Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Os saques inócuos
Entre os clichês demagógicos e pretextando humanidade dos seus autores, certamente o mais desmoralizado é o tudo pelo social do populista Sarney, ao lado de outras safadezas recorrentes como o resgate da dívida social ou ainda a basbaquice da justiça social, que enche a boca dos oradores sem atender o estômago dos esfomeados. Pois agora o nosso governador Jaime Lerner adotou uma variante dessas discutíveis intenções como a de governar a partir das pessoas. Claro que algumas pessoas sempre são atendidas com a maioria, porém, chupando o dedo.
Lerner governou Curitiba três vezes e o Paraná uma. Teve tempo suficiente para mostrar em que medida faz as coisas ou as projeta a partir da pessoa. Nossa Capital está hoje com mais de 140 mil desempregados, a despeito da onda feita em torno dos mega-investimentos industriais. Como o governo responde por grande parte da migração, que aqui busca o que a propaganda sugere, não tem como sugerir que se trata de fato social não desejado. Ainda recentemente os gênios da comunicação emplacaram matéria no Jornal Nacional fazendo paralelo entre a Grande Curitiba e o ABCD paulista, este um vale de lágrimas, aquele um oásis de pleno emprego, o que é pura empulhação.
Toda propaganda tem um apelo fascista: aquele de confundir a árvore com a floresta, mostrando alguns empregados e nenhum desempregado, como se tal quadro pudesse ter caráter genérico. Não é especialidade do governo Lerner, já que todos os que temos tido incidem na mesma e gloriosa safadeza. O empenho em sugerir que a realidade corresponde ao discurso e à propaganda fica visível, por exemplo, nas negativas que o Ipardes coloca para impedir que o convênio com o Dieese nos forneça mensalmente um raio xis do nível de emprego. Como o Dieese não faz a pesquisa, Lerner pode continar sugerindo que efetivamente governa a partir das pessoas. Poder-se-ia acrescentar das que o cercam e das que por ele são beneficiadas.
Curitiba não é uma cidade humana e o Paraná menos ainda. No tempo de Ney Braga, bem mais frutuoso do que o de agora, era um clichê oficial falar em bem comum. Que de tão comum diante da realidade concreta, caiu de uso.
Há alguns projetos e iniciativas que até assistem áreas de exclusão como os programas de moradia ou o da Vila Rural. É audacioso, porém, sugerir que eles sejam amostragem do conjunto do governo, cheio de órgãos esclerosados e secretarias inúteis e de aparatos caros como os da área do esporte e turismo, vide Jogos Mundiais da Natureza, e centros de excelência que beneficiam um mínimo de interessados e farta circulação de recursos.
A propaganda, arma principal de Lerner (mais de R$ 400 milhões jogados fora em quatro anos), mostrou um desvio ao sugerir a mudança do teaser inicial a transformação que a gente vê para a que a gente faz poderia agora deixar claro que se governa aqui a partir de algumas pessoas, não de todas, de preferência as muito próximas. Seria autenticidade extrema.
BIZARRICE
Bastou o deputado Nelson Justus aparecer na tevê animando na praia de Guaratuba o carnaval para que um opositor sugerisse que ele é o deputado trio elétrico, que aparece na praia apenas no reinado de Momo. Um exagero, mas com um fundo de verdade: este governo abandonou Guaratuba e o que prometeu, como a correção do deslizamento da Vila, não cumpriu.
AXIOMA O pretexto das obras na Marechal Deodoro para transferir o desfile das escolas de samba para a João Negrão foi uma farsa: não fizeram um metro de serviços nos feriados e agora é que o estão atacando. Conclusão: Cassio Taniguchi fez o hara-kiri do carnaval e saiu de mansinho, sutil como um ninja.
GLOSA Das entrevistas de Lerner à ISTOÉ, e de Rafael Greca à Veja, esta foi melhor: fantasia por fantasia, a do carnaval e do turismo, é mais aceitável. E com os transbordamentos estéticos de um carro alegórico, como se estivesse desfilando na Marquês de Sapucaí. Como de costume, Lerner, como quase sempre se dá, mais virtual do que virtuoso.
EPIGRAMA Cada vez fica mais evidente que quanto mais longe de nós o governador se encontra, mais feitos acontecem: além da entrevista destaque da ISTOÉ se vira em grandes auditórios internacionais. Como é difícil transferir sua euforia aos paranaenses, continua válida a idéia de nos governar de lá. Haveria chance também de aparecer na mídia do primeiro mundo.
SPRAY A Federação dos Bancários juntou-se à oposição na tese de que está bem superfaturado o valor do saneamento do Banestado.- Caso foi parar na Procuradoria da República, onde tramitam as 25 notícias-crime que envolviam a Leasing e cujo titular, a despeito do prejuízo de R$ 80 milhões, foi promovido a secretário por Lerner que com isso ratificou e avalisou aquelas operações.-
Ninguém, de bom-senso, acha válido boicotar a vinda dos R$ 4,1 bi para sanear o banco estatal, mas nenhuma pessoa honesta admite como legítimo fazer acerto geral com os devedores e fraudadores, como se fossem beneficiados por anistia.- A importância não é pequena: o Brasil se esforça para obter uma parcela do FMI, que é pouco mais de o dobro do que o Banco Central injetará no Banestado.- Consta que a Polícia Federal pegou na marra um empresário, contumaz infrator das leis sociais, e o obrigou a dar depoimento numa acusação de depositário infiel. Uma Medida Provisória recente equipara a retenção de fundos sociais (FGTS, INSS) ao delito que é ao lado da não prestação alimentícia uma das formas admissíveis de prisão civil no Brasil.- Paranistas irritados com o fato de o resumo do livro de Eda Romio sobre culinária Brasil 1.500/2.000 - 500 anos de sabor nada dizer da cozinha paranaense, que poderia comparecer com o barreado.- Por falar nisso, há quem sugira que em lugar de carnaval, que aqui não emplaca, poderíamos fazer algo voltado para todo o tipo de culinária, incluindo as menos conhecidas dos eslavos (poloneses, ucranianos) e dos suábios. Gastronomia, acompanhada de outros eventos, seria uma boa.-
FOLCLORE Para os otimistas, o fato de não ter havido um homicídio em Curitiba é prova de eficiência. Para os pessimistas, é prova de que no carnaval por aqui nada, absolutamente nada, prospera. Nem o crime.
CROMO Pierrô, Colombina e Arlequim expulsos pela Tiazinha, chicote à mão.
AFORÍSTICO O carnaval por aqui é ruim, mas o nível da mediocridade em política é muitas vezes maior. Os reis Momo dessa área dão tristeza e tédio.





