Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Piadas bem pedagógicas
Uma das boas piadas que se fez sobre o golpe de 64 (claro que elas foram mais difundidas quando a vaca já estava no brejo) é aquela do militar que leva um cascudo no interior de um ônibus, de uma mulher que alegou que o milico a encoxara despudoradamente. Há um rolo entre os passageiros e todo o mundo vai em cana. O delegado está preocupado com um detalhe: a troco de que o cobrador chutara o quépi do oficial como quem bate com ódio um pênalti? Explicação do trabalhador: Quando eu vi todo o mundo dando tapa na cara de um militar e chutando-lhe o traseiro, e o quépi estava por ali dando sopa, acreditei que a revolução tinha acabado e marquei um gol de placa.
A troco de quê essa colocação? Simples, singelo até: se o governo estadual continuar se desmoralizando em vários setores (avicultores e suinocultores, empresas transportadoras diante do pedágio, credores aos montes fazendo fila, ordens judiciais não cumpridas, os velhinhos aposentados o olhando como se fosse um Herodes no masssacre aos inocentes) ao mesmo tempo de repente vai ocorrer com Lerner, em que pese o fato de ter sido eleito no primeiro turno, alguma coisa parecida com o ocorrido com o milico da anedota.
O equilíbrio deste governo é de uma casca de ovo: o deputado Hermas Brandão, que teve uma passagem ruidosa e, para muitos, ruinosa na pasta agrícola, está jogando pesado ao ameaçar boicote das matérias do governo na Assembléia enquanto não cumprir as ordens judiciais. Para alguém destituído de energia, como o governador, e que treme quando Aníbal Khury ou Antonio Belinati ou ainda o Janene fazem qualquer exigência, é um teste barra pesada. Claro que a viagem ao exterior ajudou a descomprimir e a desanuviar, ainda que por tempo determinado. Amiúdam-se as denúncias contra integrantes do seu governo, o que prova que as coisas não se limitavam ao Banestado, que virou um cenário de filme pastelão com a divulgação das atas de diretoria.
Lerner iludiu-se ao transferir responsabilidades para a vice Emília Belinati e vai enfrentar problemas acumulados. O governo entrou em regime de faquir, mas deu para arrumar os R$ 150 mil mensais para garantir o time de basquete da Hortência e que, como cigano, tal qual fez com o Fluminense, deixará o Paraná, ainda que com um título, para bandear-se a outra griffe. O secretário de Esporte e Turismo, que parece um clone do ministro da área no ar juvenil e no discurso, transmite a todos segurança e tranquilidade: foi fácil arrumar R$ 150 mil para não dar vexame no caso do time da Hortência, mas os R$ 20 mil para o Grêmio de Londrina, que faz excelente papel no Campeonato Nacional de Basquete Masculino, foram arrancados a fórceps.
Lerner amanhã vai, a um só tempo, arrepender-se de duas coisas: o de ter voltado ao governo, cuja herança de caos poderia transferir a Requião, e o de haver retornado tão logo dos Estados Unidos da América do Norte, cenário imune a mesquinharias, apesar das estagiárias e do presidente compulsivo.
BIZARRICE
No Paraná, em função da crise pública, há mais circo do que pão. Em breve teremos o funcionalismo do Banestado atirado às feras do Coliseu nas malhas do Programa de Demissão Voluntária. E isso é circo e nenhum pão.
AXIOMA Tiazinha seria, para muitos, um símbolo do Brasil de hoje: a cintura fina, receita básica do FMI; a máscara, o mistério da transmutação de FHC, de sociólogo de esquerda para um sei-lá-o-quê neoliberal. O latibúndio teria a expressão da crise fundiária.
GLOSA Elísio Marques, ainda alumbrado com os derradeiros vestígios de Carnaval em Guaratuba: Nada tomei de segunda-feira ballorda para a terça-feira gorda, em Guaratu Peaks, mas juro ter visto, às 6 da matina, na praia central, Isabel Sarli, Libertad Lamarque e Sarita Montiel de biquini e sem pelancas visíveis a olho nú... Um gato de porcelana, mudo, a tudo assistiu.
SPRAY Dois desembargadores, Sidney Mora e Antonio Gomes da Silva, fizeram requerimento verbal, deferido pelo presidente em exercício, Silva Wolf, ontem no TJ, para que sejam listadas, averiguadas e, se possível e plausível, corrigidas, aposentadorias apontadas como irregulares. - Ocorre que o órgão especial negou por unanimidade um mandado de segurança de assessor jurídico que pretendia a aplicação da isonomia em seu favor, de vantagens obtidas por seus colegas. - Na pauta de ontem havia pedidos de intervenção em Londrina, Paranaguá e outros municípios por causa de questões trabalhistas não pagas pelas prefeituras. Como se vê, o clima de matar cachorro a grito alcança todos os patamares de governo. - Lojistas atrasam alugures nos shoppings, o que não é novidade. Por sinal que a rotatividade aí caminha para assemelhar-se à dos motéis e isso já se dava muito antes da convulsão cambial. Empresário que não paga conta vai para o Serviço de Proteção ao Crédito? E aqueles que não repassam o FGTS, o INSS e outros tributos que tomaram dos seus empregados sofrem aquilo que os romanos chamavam de capitis diminutio? - Negligência notória da Prefeitura de Curitiba no caso das invasões no Tatuquara. Agora procuram um pretexto em cima do advogado dos posseiros (Genésio Natividade) para tirar o corpo da seringa. - Quando invasões se consolidam depois de um ano, como se deu aí, tudo fica bem mais complicado. Alega-se agora que a selvageria da ocupação estava ameaçando a integridade de uma nascente. - Verdadeiras quadrilhas de malandros exploram a ingenuidade dos desesperados que chegam a pagar por essas posses destituídas de fundamento legal. Aí há uma espécie de imitação do capitalismo formal por parte dos marginais. A picaretagem de loteamentos o exemplifica.
FOLCLORE Não havia palmatória nos meus tempos de ginasiano (Gymnasium Paranaense), mas não poucos mestres davam croques e tapas nos alunos como o mestre de Latim, João Mazzarotto, e o de Desenho, Pedro Macedo, que atirava réguas e compassos na direção dos perturbadores. Macedo, mestre de Desenho, pegou um aluno e o guardou como preso no armário onde estavam bustos de Sófocles, Camões, que mais pareciam ex-votos. Um mais corajoso protestou, dizendo que o rapaz estabulado estava com os olhos fora da órbita. O mestre, com seu sotaque lusitano, acalmou: Deixa o gajo morrer em paz. Libertou-lhe o corpo, antes que só restasse a alma.
CROMO Por que condenam o odor do jasmim a lembrar a morte, quando melhor lhe assenta o do cedro, do qual parecem ser feitos os esquifes?
AFORÍSTICO Alguns dirigentes do PMDB diante das bravatas de Itamar Franco parecem cultivá-lo tanto quanto a Lílian Ramos no sambódromo.





