Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Quem é o PHDeus?
Nessa ofensiva de aparecer nacionalmente, Lerner emplacou, além da matéria da IstoÉ (inferior, como já disse, à do Rafael Greca em Veja), comentários favoráveis de veículos nacionais em torno da sua vaga dissertação sobre o ato de governar a partir das pessoas, um saque sem correspondência com a realidade concreta, e da condenação do PHDeus, que parece uma sutil estocada em FHC e é claro no seu colégio cardinalício. Não consta, porém, que Lerner detenha méritos para esse tipo de crítica até porque, em múltiplos aspectos, no que há de mais terrível para a democracia, faz-se como mito.
Vejam até que, descontado o ar majestático do presidente da República, e suas maiores qualificações acadêmicas, inclusive no campo internacional (não dá para comparar o sociólogo Alan Tourraine com o arquiteto que vive a sugerir absurdos sobre as construções de Lerner), o nosso governador é muitas vezes mais um idólatra de sí mesmo do que FHC. E num certo aspecto, suas ações corriqueiras - como a de fazer abstrações sobre um papel branco como insistia em torno dos anéis de integração ou ainda pensar a cidade debruçado sobre uma prancheta ou a tela de um computador - são um arremedo do ato de criação, quase um folguedo deicida, como dizia o poeta Walmor Marcelino quando se referia ao ato das crianças na reprodução do mundo.
Também não pode partir de Lerner uma crítica de porte, consistente, sobre o que há de mais negativo na doutrina de Fernando Henrique, quando examinada na sua perspectiva de resultado, de prática, porque nunca na história do Paraná se viu tanto entusiasmo em torno de uma estratégia de risco econômico e social como a que se funda na abertura ao capital estrangeiro e na pouca importância conferida aos valores nacionais e locais. É ocioso lembrar que vivemos hoje sob o signo cosmopolita das multinacionais, com elas recebendo aqui o que jamais lhes concederiam os países de origem, enquanto desaparecem as empresas regionais. Empresas que foram sustentadas pela poupança interna e também a de caráter público, através de órgãos de fomento como a Codepar e o Badep, foram absorvidas sem resistência pelo capital internacional ou de outros centros brasileiros como o Bamerindus, Refripar, Impressora Paranaense, a Batavo hoje substituídos pelo HSBC, Electrolux, Dixie Toga, Parmalat, isso sem falar nas que sumiram como se voláteis fossem como Hermes Macedo, Móveis Cimo, Nossa Senhora da Penha e que eram absolutas no ranking em que operavam.
Pode-se dizer que fatores exógenos, decorrentes da globalização, tenham determinado o fenecimento das organizações paranaenses. A simples constatação demonstra que não há efetivamente visão estratégica, tão alegada, da parte do governo para as questões, já que faz um papel tão alegre quanto o de FHC em relação às imposições do FMI e que transformam, um e outro, numa espécie de capataz dos interesses e aspirações transnacionais. Ninguém pretende simplificar a rudeza do processo, mas se não pega bem o papel de Don Quixote, também ajusta mal o realismo de Sancho Pança. Quando Lerner fez a metáfora do PHDeus, esqueceu que nela ele se enquadra muito mais do que o presidente, haja vista a lavagem cerebral feita em Curitiba.
BIZARRICE
A Igreja Católica, na Campanha da Fraternidade
deste ano, sugere um banco para o desempregado.
É o que mais há nas praças
AXIOMA Com essa de indicar sutilmente que o presidente FHC é um PHDeus, dá a impressão que o governador PHdeu-se.
GLOSA Aí uma autoridade pública foi apanhada num delito bastante venial: o de proteger a família nesses negócios. Para argumentar que tinha havido equívoco declarou, justificando: Você sabe como é o computador. Dentro em breve, marido traído e mulher adúltera poderão alegar a mesma coisa. Se firmar jurisprudência vira lei, ainda que mais pareça jurisperaltice.
SPRAY Vejamos exemplos de governar a partir das pessoas. Há três negócios grandes no Paraná: a privatização do Banestado, da Copel e da Sanepar, e o governador escala os amigos de sempre para cuidar do caso. Não deixa de ser uma forma de governar a partir das pessoas. - Governar a partir das pessoas deveria implicar em revezamento: não haverá um regra três do Rischbieter e do Schulman, do Saul Raiz, etc? Seria, no mínimo, saudável. Ou somos realmente ruins de quadros? - O Freitas Neto, jornalista veterano, brincou, certa feita, com um juiz que defendia a criação do Tribunal de Alçada: É uma forma de evitar que alguém continue dizendo que tal matéria não é da sua alçada. Como é trocadilho, seria equivalente a dizer que o Tato (o Pretextato Taborda) foi para a Casa Civil para ações diplomáticas e pretextos bem fundados em coisa consumada. - Corrente nos meios imobiliários que houve jogada da pesada em algumas das negociações com áreas para as montadoras. Requião estaria com documentos das escorregadas. - Uma corrente no Tribunal de Contas é favorável a um controle maior sobre prestação de serviços ao governo via agências de propaganda. O presidente do Sindicato de Jornais, Abdo Aref Kudri, acha que as agências levam a parte do leão das verbas oficiais. Não espanta que haja até o interesse de transnacionais nessa área. - Até hoje Kudri não enguliu aquela declaração de que o governo havia gasto mais de R$ 300 milhões antes de acabar o terceiro ano de gestão, pois segundo ele os veículos impressos nada têm a ver com o festival de prodigalidade. - Campo Mourão não trabalha em silêncio. Tanto que agora está revelando que a mortalidade infantil teria caído 55% nos dois últimos anos. Ela era de 27,2 por mil nascidos vivos em 96, caiu para 16,52 em 97 e para 12,18 ano passado. Índice abaixo do coeficiente da OMS (15 por mil). Seria decorrência dos programas Maternidade Segura, Vigilância ao Pré-Natal, Cegonha Feliz e Leite é Vida de Tauillo Tezelli, que gosta, pelo jeito, de teasers à moda lerneriana. Fatos, fetos e feitos.
FOLCLORE Frase do famoso Neném Prancha sobre futebol: Jogue a bola para cima, pois enquanto ela estiver no céu, não tem perigo de gol. Outra sobre a campanha de 70: Jogador brasileiro não vai ter problema no México. A maioria já morou em favela e não pode se queixar da altitude. E outra, essa de aguda poesia: Jogador é o Didi, ele joga bola como quem chupa laranja.
CROMO O bote da naja// sobre a cabeça do príncipe// nem o vento muda// áspera senda a da estrela// sandálias do velho Buda// Wilson Bueno, o que miniaturizou versos, sem minimizá-los, em Pequeno Tratado de Brinquedos.
AFORÍSTICO Já que há um PHDeus, como reclama o Lerner, é preciso criar urgente o PHDiabo para manter a tensão dialética. Em relação a FHC há muitos, mas a maior parte de invejosos da espuma intelectual. Em relação a Lerner há, pelo menos, o Candinho Gomes Chagas, que do diabo só tem a risadinha sinistra.





