Luiz Geraldo Mazza
No discurso, todos são contra a guerra fiscal interestadual; na prática, todos nela se engajam. O Paraná normalmente leva a pior porque, muito antes da Lei Kandir, tínhamos que aceitar a desoneração nas exportações dos granéis. Quando decidiu industrializar-se na linha de vanguarda e fazendo das montadoras o seu carro-chefe, com o que rompemos a nossa dependência de completaridade de São Paulo, provocou um impacto, ao qual se seguiria a iniciativa igual, não desejada pelo atual governador Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul.
Pois agora a emergência do pacto em São Paulo entre montadoras e as centrais sindicais para que se sustente o nível de emprego por três meses, com a baixa do IPI e ICMS obriga, outra vez, a realização de um encontro no Confaz, de todos os secretários de Fazenda das unidades interessadas. Isso porque Minas Gerais, que está na crista da onda, por causa das atitudes de Itamar Franco, resistiu em fechar o acordo, obrigando, assim, a audiência do fórum mais interessado.
Como os problemas mais gerais da conjuntura do País acabarão aflorando nesse encontro de secretários de Finanças, pode-se encará-lo até como uma espécie de preliminar da nova reunião que Fernando Henrique Cardoso pretende realizar com os governadores, tendo encaminhado até Belo Horizonte uma comitiva de ministros para dissuadir Itamar de comparecer, o que provavelmente será preciso fazer com Olívio Dutra. A missão em BH fracassou.
É até interessante que surjam resistências, diante das inevitáveis retaliações que FHC está sendo obrigado a adotar, para que ele perca aquele ar principesco que normalmente adota, e deixe a verticalidade para aproximar-se do horizonte, do terra-a-terra. O desconforto, reconheça-se, não apenas seu, apesar da irritação que provoca o surto de bravatas e patriotices inócuas feitos pela oposição tentanto revitalizar a velharia do nacionalismo, atinge governos estaduais que assistem o encurtamento dos seus espaços para ações administrativas diante do ônus representado pelos acordos das dívidas.
Ao admitir que pode recuar, desde que haja compromissos para ajuste fiscal, e aí novamente a tese do Lerner dos fundos de pensão, na forma de capitalizá-los, ganha relevância, cria os pré-requisitos para o consenso.
METÁFORA
Tudo está indicando pelo número de buracos que há em Curitiba, que o metrô vai ser atacado simultaneamente a leste, oeste, norte e sul
EPIGRAMA Pelo que se lê no noticiário (exemplo o caso da queda do IPI e do ICMS na indústria automotiva), o governador, mesmo estando nos States, é o grande personagem de tudo o que acontece ou que se imagina que vai acontecer. Se assim é, Lerner bem que poderia ficar por lá o resto do seu mandato, já que a eficiência é a mesma de sempre.
BIZARRICE Quem diria, hein? Como presidente da República, Itamar Franco, no Carnaval, teve aquela cena com a Lílian Ramos, a descalça, e agora, como governador, chama a PM para dramatizar o isolamento de Minas que não quer pagar as contas. Enfim, um espetáculo como se tudo se reduzisse a uma espécie de sambódromo, em que o papel do povo é apenas o de espectador.
AXIOMA Corte Suprema da Itália decidiu que mulher, trajada de jeans, não pode ser estuprada sem a sua ativa colaboração. Jurisprudência machista e primária porque se o estuprador estiver armado e ameaçando, nem que a mulher use cinto da castidade ou elmo metálico está preservada. O jeans funcionaria como um argumento para a ineficácia de meio e impossibilidade de fim. É o que se pode chamar de jurisperaltice.
SPRAY Observadores das áreas de esporte e turismo vão acompanhar o Carnaval nas praias, fazendas e estâncias hidrominerais para analisar os fluxos nessa época do ano. - Pelo que se observou na movimentação, já de sexta para cá, verifica-se que esse festejo só pode limitar-se ao turismo interno e que apenas a possibilidade de descarnavalizar de vez Curitiba abre alguma perspectiva com a programação alternativa, cultural. - Campo Mourão, por exemplo, não comemorava há dez anos o Carnaval (nas proximidades há a estância termal de Jurema, esta sim capaz de atrair até correntes externas) e botou seis blocos na rua, bem como testou o baile popular. - Antonina abafou já nos preparativos, mas é uma festa também de consumo interno para a qual a mobilização da comunidade é chave; Paranaguá deu melhorada em relação aos anos anteriores; nas praias, Guaratuba e Caiobá movimentaram massas, mas o evento é um tanto quanto postiço. - Esmagadora maioria se entregou ao sedentarismo de ver a festa carioca, outro simulacro, ainda que gigante, pela televisão. - Até agora o que emplacou para valer foi o Natal de Curitiba, merecedor de figurar num calendário nacional e com potencial para atrair turistas de fora, razão pela qual o estudo em torno das manifestações religiosas da Semana Santa deve ser feito para ver em que patamar se situam: há ritos como o dos ucranianos com as suas pêçankas e sua arte dos bordados, encenação da Paixão na Pedreira Paulo Leminski, enfim alguns fatores que, agregados a outros, poderiam operar como atração. - A propósito, no dia 9 de abril, no Rotary da Água Verde, vai ser apresentada uma Noite Ucraniana com coreografia e cantos. - Revista Caras flagrou o Luis Alfredo Malucelli nas artes culinárias. Seu livro de receitas e passagens curiosas, anedóticas quase sempre, vai ser lançado na noite de 9 de março no Clube Curitibano, com autógrafos das 18 às 22 horas.
FOLCLORE Muita gente estranhou em eleições anteriores que alguns candidatos chegassem ao exagero de ir ao Paraguai para seduzir os brasiguaios que votavam no Brasil. Na reconstitucionalização do País, finda a Segunda Guerra, o José Daru, candidato a deputado estadual, fez campanha em Rio Negro e atravessou a ponte e foi até Mafra (SC). Muita gente tirou sarro, mas o passeio de eleitores de um lado a outro da fronteiora é comum, ainda mais em cidades geminadas como se dá neste caso e entre União da Vitória e Porto União.
CROMO E, quanto o trem passa por esses ranchinhos à beira da estrada, a gente pensa que ali que mora a felicidade... Mais Mário Quintana.
AFORÍSTICO Se houvesse uma ruptura para valer entre Quiélse e Aníbal Khury, por mais constrangimentos que isso produzisse, seria pedagógico para todos.





