de forma que escondesse de entrevistas a sua pinta na fotografia e o pessoal do laboratório, atiçado pela Redação, cuidava de mostrar a mancha à base do retoque.
CROMO Um dia o meu cavalo voltará sozinho/ E assumindo/ Sem saber/ A minha própria imagem e semelhança/ Ele virá ler/ Como sempre// Neste mesmo café/O nosso jornal de cada dia// -inteiramente alheio ao murmurar das gentes... Mario Quintana, o permanente, em O Velho Poeta.
AFORÍSTICO Requião mandou jornalistas para aquele lugar porque insistiam em entrevistá-lo sobre nomeação dos irmãos como assessores. Está aí um caso em que ele se aproxima de Lerner. Quando governador, nomeou os dois irmãos para secretarias e o primo-irmão, Heitor Walace, para o Banestado; Lerner indicou o cunhado para o Tribunal de Contas, a filha para articulações na área esportiva e cultural e o genro é da Heads, a agência que mais fatura na área oficial.





