Uma das características da sociedade do espetáculo é o traço volátil dos acontecimentos: o bonzo vietnamita se encharca de gasolina e vira uma tocha humana em meio à multidão em Seul, segue-se o horror nas manchetes dos jornais e depois novos bonzos repetem o ritual com o que a notícia se desloca da primeira para as páginas internas até desaparecer por efeito da entropia. É a banalização do horror como nós temos a da violência e da corrupção.
O tema do dia é a CPI dos títulos estaduais e a impressão dominante é que foi descoberto o fio da meada da corrupção quando simplesmente as pessoas tomam conhecimento dos bastidores da picaretagem financeira, essencial ao sistema capitalista e dele inseparável e da noção de que de cada dez negócios públicos pelo menos oito têm chuncho. Isso passa, lamentavelmente, como de repente volta o Fernando Collor a aparecer por aqui inteiramente reabilitado.
As fraudes são tantas de lado a lado que pela frequência se dissipam: quem se lembra do superfaturamento dos helicópteros, das diárias frias processadas numa instância de terror do Palácio Iguaçu, do uso da tevê oficial para jogar o público manipulado contra vereadores que visitavam o sindicato dos ônibus? Pois bem: essas coisas tramitam lentamente na justiça e isso não vem a público nesse tom de veemência do andamento de uma CPI, como tal não se dá com o conteúdo das peças acusatórias que levaram o TRE a cassar o senador Requião.
Aos poucos, no entanto, há decisões. E recentemente a justiça deu ganho de causa a seis vereadores, inconformados com o uso de suas imagens pela TV Educativa, autorizadas pelo governo estadual, obrigando aquela repartição a pagar 1.200 salários mínimos e mais os honorários advocatícios. Ao governo atual não haverá outra alternativa senão a de, em ação regressiva, obrigar o então governador Roberto Requião aquele pagamento.
Na sociedade do espetáculo vive-se o momento e agora a vez é de Requião e dos demais componentes da CPI. Qualquer restrição que se faça aos mais veementes como Espiridião Amin, Kleinubing e Requião, por fatos passados, parecerá, por um raciocínio conspiratório, que se trata de tentativa de brecar as apurações. Cai-se facilmente nesse maniqueísmo e os protagonistas contam com isso e, é claro, com o torpor que se segue ao frisson das denúncias.
Ibsen Pinheiro parecia um magistrado romano, daqueles inspirados em Ulpiano, quando operava na CPI de PC Farias e, logo em seguida, era o réu na CPI dos anões do orçamento. Bisol, o senador do PT, era igualmente um Cícero a acuar Catilina quando se descobriu que fazia empréstimos privilegiados. A justiça não pode se dar ao desfrute de expor-se ao ‘spotlight’, embora isso tenha ocorrido de certa forma quando abriu a sessão do STF para a TV no andamento da queda de Collor. Assim, pois, no julgamento do recurso de Requião por sua cassação pelo TRE na instância superior, sem o conhecimento massivo do que está no processo, o Judiciário correria o risco da impopularidade se ratificasse aquela decisão em cima do calor da CPI. Esse o lado tenebroso da sociedade do espetáculo, caminho curto para a tirania.
Uma sociedade mal informada e tangida pelo imediato faz da amnésia a justificativa do seu alinhamento aético.
BIZARRICE - Lançaram ontem a vice-governadora Emília para o Senado. Nada mais legítimo. O MST poderia fazê-lo também e certamente obteria sucesso com a Patrícia Pilar, a Luana da novela, via PT, é claro, que já conta com a Marina e a Benedita.
SPRAY - A justiça militar vai retomar o processo da morte dos três PMs e do líder ‘‘Teixeirinha’’ em Campo Bonito. A propósito por causa do tema o senador Requião está processando Joni Varisco por ter este afirmado que o ex-governador deu ordem para a execução do líder sem-terra. Há quatro processos que foram concentrados num só e Varisco pleiteou a exceção da verdade por ter, segundo ele, provas do que afirmou. - Há quase um bilhão em precatórios a pagar no governo estadual e um deles se elevou porque a administração passada se recusou a computar a correção monetária, o que implica em 447 milhões. - O Adur da Divalpar é o do Atlético e não o deputado. Operou com R$ 23,8 milhões de títulos estaduais e o fez, como os demais, na hora da alta. - Consta por aí que um dos fundadores do Banco Vetor, célebre no caso dos precatórios, foi o irmão do ex-governador Leon Perez chamado Murilo. - Um clima de pânico em Colombo e Almirante Tamandaré por causa da exploração do ‘karst’ pela Sanepar. Ocorre que são comuns os desabamentos tectônicos, os afundamentos de solo e ainda por cima rachaduras em paredes. Povo da região clama por providências sérias e técnicas. Ecologistas negam base científica tanto aí como no canal extravasor do Iguaçu. - Falta de previdência: Prefeitura demorou para embargar construção de prédio na praça das Nações e que impedia a visão do mirante e agora vai ter que pagar a demolição. - PMDB faz reunião no Instituto Pedroso Horta dia 14 e para mostrar que os argumentos que pesaram em favor da sediação das montadoras se deve à sequência de governos como os de Richa, Álvaro e Requião. Isso não deixa de ser verdadeiro e também com relação aos antecessores e maior ênfase a Ney Braga, Paulo Pimentel, Parigot de Souza, Canet Júnior.
FOLCLORE - Rafael Greca queria receber o pessoal do BIRD na sua fundação ‘‘Farol do Saber’’ e foi advertido por Lerner de que deveria fazê-lo em local público, no caso a Secretaria de Planejamento. A fronteira do público e do privado é um tema permanente. A Fundação, particular, se apropriou de marca pública.

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