Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Crise e crisol
Num dos textos, polêmicos como sempre, de Leonardo Boff, o mais brilhante dos pregadores da Teologia da Libertação, como seguidor de Joseph Comblin, que o regime militar quis expulsar do Brasil, há uma passagem em que ele estabelece uma engenhosa semântica para fazer da crise um momento de virada para o melhor, vinculando-a à expressão crisol. Crisol é o cadinho em que se dão as transformações, figurativamente, como a dos sentimentos e objetivamente como a das máquinas fundidoras e a dos processos químicos.
Ele a coloca - e com sobras de razão - como uma ruptura de equilíbrio e capaz de gestar o novo, como se acreditava que ocorresse com as revoluções. Nunca o momento gerado por uma crise é igual ao anterior e quase sempre o supera na linha do avanço e da progressão. Nos dias que estamos vivendo, quando não é fácil a distinção entre o mundo das aparências e o da realidade, notadamente quando isso se opera na questão cambial e financeira, não são poucos os que acreditam que a agudização da crise tende a nos dar mais efeitos benéficos do que nefastos pela circunstância elementar de nos submeter a um jogo da verdade no exato sentido do psicodrama.
Quando os norte-americanos viveram o crash de 1929, e que teve efeitos em commodities como o café brasileiro, o capitalismo ganhou fôlego com as práticas intervencionistas keynesianas. Nesta semana, na revista Época, John Keneth Galbraith, que participou daquele processo de reacomodação no governo de Roosevelt, como controlador de preços, situação-limite para um liberal verdadeiro (que não se confunde com a praga do darwinismo social do badalado neoliberalismo), mostra as inconveniências das panacéias do FMI.
Aliás, na sua juventude nonagenária, Galbraith já aconselhou anteriormente ao Brasil que simplesmente não pagasse a sua dívida, o que, é claro, é uma solução política e não de sentido técnico. Nesse aspecto admite alta de impostos, jamais os cortes das verbas sociais, obsessão da cartilha direitista hoje em voga e que obviamente encontrará a máxima resistência nas sociedades bafejadas pelo Welfare State, o estado do bem-estar tanto na Europa como nos States com sua malha fortíssima de proteção social, coisa absolutamente inexistente neste Brasil de cultura reflexa e de papagaios colonizados.
Nossa dificuldade é a cultura do imediatismo. Se fôssemos militarmente ocupados como se deu com o Vietnã não teríamos aquela paciência oriental para preparar a resistência desde a ocupação francesa até chegar na expulsão dos ianques. Nem o governo, muito menos a oposição, esta primitiva e selvagem, apostando no quanto pior melhor e no golpe, se habilitam a ver o amanhã na perspectiva do médio e longo prazos.
A crise está checando dogmas, queimando etapas e dela teremos um novo estágio. Rafael Greca diria: a larva se fez ninfa e borboleta. Melhor isso do que o destino de Gregório Samsa, de Kafka, que despertou em metaformose para uma asquerosa barata, possivelmente metáfora que caberia a qualquer estado de abandono, solidão e, quem sabe, exclusão.
BIZARRICE
A briga entre Aníbal Khury, presidente da Assembléia, e Quielse Chrisóstomo, presidente do Tribunal Contas, órgão auxiliar, subverte o velho brocardo jurídico de que o acessório segue o principal. Aqui o acessório e o principal se perseguem mutuamente
AXIOMA O ministro Rafael Greca, do Esporte e Turismo, ia ser alvo de matéria folclórica, já levantada pela sucursal da Veja. quando apareceu o show ajustado ao Carnaval das páginas amarelas. Cada vez mais cosmopolita, ao ser perguntado sobre coisas de campanário, nas quais está envolvido até o pescoço, disse que tudo isso era provincianismo, assuntos menores para o seu Olimpo. Vai desgastar-se logo num vulcão de factóides e na implacável fadiga do material. Não há talento e criatividade que a evitem. Nem um artista dos jogos florais como o nosso engenhoso ministro.
GLOSA Consta que os Jogos Mundiais da Natureza ficaram a mercê de uma agência de propaganda. Mais um caso de governar a partir de algumas pessoas, já que cuidar de todas é humanamente impossível e desejável publicitariamente.
SPRAY Várias intervenções foram aprovadas em municípios como Londrina e Paranaguá no Órgão Especial do Tribunal de Justiça. Recursos incríveis vinham sendo feitos para evitá-las. AgOra é relaxar e esperar. - Mas há também pedidos de intervenção federal no Paraná nas questões de invasões de terra e com ordem judicial de despejo de ocupantes sem que o governo se mexa. Ganha tempo, empurra com a barriga que não é pequena e diante do fato consumado sugere que a reacionária é a Justiça. - Requião teve o início do seu conflito com o Poder Judiciário nas questões de terras e que depois derivou para a questão salarial dos magistrados que, erradamente, entraram na fria de uma greve, apoiada, também de forma irresponsável, pela OAB. Quando o STJ aprovou o pedido de intervenção, o governador não teve alternativa e rapidamente adquiriu terras para assentamento dos despejados. - Uma sequela natural foi o caso de Campo Bonito, com a morte de quatro pessoas como na gestão Lerner tivemos o problema de Santa Isabel do Ivaí em que um manifestante perdeu uma perna. - A ousadia do MST, que também não controla o processo, já que surgiram facções paralelas, com as novas invasões, somadas ao imobilismo do governo, gera clima de tensão de difícil monitoramento. - A moratória crônica da questão fundiária vai se repetir com o problema do pedágio: uma decisão da Justiça Federal pode obrigar o governo, que tem o direito de mexer em concessões e renegociá-las, a um recálculo tarifário, o que seria um ônus insuportável para a produção e mais um elemento de atrofia nas atividades econômicas.
FOLCLORE Um prefeito do Setentrião foi a Ney Braga pedir auxílio e sem jeito deu um escorregão nos pisos sofisticados e chiou: Jogaram merda nessa bosta aqui!, redundância menor do que a do vereador Soriano, de Paranaguá, que acabou o discurso com a frase Viva a paz universal do mundo inteiro todo. Outro prefeito, este do Sul, deu ao governador seu endereço: os hotéis Clima Xis e Zero Quilômetro. Tradução: Hotel Clímax e Hotel OK.
CROMO A casca rude da ostra segrega no ventre de madrepérola a jóia que nela aflora como doença. Condenados ao ostracismo jamais acharam uma pérola.
AFORÍSTICO Se passássemos pela experiência das guerras e das revoluções internas, não conciliadas como normalmente ocorre, o estado de espírito para enfrentar a crise de agora seria certamente outro.





