Luiz Geraldo Mazza
CPI não julga, mas aponta e informa. Como, porém, se desenvolve no âmbito político e trombeteada pela mídia acaba se contaminando com o excesso de comunicação, com o que ganha conotação inevitavelmente emocional e sempre com o indispensável tom de escândalo. Quando o apurado numa CPI vai ao Judiciário tudo muda de figura e para prejuízo da imagem deste Poder porque o público, não entendendo de tecnicalidades, acaba atribuindo aos magistrados a pecha de coniventes. Vide o ocorrido com a CPI de Paulo César Farias que teve um efeito forte apenas na renúncia de Collor, já que o seu assistente financeiro pagou, como bode expiatório, por tudo. Assim mesmo com a descoberta dos vínculos com a Máfia percebe-se o quanto as nossas instituições, de um modo geral, não funcionam.
Além desde problema há um outro: enquanto o trâmite de uma CPI é todo coberto pela mídia, a eletrônica, especialmente (ao ponto de a TV Senado ter se transformado numa área de audiência principalmente de públicos A e B formadores de opinião), o andamento no Judiciário não tem cobertura, a não ser em júris como o de Simpsom nos States e que aqui terá a sua contrafação no caso das bruxarias de Guaratuba ou naqueles recursos de Collor que o STF abriu para as rádios e TVs.
Agora, neste exato momento, o processo de impugnação do mandato de Requião está em condições de subir ao Tribunal Superior Eleitoral depois de o TRE ter julgado improcedentes os embargos declaratórios opostos. Nesta semana o Diário da Justiça publicou a decisão e, como se vê, o andamento da questão naquela Corte pode cruzar com a própria CPI se lhe for concedida a prorrogação de três meses. Como o conteúdo das denúncias que determinaram a cassação de Requião não é conhecido massivamente, o descompasso entre essas duas instâncias e mais o poder de fogo da mídia colocará mal o Judiciário inevitavelmente, dando a impressão, se confirmar a decisão de primeira instância, de revanchismo. Mais uma vez o senador se vale da exposição na mídia para aparecer como o indignado e o justiceiro, como fez quando usava a televisão e o rádio para atacar juízes que não tinham esse acesso aos veículos. Naquele instante a covardia parecia travestida de coragem, vejam as dimensões da hipocrisia.
A Assembléia age a reboque de quem está no poder. Sempre foi assim, razão pela qual os desvios do governo Requião não foram examinados como também os de Álvaro Dias e Richa estiveram quando muito em discursos isolados da oposição que não tiveram o realce devido na imprensa e isso se repetirá certamente com Lerner. Por que as acusações contra o governo passado, que estão nos autos da denúncia do crime eleitoral (abuso de poder, peculato etc), não deram uma CPI? O material é rico, de primeira. Bastaria que não houvesse comprometimento tradicional das maiorias de ocasião e a visão que o público teria do problema seria outra, mais limpa e honesta, altamente desmistificadora como o exige a democracia.
BIZARRICE - Em Olinda é encenada A Paixão de Cristo. Entra em cena o barbeiro da cidade, dizendo solenemente Eu sou Pôncio Pilatos! ao que o público, em uníssono, respondeu Zé das Tranças, Zé das Tranças!. Como o alarido não parava, Jesus, interpretado pelo presidente da Câmara, pediu respeito e calma ao público e foi crucificado, antes do tempo, com uma vaia na qual apareciam seus apelidos menos divulgados.
SPRAY - O que se dá no Banestado neste momento é uma briga de grupos: o pessoal ligado nas negociatas da Leasing, que estavam sob sindicândia e inquérito, divulgou que o presidente Domingos Murta Ramalho se omitia quando, na verdade, os constrangia. - Isso é tanto verdade que ontem nada menos de sete operadores da Leasing (que agora podem dar o serviço e entregar beneficiários) foram colocados em disponibilidade. Dois deles tinham contas secretas no Citybank no exterior num acumulado superior a US$ 3 milhões e também na agência local. - O documento apócrifo, ao qual Requião cartorialmente deu fé, foi publicado em parte pelo jornal Gazeta do Paraná, pois chega a indicar empresários que foram beneficiados com o deságio dos títulos, conta porque a Corretora não participou do primeiro e segundo lançamentos porque um dos diretores não concordou e vai ao extremo de sugerir, com indicações superficiais, maquiagem no balanço do banco. - A cada momento pipoca uma informação contra o governo e sugerindo proteção a empresas de amigos, prestadoras de serviços ou fornecedoras, como aliás sempre acontece. Afinal negócio público, antes de tudo, é um negócio e só os hipócritas tentam botar chantily nessa realidade. - Eis uma idéia: por que não duas CPIs abrangentes, uma sobre os desdobramentos da questão dos títulos estaduais e outra em cima daqueles fatores que levaram o Poder Judiciário a cassar Requião? - Olha aí um fator inquietante: o nível de atividade industrial no Paraná caiu 2,63% em janeiro relativamente a dezembro. Isso se deu quase na hora da euforia com as montadoras. Nacionalmente houve aumento de 3,72%. O Brasil está murchando no Paraná, mas vai melhorar, é claro. Dados da Confederação Nacional da Indústria.
FOLCLORE - Requião está espalhando que o Murta, presidente do Banestado, o teria procurado em casa na segunda-feira. Se fez isso passa a ser, desde agora, um refém do senador que vai dizer o que bem entender em torno do que se conversou e, é claro, comprometendo o governo, como agiu, por exemplo, com Fruet, logo após assumir a Prefeitura, acusando o antecessor de ter posto a mão no jarro, o que jamais provou.





