Luiz Geraldo Mazza
Há quem diga que o presidente FHC tenha pendores monárquicos. E de fato ele os exibe numa certa medida de autosuficiência e narcisismo intelectual. Mas o Brasil se submete a esses valores por uma questão cultural: o patriarcalismo, algo que ainda está presente nas nossas instituições, a despeito das enormes mudanças havidas no salto de uma sociedade rural para a produtora de bens de consumo e desta para a de bens de capital. Esse lay-out se reproduz na vida das empresas, com vícios que não são exclusividade da área pública tal qual se vê nas práticas do nepotismo e de variadas formas de arreglo.
Volta e meia as entidades representativas do comércio, da indústria e da agricultura baixam manifestos. Esta última, por exemplo, para reclamar das invasões de terras e exigir o cumprimento da ordem legal, embora seja claro e notório que o setor é um dos maiores beneficiários em dívidas com bancos oficiais, dos nacionais aos estaduais. Na quebra do Badep e na convulsão do Banestado, dá para perceber o quanto representam os débitos do setor, como se viu no caso específico do banco estadual de Alagoas na questão dos usineiros.
Dá a impressão que nunca é a incompetência gerencial que provoca a quebra das organizações e sim sempre a hipertrofia do Leviatã, pois afinal o modismo da pregação neoliberal é a idiotice do Estado mínimo, o que aliás inexiste na França, na Alemanha e nos States. Se o empresariado sonega tributos, pratica apropriação indébita ao não repassar aos cofres públicos aquilo que tira dos seus trabalhadores, como se dá com muitos que se assanham com manifestos como o de ontem da Associação Comercial, nas verbas previdenciárias (INSS e FGTS), isso sem falar nos demais tributos (afinal, beneficiários do Clube dos 60 do ICMS eram em grande parte da elite empresarial de Curitiba), parece não estar assim com muita moral para falar em nome da cidadania indignada.
Se o presidente não tem o direito de parecer majestade imperial, porque isso se opõe à democracia e ao sistema liberal, também os empresários, que sempre se calaram nas negociações do Brasil com o FMI, como se apenas os deveres de casa fossem os da área pública, e que não cumprem obrigações básicas, estão longe de expressar a poliarquia, a existência de vários centros de poder, via corporações e sindicatos. O atendimento à aspiração de um setor industrial, caso da indústria automotiva, ainda que provisório, é apenas a confirmação da existência de cidadãos de primeira e segunda classe, tanto entre patrões como empregados, como essa aristocracia dos metalúrgicos.
BIZARRICE
Em Guaratuba corre a notícia de que o deputado da região não passa de um trio elétrico, sazonal, que só aparece no carnaval eleitoral ou nesse outro que começa neste sábado, com a sua tediosa banda
AXIOMA Segundo Rubinho Ferreira, o ministro Rafael Greca teria colocado em seu gabinete ministerial as fotos de Lerner e Dona Fani e o Cássio Taniguchi, para não ficar defasado; e teria feito o mesmo com o casal e mais as duas filhas.
GLOSA O jornalista Abdo Aref Kudri, presidente do sindicato patronal dos jornais e revistas, pretende discutir, ainda este mês, a questão dos gastos de propaganda do governo (fez uma interpelação em nota pública até hoje não respondida sobre os R$ 340 milhões investidos em três anos) e pretende reduzir o poder de mediação das agências e seus custos. Elas se transformaram numa fonte pagadora de gastos extras da área promocional a empresas e pessoas físicas. Com isso se evita a saturação dos corredores de secretarias, como a de Esporte e Turismo, pelas clientelas da área. Descentralizar o capilé, como diz o Hélio Teixeira, desafoga as pressões no Palácio e na Fazenda.
SPRAY Deu a impressão penosa, uma vez mais, de que o governo paranaense entrou tarde na discussão sobre a queda no IPI e ICMS para automóveis. O turista, lá de Nova York, acabou entrando na batalha. Qualquer pessoa com um mínimo de informação, depois do acordo na Ford, deveria estar atenta. A turma do oba-oba daqui não tem jeito: para eles a lua-de-mel com o poder, anestesiante, é o que interessa. - Giovani Gionédis, da Fazenda, desmentiu que haja atraso no pagamento de alugueres de prédios devidos pelo governo. Requião disse que era de dez meses, mas pelo jeito só o de janeiro é que voltou a atrasar. Já não pode, obviamente, dizer o mesmo dos fornecedores, empreiteiros e prestadores de serviço. Outra coisa: alguns são mais iguais do que os outros na fila de espera e recebem. - Como parte dos 50 anos da revista Panorama, o diretor Newton Dalabona recebe hoje convidados em sua casa na Praia Riviera. - Por falar em comemorações, a dos 80 anos da Gazeta do Povo ainda não fixou a importância da contribuição de vários períodos (um dos mais longos, o de Plácido e Silva), o de Acir Guimarães e ainda de figuras como Alfredo Pinheiro Júnior, Mugiatti Sobrinho, Reinaldo Dacheux Pereira e de artistas da Redação, como Dicesar Plaisant, e estivadores da notícia como Nacim Bacila Neto, aliás o coordenador de campanhas como a da batalha dos royalties, dentre outras, tocadas na gestão Cunha Pereira. - O caos se aproxima: a cada mês entram de 3.800 a 4 mil carros novos em Curitiba e, mesmo com a recessão, isso tende a ampliar-se. - A Diretran detectou 25 pontos negros na circulação. Motorização das mais elevadas do País (frota de 650 mil carros e uma relação de um veículo para cada 2 pessoas e meia) e mania do uso pessoal (uma pessoa e meia por automóvel, o que satura o sistema) dificultam qualquer medida de racionalização. Se não der revesamento de placa, entramos na pior, já adotada em muitos países: a tarifação do motorista que entra na malha central sem acompanhantes. - Governo pisou no tubo de gás da APP-Sindicato: é fácil mostrar-se forte diante dos mais fracos, embora estes, pela arrogância, se acreditassem imbatíveis. Arrecadação da APP caiu de quase R$ 300 mil para R$ 70 mil por causa do corte dos descontos. O sadismo do governo tem um lado educativo: os sindicatos precisam aprender a viver fora de tutela. - Outras categorias já passaram o problema, com autorização dos associados, para o desconto no Banestado. Procuradores decidiram isso semana passada.
FOLCLORE Quando pesos-pesados como Aníbal Khury e Quielse Chrisóstomo brigam, quem padece é o carpê e mais ainda a falta de imaginação: como o Tribunal de Contas pressiona prefeitos (o que não faz com o governo, cuja contas aprova sempre por mais irregularidades que contenham), a Assembléia repica na ameaça de criar um órgão de controle municipal. Todos se merecem cordialmente.
CROMO Crise de identidade: o paranaense diante do espelho sem imagem.
AFORÍSTICO Rogério, ponta direita da Seleção Brasileira, é agora pregador da Igreja Messiânica e está em Curitiba fazendo proselitismo.





