Luiz Geraldo Mazza
Como os governos exageram por hábito, quando confundem intenções com fatos, é aceitável que a oposição também o faça em seu favor. Nos erros, o governo os diminui (caso dos gastos com propaganda, mais de R$ 400 milhões em quatro anos) e nos feitos, aumenta como o de atribuir-se à questão da dívida mobiliária baixa como mérito seu quando se deve isso, em maior parte, aos antecessores.
Anteontem foi dia de a oposição deitar e rolar, ela que anda meio morta, através dos exageros candentes do senador Roberto Requião. Jornais e rádios deram destaque razoável à entrevista que, a rigor, lembrava o clima eleitoral, mal aproveitado à época adequada, quando o candidato oposicionista estava meio soft para o gosto da patuléia. Entre as coisas que ele disse, uma, em particular, chamou a atenção: os alugueres de prédios para o governo estariam com um atraso de dez meses. Ontem pela manhã, o secretário-chefe da Casa Civil, Tato Taborda, desmentiu isso, com base em informação que lhe havia sido prestada pelo secretário da Fazenda, Giovani Gionédis.
Gionédis é acusado, ainda, pelo senador, de falsear dados e não contar a realidade sobre a execução orçamentária e que revelaria, conforme o tom apocalíptico do peemedebista, um percentual superior a 70% em despesas com pessoal. Como Giovani Gionédis estava sendo alvo de denúncias na própria intimidade do governo, a invectiva de Roberto Requião acabou fortalecendo-o.
O barulho provocado fortalece o PMDB, que anda em estado de catalepsia, se agarrando em Aníbal Khury para segurar um posto, de segundo vice, na mesa executiva da Assembléia, chegando ao ponto de ameaçar levar a dramatização ao presidente da Câmara Federal, que é aliado de FHC, ao contrário do diretório do partido no Paraná, que simplesmente projeta o que Requião quer e manda fazer. Um embalo desses não deixa de revitalizar um partido que perdeu expressão regional, posto que drene para seu maior cabo eleitoral a máxima energia.
Muita bravata, como essa de pedir a renúncia de FHC, mas de qualquer forma um sinal de existência para mexer com esse governo perplexo e às tontas e que corre o risco de não receber os R$ 4,5 bilhões para o saneamento do Banestado, por falta de representatividade e expressão política. Sugere-se até que a conquista do Ministério do Turismo seria uma forma oblíqua de homenagear um dos gostos mais expressivos de Lerner - o de viajar.
EPIGRAMA
Pois é: já dizia o Galileu na Galiléia: e haverá Soros e ranger de dentes... Estamos FMIdidos e mal pagos. Essa é de Jorge Carlos Sade.
BIZARRICE O Nelson Cabeleira (Matulevicius) apareceu numa vernissage e o confundiram com Ernesto Carvalhal. Nelson é escultor e pintor meio bissexto: só se mexe quando deseja. Quando dizem que fez a cabeça de Tancredo Neves (busto da Praça Osório), costuma fazer a correção esclarecendo que se trata de uma estátua que produziu. Quando botou banca de marinheiro em Antonina já o confundiram com o Ernest Hemingway, só porque tinha jeito do Santiago de O Velho e o Mar. A melhor dele foi numa pensão em que morava com outros artistas da praça que pintaram de preto a janela do quarto. Nelson acordava, achava que era noite e, assim desse jeito, dormiu por três dias.
AXIOMA Em Antonina há, como todos sabem, a Ponta da Pita. É que lá existe um exemplar desse vegetal, também chamado piteira. O pessoal litorâneo costuma dizer que em Antonina abunda a pita, o que é um exagero porque não há tanta pita (ou piteira) assim, embora haja outras abundâncias no Carnaval.
GLOSA Se houver uma pesquisa, junto a pessoas desligadas das bajulações e do mundo oficial, para apurar quem é o maior cabotino da terra, vai sobrar gente para esse ranking.
SPRAY Divergências entre Rafael Greca e Cássio Taniguchi ganham o plenário da Câmara: o vereador Mauro Moraes conta que o atual prefeito herdou uma dívida de R$ 134 milhões e que não contratou nenhum funcionário em dois anos, quando a média de emprego anual era de 1.600 na gestão anterior. - Desdobramento de um velho cisma interno, já que o candidato de Lerner era Cássio e não Rafael, e este acabou ganhando a parada no interior do PTB, nas costas da dupla Tomass e Feltrin, aquela mesma que derrubou Geara no PMDB para impor Requião em 85. - Rafael Greca apoiou Aníbal no envolvimento para apoiar Edde Abib contra João Cláudio Derosso na eleição camarista de Curitiba e quebrou a cara. - Divergências no grupo lernerista não se limitam a isso aí: os choques entre a presidência do Banco do Estado e o secretário da Fazenda no caso da Gralha Azul vieram à tona. - Gente do governo está alimentando ações e movimentos contra Gionédis: um dos documentos é de 95, quando ele ocupava a Secretaria do Governo, e refere-se a uma medida cautelar do Consórcio Prosdócimo contra a administração estadual e a cargo do escritório do auxiliar de Lerner. Um outro, de 97, trata de interesse de pensionistas do IPE. - Como sugere aquele filósofo acaciano: quem tem aliados como Jaime Lerner, pode dispensar a oposição. Aliás, essa perdeu os dois mais combativos integrantes: Luis Cláudio Romanelli e o Doutor Rosinha. - Taxistas andam apavorados com assaltos, especialmente os mini-sequestros. O pior é que isso deixou de ser especialidade do crime organizado para empolgar, diante das facilidades, os pés-de-chinelo. Mini-sequestro normalmente é contra possuidor de carro importado: nas operações levam o veículo, dinheiro, jóias, cheques e cartões bancários. - Irregularidades nas contas do Tecpar e Citpar, só agora examinadas pelo Tribunal de Contas, datam de quatro anos atrás. Com um sistema desses, tão demorado, não há controle que funcione pelo fato de a tolerância favorecer a cultura da desobediência a regramentos elementares. - Ney Leprevost, do Esporte e Turismo, espera explorar, no ano que vem, o período de Carnaval para fazer inúmeros e diversificados eventos de arte, cultura e esporte com o propósito de atrair gente de todo o Brasil. Se o Estado substituir a iniciativa privada como está acontecendo com o time da Hortência (R$ 150 mil ao mês), não haverá o mínimo recurso para esse fim.
FOLCLORE Cândido Gomes Chagas diz que a ida de Lerner a Nova York é boa para exercícios virtuais: ele poderia andar de ligeirinho, que sugeriu afinal ter exportado aos States. Viagem virtual, é claro.
CROMO Até os anos 60 marcava-se o bingo com grãos de café; hoje é com milho e soja. Os ciclos da economia modelam o lúdico.
AFORÍSTICO Associação Comercial faz documento hoje sobre a crise. Agora?





