Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Na Crista da onda
Não dá para imaginar o Lerner na crista de uma onda, daquelas do Hawai, deslizando em meio a um tubo. O perfil atlético não comporta, o que, porém, não impede de percebermos, por abstração, que ele age com essa volúpia e determinação de um surfista, pelo menos neste momento, no quadro nacional. Reconheça-se, também, que o sistema de comunicação do governo funcionou com refinada precisão: Lerner foi entrevistado, tema de editoriais e artigos de opinião, apareceu no Bom Dia, Brasil de sexta-feira e na CBN.
Há coisas, porém, que não dá pra acertar da noite para o dia: a dificuldade de articulação verbal do nosso governador é mortal, mas também era com Saul Raiz, uma versão de Ney Braga com a voz do Rivelino ou do Pato Donald. Nem Glorinha Beutmuller, da Globo, milagreira, o resolveria. Talvez adotar-se o sistema indicado por Edmond Rostand em Cyrano de Bergerac resolvesse. Mas o Cyrano tinha narigão e então ele falava e quem aparecia para a bela Roxana (atenção, revisão, Rexona é o time de voleibol) era um cara bonito. O Lerner não servia nem para aparecer e nem para falar in off. Pois com todos os limites, o homem desempenhou um papel à altura e que derruba o mito-clichê da nossa timidez. E isso tem um significado mais forte do que possa imaginar.
Não basta, pois, ter um personagem conhecido e com aura mítica para um bom desempenho. É preciso idéia, igual àquela a que se referia Jean Luc Godard: uma câmera na mão, uma idéia na cabeça. Lerner levou mais de uma idéia: o fundo de pensão, apontado como exemplo por FHC, é a mais forte delas, mas há ainda a aceitação da tese do encontro de contas (tese do PFL) entre os vários níveis de governo e aquela história do fórum de governadores, instância prévia para o reordenamento do pacto federativo.
Portanto, a semana foi boa para o Paraná e Lerner, que pisa na bola com muita frequência, saiu-se bem e num momento importantíssimo.
BIZARRICE
Se algum dos muitos áulicos do Lerner levar esse artigo até ele dizendo que o elogiei e o governador replicar que exigirá pedido de resposta, como já fez anteriormente, só posso dizer que a piada é boa, mas requentada.
AXIOMANuma pescaria pelo Rio Paraguai com o vereador Jorge Samek, Lula suspira Imaginem do que eu escapei... Referia-se à convulsão financeira e ao estágio das contas públicas enfrentados por FHC. Há um cientista político da UFPR que acha que Lula terá uma trajetória parecida com a de Miterrand na França. A comparação é arriscada: quem primeiro derrotou Miterrand foi Charles De Gaulle, reencarnação napoleônica. Compará-lo a Collor é impossível e mesmo Miterrand ao nosso ex-metalúrgico.
GLOSAGoverno estadual deu uma bicicleta na Calói e não quer pagar o contrato assinado por Osvaldo Santos. Lembram os rolos criados em função dos Jogos Mundiais da Natureza. Não há a mínima esportividade nisso.
ALERTAOutra coisa boa que o governo paranaense vem conseguindo é emplacar seus secretários como dirigentes de entidades nacionais. Herwig é o dirigente da associação dos secretários de Transporte e o diretor do DER da entidade nacional que os agrega. Ramiro Wahrhaftig o era como presidente dos secretários de Educação. Como é agora secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, entregou o posto ao secretário de Educação de Pernambuco, Efrem Maranhão, presidente também do Conselho Nacional de Educação.
Não apenas nomes da área pública devem ser aproveitados como também os do campo privado, seja na ciência, artes ou na vida empresarial. O Moacir Gouveia, que dirige o Centro de Convenções, preside a entidade nacional e está empenhadíssimo em que tudo dê certo no encontro da ABAV, Associação Brasileira de Agentes de Viagem, este ano em Curitiba. Não se admite mancada, apesar da crise larvar que aí está. Toda a atenção é necessária.
SPRAY Amanhã é o dia do auê da Heads e sua nova sociedade com a Fischer no Casablanca. No momento, o forte do governo (vide missão encontro de Brasília) é a parte dos meios de comunicação e de agências mediadoras de notícias.- Abdo Aref Kudri, presidente do sindicato de jornais e revistas, desfecha nos próximos dias uma ação planejada para reduzir o poder mediador das agências que levam mais do que os veículos e não têm a décima parte da responsabilidade social. Em jogo da verdade sempre as coisas dificilmente terminam como estavam, como a imprecação de Lampedusa na saga garibaldina.- Depois da Refripar, do Bamerindus, da Impressora Paranaense, do Mercadorama, da Batavo, chega a vez do Coletão: seguem a desnacionalização e desparanização sem qualquer perspectiva de freio. Há alguém estudando isso? É mais relevante do que manifestos acacianos como o último da Associação Comercial.- Reportagem desta Folha mostrou o risco de zoonoses por causa dos pombos. Pois bem: pulgas, ratos, carrapatos, baratas, cavalos, porcos, caramujos, moscas, enfim tudo. O medo agora, depois das enchentes, é da leptospirose.- Essa história da mudança de traçado do metrô de Curitiba está intrigando meio mundo porque a maior das dificuldades é obter qualquer informação e gente da área de comunicação diz, engajadíssima, que é um esforço inutil para separar Lerner de Cássio. Ora, quando da trombada com Aníbal Khury, na demagogia da anistia das multas, só o prefeito agiu e o governador, como lhe convinha, se resguardou.- É preciso ressurgir um Sócrates para desmontar os sofistas na UFPR que a cada problema que surja fogem pela tangente: o da evasão (desistência de mais 11 mil alunos de 93 a 98) é um deles. Cursos bons como os de Medicina, Veterinária, Ciências Econômicas e Engenharia Florestal (o mais bem qualificado no ranking) registram desistências, mas o reitor se apega no fato de a demanda no vestiba ser maior como afirmação de qualidade, quando é mais barato, mais barato, isso é gratuito, o que não é desprezível numa crise como a atual.
FOLCLORE Perguntaram a uma autoridade se ela era rica. A resposta: não sou rico, rica é minha mulher. E fez gracinha: eu sou um gigolô da minha mulher.
AFORÍSTICO Lembro do intelectual argentino: se eu vejo um policial batendo numa criança eu não faço um poema em defesa do oprimido; mato o guarda. O ponto de vista continua parecendo retórico e expressando impotência. É uma variável da discussão arte pela arte ou arte engajada.
CROMO Quem diria: o sanguessuga é arma útil da medicina para sangrias e até - centros avançados se valem dela para o sinapismo.





