Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Fraga & Genico
Cada vez que a oposição, arrogante, acreditando-se o próprio vetor da história, tenta convocar alguma figura do governo, e a bancada situacionista (isso se dá especialmente aqui no Paraná) faz acrobacias para evitar que isso aconteça relembro da convocação do Genico (Eugênio José de Souza), caboclo litorâneo, então secretário da Fazenda na administração Munhoz da Rocha. Sem querer idealizar o passado, risco que correm os sexagenários como eu, irritados com a mediocridade do presente, não dá para comparar a bancada de oposição daqueles tempos com as de agora. Para início de conversa, Acioly Filho era a figura principal, mas havia ainda Hélio Setti, Mário Faraco, entre outros.
É verdade que não dá para comparar também o pragmatismo de hoje e a maneira fácil com que se fazem negócios fabulosos. Basta ver negociações de terras em torno da localização das montadoras e de outros complexos fabrís para demonstrá-lo. Imaginem, por exemplo, o que há por trás dessa estória em torno da mudança do traçado do metrô. Certamente não é sugestão de samaritano, muito menos de algum grupo escoteiro, que a inspira. Ocorre que um empreendimento desse porte mexe com interesses sensíveis e questões ligadas ao adensamento da ocupação do solo ao longo do itinerário e, especialmente, nas estações de caráter intermediário - enfim, a cupidez do jogo imobiliário.
Naquele episódio dos anos 50, Genico, que não esnobava e muito menos demonstrava apego ao poder, com seu ar singelo de guarda-livros, deu um banho na oposição, a despeito da articulação desta em termos técnicos e verbais. Ontem o Genico do Senado foi o Armindo Fraga Neto, demonizado pela mídia e o basismo imbecil, que, com a elegância de um espadachim, deu um banho em regra especialmente naqueles mais contundentes, metidos a oráculo, por acreditarem demais nos mitos que cultuam a respeito da cena brasileira. Durante a sabatina da Comissão de Assuntos Econômicos desmistificou-se todo o aparato e o que Mao Tse Tung dizia do capitalismo como tigre de papel é bastante aplicável à oposição e aos que prometiam um cerco em torno do satanizado executivo.
BIZARRICE
O melhor levantador do vôlei mundial era o Maurício. Ontem, na sabatina do Armindo Fraga, o senador Osmar Dias, olhado sempre como durão, lembrou
o Maurício: tão precisas as assistências que o inquirido botava todas as bolas na quadra do adversário, sem a mínima chance de defesa.
AXIOMA Na operação desarmamento, a PM entra num botequim da Rodoviária antiga, o Terminal Guadalupe, e quando pede aos frequentadores que se encostem com as mãos na parede, um deles pergunta: Dá pra tomar uma Kaiser antes?
Como se vê a vida, em quase tudo, imita a arte. O escritor José Saramago, primeiro Nobel de Literatura de língua portuguesa, chega a sugerir que a própria História, esta que tanto se subordina a normas e taxonomias no campo acadêmico-científico, não foge de fundamentos da arte de ficção.
GLOSA Admirável o senso de humor do Carvalhinho, convidado de honra para a inauguração da Tafisa, em Piên, ao sugerir ao segurança da sala Vip que acompanhava Aníbal Khury. Quem não conhece o Carvalhinho, da Fiep, não pertence ao mundo dos vivos. Estar com Aníbal, por outro lado, significa estar com alguém que lembra o mistério da Santíssima Trindade - os três poderes num só. Exagero que o José Carlos Gomes Carvalho não cometeria por sua refinada elegância e extrema discrição.
SPRAY O jornal Trilogia da Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná dedicou metade do seu tablóide na tentativa de contestar uma afirmativa minha de que ela mais beneficia remediados e ricos do que os pobres. - Os professores Gregory e Dante Romanó Jr. nada responderam a não ser insistirem na repetição de clichês na defesa do consulado da eleição direta que premia pessoas pela participação político-eleitoral e não por virtudes científicas. - A Universidade deteriora a olhos vistos: levamos um banho de Santa Catarina que emplaca quatro primeiros lugares em graduação e pós-graduação. - A Gazeta Mercantil mostrou ontem os números da evasão na Federal: entre 93 e 98 o total de desistências (afora matrículas trancadas) foi de 11.033. Entre 84 e 89, as desistências foram de 5.497. - E os que se formam e que não exercem a profissão, o que se dá com a maioria, não entram como um feito negativo da UFPR? - O baixo clero tomou conta da instituição, aqui e no Brasil todo, e detesta qualquer avaliação, tanto que a USP teve dificuldades, anos passados, para fazê-la. Os mais tortuosos argumentos eram empregados, como tentaram os estudantes fazer o mesmo com o Provão e quebraram a cara. - No ano passado, o ensino superior no Paraná estava assim distribuído: 15% das matrículas eram da Federal, 35% da Estadual (aliás a UEL saiu-se melhor do que a UFPR nas avaliações, em terceiro lugar no Brasil), 46% de particulares e 4% da área municipal. Há muito a UFPR perdeu a hegemonia e não enxerga. - Retorno aos números dos aprovados no vestiba para mostrar que a classe média média e a média alta dominam: 63.21% dos aprovados ficam nas faixas que vão de R$ 1.500 (que não é estreita em termos nacionais) a mais de R$ 5 mil. Entre R$ 2 mil e 3 mil temos 18,12%, de R$ 3 mil a R$ 4 mil 10,50, de R$ 4 mil a R$ 5 mil 7,84% e além de R$ 5 mil mais 11,96%. Só nesses aí dá 48,42%. - O ensino gratuito é uma forma de manter a cooptação do aluno pelo sistema e o predomínio político-eleitoral. A bajulação do professor em cima do aluno, a cumplicidade, ausência de aplicação decorrem de tudo isso aí: quantos mestres de regime de 40 horas não são encontrados no seu posto? - Isso tudo precisa ser discutido e avaliado sem preconceito erigido em sistema. Fiz a Universidade no tempo do Dantinho (Romanó Júnior) e pagávamos taxas pesadas e os que não podiam fazê-lo, como no meu caso, pediam a liberação junto ao centro acadêmico, sistema empregado em Portugal, com a exibição do Imposto de Renda.
FOLCLORE Capa da Paraná em Páginas: Rafael Greca, risonho, em pé num - - - - - - conversível e no segundo plano Margarita, mais séria do que de costume. Isso se deu na inauguração da Vicente Machado quando sugeri, aqui nesta Folha, que só para completar o cenário de Dallas faltava o Candinho Gomes Chagas, no papel do Lee Osvald, mira telescópica, de um canto de janela com espingarda de rolha pronto para atirar.
CROMO Hipocampos e caravelas, anêmonas e sargaço, o baticum do oceano, o mundo que no silêncio das bolhas se desfaz.
AFORÍSTICO Não se sabe ao certo se a correção do metrô é traçado ou trançado.





