Luiz Geraldo Mazza
A mania autárquica
Um dos defeitos congênitos da terra em matéria de comunicação social é o de falar para dentro. Enganamo-nos com as imagens oficiais, triunfalistas e fantasiosas. Curitiba ganha do Paraná, como unidade federativa, na conquista do espaço externo. É visível que os feitos de Lerner, embora inferiores aos de Ney Braga, por exemplo, ganharam escala nacional: o exagero repetido, ao explorar alguns feitos positivos, muitos deles pertencentes ou à natureza ou à tradição, passaram a figurar como partes da obra do arquiteto.
As tentativas de ganhar espaço nacional, com apoio logístico em aparatos de forte prodigalidade como os escritórios do Rio e Brasília, empenhados na arte do tráfico de influência, em alguns casos até obtiveram bons resultados como aqueles que exploraram a circunstância de os nossos governadores aparecerem situados em primeiro ou em segundo lugar no ‘‘ranking’’. Essas sondagens são regionais, daí porque a lavagem cerebral deve obrigatoriamente ser feita no Paraná. Daí o fato de equipes de tevê acompanharem governadores em Brasília, em registros que obviamente não saíam na cobertura nacional e sim na regional, para a qual eram destinados.
Quando se tenta superar os limites territoriais para a promoção dos nossos líderes, quase sempre se comete equívocos como quando se coloca, no ato de inauguração da Audi-Volkswagen, aquela analogia ridícula, artificiosa, entre o ABCD e a Grande Curitiba, uma dada como nicho do desemprego e outra como a do pleno emprego, é de um transbordamento tipicamente publicitário, além de ter o efeito negativo de deflagrar mais fluxo migratório devido o informe fajuto.
Que o Paraná precisa falar simultaneamente com seu público interno e com o resto do País, para destacar as nossas virtualidades, nem se discute. Pede-se, no entanto, um mínimo de critério e de ajuste documental.
Ninguém viu, por exemplo, em jornal local o registro da ‘‘Folha de S.Paulo’’ sobre o desempenho industrial do Brasil em 1998, conforme a Confederação Nacional da Indústria, mostrando que o Paraná teve a segunda maior queda de todo o País (8,64%) logo atrás do Amazonas com 11,34%. Ocorre que as mentes e corações estão condicionados para decantar nossos feitos, mês a mês, e para justificar o segundo pólo automotivo do Brasil, que a ‘‘Gazeta Mercantil’’ apontou como o quarto em cima do ato inaugural já referido, quem sabe ainda um rescaldo daquela batalha com São Paulo na guerra fiscal.
Na batalha da informação, ainda mais quando nos confrontamos com áreas melhor equipadas (São Paulo, Rio, Minas, Bahia e Rio Grande do Sul), nos mostramos sem grande capacidade de convencimento. É que não sabemos criar e sustentar os fatos e a nossa expressão política é quase nula. Vide a posição ridícula do Paraná no orçamento e o mau aproveitamento que Lerner faz das duas melhores idéias propostas na reunião dos governadores: o Fundo de Previdência e o fórum dos governadores como instância obrigatória. Lerner lançou as idéias e foi passear nos States, que é o que ele realmente gosta. Agora a comunicação vai ter que inventar a ‘‘utilidade’’ operacional da viagem sem sentido.


AFORÍSTICO
Os que citam Getúlio Vargas como referência de estadista lembram os maragatos da Revolução Federalista que pareciam com nostalgia do monarca



BIZARRICE O corte dos descontos vai matar a APP-Sindicato: de quase R$ 300 mil por mês, está arrecadando apenas R$ 70 mil. A essa altura, em termos políticos, deve haver quem ache que as bombas de gás de Álvaro Dias perto disso são até uma espécie de maná bíblico. Em que andar do Palácio está o Marquês de Sade, aquele que bota cantárida nos canapés das senhoritas para vê-las subir nas paredes, e que pisa no tubo de oxigênio do sindicato do magistério?
AXIOMA O bonde era parte do ‘‘decor’’ do Carnaval. Tanto que havia a marchinha que dizia assim ‘‘Seu condutor dim-dim// seu condutor dim-dim// pare o bonde pra descer o meu amor’’. Lembro, tempo de criança, que especialmente nesses dias, os bolinadores ficavam mais excitados na tarefa de passar a mão nas mulheres e encoxá-las. Era comum uma senhora, empertigada, sombrinha à mão, como se fosse uma arma, denunciando o tarado aos gritos de ‘‘Bolina, bolina!’’. Uma dessas cenas hibernou em minha memória na subida difícil da Avenida João Gualberto, quando diminuia a velocidade do bonde com o bolinador, apavorado, jogando-se da máquina em movimento, assediado pelas mulheres iradas.
GLOSA O Carnaval em Curitiba ganhou a pá de cal do governo com a transferência do desfile das escolas de samba da Marechal para a João Negrão. Únicos sinais de autêntica irreverência eram o Baile dos Enxutos do Operário e a Festa das Bem Boladas. O primeiro acabou, o segundo agoniza. A burguesia hipócrita ia nos lugares proibidos de máscara para não ser identificada. Num dos bailes do Operário, um travesti, vaiado pela massa, irritou-se e mostrou o argumento masculino, o que levou muitas senhoras a acharem que os respectivos maridos, todos mascarados, eram anormais diante do tamanho do material exposto que o enraivecido rodava, balançando o corpo como se fosse uma hélice.
SPRAY Os fracassos industriais do governo permanecem desconhecidos do povo como o fim dos galpões industriais em Palmeira, que representaram nada menos de 300 desempregados. Na hora de assinar contratos, houve o oba-oba, como sempre acontece. - A peonada está em festa: a regulamentação dos rodeios como atividade profissional está para sair e isso é saudado porque há picaretagem demais na área. Rafael Greca está empenhadíssimo em fazer disso um proveito para a expansão desse lazer em escala nacional. O Paraná é acanhado também aí, já que não tem nenhuma das suas feiras ou festas do gênero com apelo nacional que não se restrinja ao interesse de expositores. Vamos tocar o berrante. - A polícia tirou os ‘‘punks’’ da Boca Maldita que andavam ultimamente entregues a atos de violência. Diz-se que ‘‘punk’’ de Curitiba usa desodorante, chega cedo em casa e é tão comportado que lembra escoteiro. - Secretaria de Esporte e Turismo vai acompanhar os festejos da Páscoa para ver se dá para emplacar, em termos turísticos, algo como aconteceu com o Natal de Curitiba.
FOLCLORE Consta que um figurão do Paraná, afeiçoado em criação de cachorros, especialmente São Bernardo, ouviu o grito de sua mulher numa dependência da casa e ao vê-la sangrando no rosto ao lado do animal perguntou, altos brados, o que ela havia feito ao seu bichinho de estimação.
CROMO ‘‘Rosa suntuosa e simples/como podes estar tão vestida/ e ao mesmo tempo inteiramente nua?’’. Mario Quintana em hai-kai.

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