Luiz Geraldo Mazza
O presidente FHC esteve ontem no Paraná (em Piên), para inaugurar a Tafisa, empresa portuguesa que dará contribuição relevante na política de substituição de importações, hoje não colocada mais como prioridade estratégica, mas indispensável para ampliar o raio de autonomia interna. Como viajou em companhia do governador Lerner no retorno a Brasília, esse cenário de aproximação ficou ainda mais acentuado com a chegada dos R$ 2,6 bilhões em títulos federais, liberados ontem, como esta Folha deu em primeira mão na reportagem de Carmem Murara, o que mostra uma sincronia política relevantíssima.
Se com esses recursos é dado o tiro de partida da operação de saneamento do Banestado para ulterior privatização, urgência que nenhuma pessoa de bom senso contesta, uma vez que esses títulos, liberados anteontem pela Secretaria do Tesouro Nacional por solicitação do Banco Central e que chegaram ontem ao seu destino, resta agora acertar o nó financeiro com o efetivo funcionamento da Paranaprevidência que carece até aqui do essencial - o capital rotativo que a alimentará para o qual se buscam várias saídas entre as quais aquilo que consta de um pleito genérico do PFL nacional: um encontro de contas entre União, Estados e municípios.
Essa postura pefelista é a prova da raposice e do melhor domínio da política no que ela tem de mais sinuoso. No avião, o presidente Fernando Henrique deve ter trocado idéias com Lerner a respeito do que poderia consistir esse tão operativo e funcional encontro de contas. Esse diálogo valoriza a presença de Lerner no encontro dos governadores e mostra que o PFL é mais ligeiro do que o PSDB em artes oportunísticas, valendo-se, a um só tempo, da resistência, exótica e primária, de Itamar Franco e da mais consistente do Olívio Dutra e dos demais governadores oposicionistas para encaixar esa aproximação.
O momento é bom. Cabe ao Paraná, há horas um enjeitado da União, tirar proveito de um quadro que na aparência é bastante favorável.
BIZARRICE
Ontem, em Piên, no bifê havia
pão de queijo. Sem topete
BOI NA LINHA Constava ontem nos meios técnicos e empresariais, que entrou boi na linha do metrô. O governador teria imposto trecho a Cássio Taniguchi, segundo tais rumores, diferente daquele bolado pelo município e que ia do Pinheirinho ao Capão da Imbuia no primeiro trecho.
Como se vê, parece que estamos diante de um ato de narcisismo com o governador Jaime Lerner tentando sugerir que não cai nessa de a criatura voltar-se contra o criador. Sempre andaram de mãos dadas em aventuras do gênero como aquela do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que rendeu muita consultoria e boa grana aí aplicada em estudos. Estranha-se a colisão que só pode ocorrer por imposição da vaidade, conquanto seja visível a melhor capacitação do prefeito, tanto em termos técnico-científicos como políticos.
O mais grave dessa história é que o prefeito vai ao Japão e o trajeto que lá está, aquele original da equipe - municipal, terá que ser mudado. É por essas e por outras que se cria um clima de permanente conflito entre as forças que gravitam em torno do poder estadual. Ontem corria na cidade, por exemplo, que um grupo originário da Refripar, hoje absorvida pela Electrolux, desejava que Antonio Carlos Romanowski fosse para a área fazendária. Se isso fosse feito nesse momento seria uma quebra de solidariedade interna porque o titular, Giovani Gionédis, tem sido acusado de tráfico de influência e isso o deixaria em situação de constrangimento. Se houve generosidade para acertar o caso do ex presidente da Leasing Banestado, promovido a secretário, pegaria muito mal que Lerner seguisse a sugestão, colocada com requintes de contrainformação.
PARADOXO Bem pertinho da Tafisa, um feito da Secretaria da Fazenda: apreensão de sete carretas com mercadorias trocadas. O minério de ferro, que constava das notas e que é isento de tributos, era substituído por lingotes de aço. Os carros só foram liberados depois do pagamento da multa de R$ 450 mil. A Tafisa só vai render tributos mais tarde e a fiscalização deve ser de todo o dia.
AXIOMA Se prevalecer o tribunal de conciliação para acertar a contenda entre FHC e os governadores, especialmente Itamar Franco, só há uma saída: o programa do Ratinho com o público ululando (não é ato falho e nem referência ao Lula que não quer saber de conciliar coisa alguma).
GLOSA O Ministério Público quer que a Prefeitura de Curitiba se explique na questão das enchentes. Como os culpados principais devem ser ou o El Ni¤o ou La Ni¤a, a Prefeitura e seus departamentos serão autuados como coautores.
SPRAY Primeiro restaurante do Circuito Italiano (limite de Colombo com Bocaiúva do Sul) vai ser inaugurado a 6 de março. Chama-se Sabores do Campo. Fica no local mais alto do itinerário e fará parte do Hotel-Fazenda Quintas de Bocaiúva, do jornalista Cícero Cattani. - O Paraná começou tarde a descoberta do chamado turismo rural, mas já colhe alguns frutos em São Luís do Purunã e no Guartelá. - Rumores indicavam que o governo teria dificuldades para fechar a folha de pagamento do funcionalismo: ontem à noite, o crédito já estava na conta dos servidores no Banestado. - Jorge Carlos Sade continua a sua luta para que o Exército exponha claramente os motivos pelos quais foi reformado em 15 de dezembro de 1954. Depois de sua obstinada luta, até agora sem qualquer clareamento como se revivesse o processo de Kafka, ele entrou com um pedido de habeas data no Superior Tribunal de Justiça, figura nova da Constituição de 88. - O esquema de comunicação social do governo opera a todo vapor: as propostas de Lerner ganham espaço em jornais nacionais e em colunas de alta densidade de leitura. Resta agora fazer acontecer mesmo. - A perda do ar monárquico do presidente da República, em seu discurso em Piên, é, a rigor, uma autocrítica em relação às declarações anteriores. Sem humildade, que não é do estilo, mas sem aquela arrogância que bloqueia o diálogo. Tomara que funcione, pois é um sutil pedido de trégua.
FOLCLORE Um oposicionista, fel puro, soube da chegada do dinheiro do Banco Central para sanear o Banestado e chutou: É por isso que um governista estava com a cara daquele sapo do anúncio da Budweiser, com a euforia de quem acabou de engolir um mosquito e dois vagalumes.
CROMO Cortaram as hortências e os beijos da beira da estrada da Graciosa. Se esse governo não fosse ecológico seria bem pior.
AFORÍSTICO A pilantragem no Paraná é sem limites e todos que a praticam fazem um ar de comiseração diante dos que os apanham no flagrante.





