Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A partir das pessoas?
Da entrevista da semana passada de Lerner à ISTOÉ ficou cintilando a concepção de que se deve governar a partir das pessoas. Antes o governo tinha uma frota de veículos que operava as tarefas de transporte; hoje quem as faz são duas empresas, de amicíssimos do peito do governo, em nome da terceirização. Seria isso, por acaso, governar a partir das pessoas?
Este é apenas um dos múltiplos quetionamentos que se poderia fazer em torno de tão discutível doutrina. É o que se dá, por exemplo, com a telemática, a bateria de computadores, também sob comando de particulares, como se essa eficiência justificasse o caminho indicado, embora algumas figuras da área, ligadas a Celepar, estranhassem que o preço pago pela locação de cada aparelho em pouco mais de dois meses fosse suficiente para adquirir um bem permanente.
Mas no estado confessional essas coisas soam ridículas quando colocadas porque os potentados rirão de tamanha ingenuidade e quando alguém mostrar que esses mediadores estão ganhando dinheiro demais, como se dá com agências de propaganda (na principal das quais figura um genro do chefe de Estado), haverá aquela reação conhecida: os que são contra estão apenas com inveja, nada mais!
Os grandes agentes de negócios constituem um tipo de iniciativa privada que vive exatamente dessa vocação modernosa: de substituir funções que eram, na origem, inerentes ao poder público. E no interior do grupo político, técnico e econômico há os consultores inevitáveis, tidos como invencíveis, embora não sejam poucos os casos de empresas que quebraram em suas mãos e sob os seus inspirados conselhos. Eles é que estão tinindo com a hora das privatizações do Banestado, Copel e Sanepar como já estavam na chegada dos grupos cosmopolitas.
O pior é que não pessoas comuns, mas sim demiúrgos, magos em suas áreas. Às pessoas comuns se reserva o papel de objetos das mensagens/massagens e que pela constância produzem em cada um o senso de que o devem a esse governo tão generoso jamais será pago, daí, também, a necessidade da servidão/obediência.
BIZARRICE
Com sua voz estridente de pregador religioso, Eugênio Stefanello, da Cobal, lembrava um profeta do Apocalipse ao dizer a obviedade de que nunca os estoques reguladores foram tão baixos. Feijão, trigo, farinha e fécula de mandioca com estoques zerados. Em compensação o estoque de indignação contra o governo neste país nunca esteve tão denso.
AXIOMA Rubinho Ferreira, na porta do hotel em Guaratuba, filosofa: será que o Cássio Taniguchi vai ao Japão para trazer novos secretários?
GLOSA Vejam como são generosas essas montadoras: o governo lhes deu de mão beijada estímulos para implantar-se que não encontrariam em qualquer país sensato. Estão de tal forma assustadas com a crise que não ousam sequer patrocinar o time de basquete feminimo, R$ 150 mil mensais, que acabam saindo do governo e que podem até faltar para a merenda e o transporte escolar.
REFLEXÃO No Direito Romano havia a figura da capitis diminutio, que tratava escalonadamente nas perdas parcial ou total da cidadania. Um falido, um concordatário, um inadimplente teria alguma redução de capacidade. Assim se dá, até por iniciativa de um órgão da Associação Comercial, o Serviço de Proteção do Crédito, quando alguém fica com a sua ficha negativa. Curioso é que empresários e até diretores da instituição, sujeitos à mesma síndrome, não sofram qualquer restrição quando enfrentam essas humanas adversidades.
SPRAY A violência da enchente em Curitiba gerou um clima de paranóia: havia até o receio de explosão de edifícios por causa da água acumulada em andares abaixo do nível dos rios e dos depósitos de gás.- Além de tudo, o impacto das cheias poderia ter comprometido a estrutura dos prédios, como se cogitava no caso específico do Conrado Riedel, tanto na parte de escritórios como na residencial, esta com 128 famílias desabrigadas.- O Edifício Montepar onde funcionam varas cíveis ficou interditado e o risco não era pequeno diante da inundação das instalações subterrâneas, poço do elevador, e que punham sob ameaça o sistema elétrico.- Não dá para criticar os governos municipal e estadual pelo que está ocorrendo: a atipicidade do fenômeno (chover em duas horas a milimetragem de um mês praticamente é um dilúvio) é forte demais para comportar demagogia.- Um geólogo, com tese de mestrado na USP sobre os solos de Curitiba, afirmou na rádio CBN que esse fator é permanente como dificuldade de um sistema de drenagem eficiente e destacou o problema mais grave na área leste da cidade.- Dá para imaginar prospectivamente o que estaríamos lamentando, neste momento, se as obras do metrô tivessem iniciado.- O Brasil ficou emocionado com a homenagem a Barbosa Lima Sobrinho no Carnaval. Quem está escrevendo a sua biografia é o jornalista paranaense, radicado no Rio e afinizado com as idéias do personagem, José Augusto Ribeiro.- Aliás, o Carnaval brasileiro homenageou um nacionalista, Lima Sobrinho, e um jornalista de traço cosmopolita, Assis Chateaubriand, uma espécie de antípoda.- O deputado Tony Garcia diz não ter elementos de convicção suficientes para pleitear a CPI que investigaria um possível uso do tráfico de influência do secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, em benefício do escritório de advocacia da esposa.- Convenhamos que se houvesse qualquer coisa do gênero, claramente manifesta, o governador não teria lá muita força para intervir: ele se comprometeu, por ação e omissão, nos problemas do Banestado, especialmente nos da Leasing, cujo titular veio a promover a secretário e que deve ter praticado os atos a seu pedido. É o mínimo que se pode deduzir daquela situação, e fica-se nesses casos sem saber quem é refém de quem.- Até agora o governo não respondeu a interpelação pública do sindicato das empresas de jornais quanto aos dispêndios dos mais de R$ 400 milhões em propaganda nos quatro anos. Abdo Aref Kudri, presidente do sindicato, está convencido de que pelo menos grande parte desses recursos, a majoritária, vai para um pequeno grupo de agências de propaganda. Fazer a anatomia desse assunto é uma responsabilidade coletiva.-
FOLCLORE Terror é a coisa mais fácil de fazer: o pessoal do PPB estava pedindo a Tony Garcia que não insistisse nessa estória de CPI contra Gionédis. Aí veio a explicação, mais terrível ainda: só o faria depois de um parecer do Saulo Ramos.
CROMO O arco-íris depois da inundação não era o sinal de reconciliação do Deus do Velho Testamento depois do Dilúvio no caso de Curitiba: a chuva retornaria.
AFORÍSTICO Muita água, mas insuficiente para lavar o sangue dos dez homicídios de Curitiba. Pelo menos aqui não há desigualdade, pois o Cândido Martins de Oliveira já foi vítima de atentado. Como na maioria dos casos, não clareado.





