Comemorar é preciso
Não deixe para amanhã a comemoração que pode ser feita hoje: a regra vale para a torcida do Atlético, que festeja até quando perde, como aconteceu domingo na derrota para o Criciúma, e também, claramente, para os políticos, como se dá com o pessoal ligado ao senador Requião, surfando como vítima, em cima de uma decisão unânime do Judiciário. Se uma derrota pode dar satisfação, algo como o sujeito na hora de transar sofrer uma recaída, imagine-se algo que gere vítima, que dê idéia de martírio para os nossos padrões sentimentais e melodramáticos.
A cassação de Requião alavancou o interior de um partido que estava em estado cataléptico (morte aparente), não só porque já não dispõe de um discurso alternativo, como tinha à época do autoritarismo, como também porque ficou flácido no desfrute do poder e por isso mesmo (e tal se deu até com o brioso PT, ainda que em menor escala) sem militância.
Ocorre que pichador de paredes e carregador de líder às costas, distribuidor de volantes e biscateiro, enfim, de ações eleitorais quando sai dessa condição para a de burocrata, ainda que na mais humilde função das hierarquias, não mais se submete à humilhação daquele ‘trabalho’ menos nobre. Por isso que o PFL é o mais apto para o poder e que tem a menor relação entre seus quadros e a militância, esta quase zerada.
NA DERROTA - Comemorar, pois, é preciso e com a mesma vibração do atleticano, já que uma derrota como a que houve contra o Criciúma teve um sabor de vingança pela desclassificação do Fluminense, algoz do Roberto Pinto. Por sinal, no STJD ele é enquadrado, imaginem, como o causador de tudo nas Laranjeiras. Haja laranja e laranjice. O caso do Requião perto desse é refresco.
Vou lembrar de um fato para os que se perdem na comemoração: em 1961, o general Iberê de Mattos, figura popularíssima, organizou milícias em Curitiba para assegurar a posse de Jango depois da renúncia de Jânio. O frisson era bem maior e o assunto bem mais importante, pois todos se acreditavam no olho do furacão de uma guerra civil, do que o que move a atual defesa do senador.
Isso se deu nas calendas cabalísticas de agosto e pouco mais de um ano depois houve eleições e o prefeito curitibano, que animava carnaval tanto aquele de samba e marchinhas como o cívico da resistência, foi candidato a deputado estadual e acabou na oitava suplência do PTB. Não levou os votos nem dos voluntários da marcha a São Paulo e que não houve.
NON SENSE - Comemorar vitória ou derrota nada tem de atípico no mundo em que vivemos, em que a fantasia sobrepuja a realidade. Anteontem, no ônibus que me levava ao centro da cidade, uma senhora humilde, usando sapato de plástico e que fez a filha passar por baixo da catraca do ônibus para não pagar passagem, embora tivesse mais de cinco anos, de repente é chamada pelo telefone celular, o novo ícone do consumo. O ser humano não é racional: a fantasia o alimenta mais do que a realidade.
Para um pobre um celular pode ser algo mais do que a varinha de condão da fada madrinha, o tapete voador do Aladim, a espada do He-Man, o martelo do Thor. Um cetro como o do rei, signo de poder. Por isso que o pobre é resignado: o sonho e a magia o nutrem. Seja o favelado do Rio, o lúmpen de uma invasão de terras ou mesmo esses miseráveis hutus do Zaire em marcha sonâmbula para lugar nenhum.
E ainda há basbaques que têm respostas para tudo e imaginam o Zaire ou o Burundi, a Etiópia e a Somália sob o socialismo ou a tão badalada economia de mercado. São delirantes também, perniciosos pela ideologia, pois a colocam acima da vida.
BIZARRICE - Requião, habilíssimo em epigramas, recusa-se a debater com Hélio Duque, isso desde a campanha senatorial. Agora ao dizer que ele errou ao indicar Hauly em Londrina e que o seu povo é que acertou escolhendo Belinati, deu margem a que Hélio Duque sugerisse que o povo se enganou ao escolher Requião por não ter acesso às provas que o TRE examinou.
SPRAY - O teleférico de Matinhos que matou e feriu gente voltou ontem ao noticiário: no serviço de manutenção um menino foi vitimado. Pergunta-se: o Crea examina esse tipo de aparato? E as prefeituras? - Por falar nisso o TJ, ao negar liminar ao Estado para manter embargo em obras irregulares no litoral, sem entrar no mérito, preocupou o grupo de ambientalistas que enxerga, e com razão, as nossas praias sob ameaça do juízo final escatológico na cloaca. - Festa do Odone Fortes, do ‘‘Indústria & Comércio’’, foi monumental, com Jô Soares de sobremesa. Estão falando que a do Rafael Greca, na sua chácara, vai ser também de arromba, provavelmente com a nata dos artistas do Rio presente. - Greve portuária é o suspiro final da resistência à desregulamentação que virá mais cedo ou mais tarde de qualquer jeito. Havia, ontem, em meio à parede, oito navios ao largo em Paranaguá.
FOLCLORE - Oded Grajew, líder empresarial do PT, almoçou ontem com Tânia Galvão, também empresária do PC histórico. Tânia deve ir para o PT e dirigir a Cizes, entidade que Grajew coordena no Brasil. O novo manifesto da esquerda seria esse: ‘‘Empresários, uni-vos que os trabalhadores cansaram de esperar...’’ À esquerda, ontem, mais festa: o histórico João Amazonas, 84 anos, estava na praça para falar da Constituição de 46 nos seus cinquenta anos. Para combater a modernidade egoísta do neoliberalismo, dois casos de resistência. O apocalipse vem aí e anunciado na musiquinha do Sílvio Santos.

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