Luiz Geraldo Mazza
Antes de viajar, seu anseio maior, como se vê desde o primeiro mandato, Lerner referiu-se de uma forma superficial, primária até, sobre o que desejam os governadores de oposição, atribuindo-lhes a intenção apenas do blablablá, um eufemismo do nhenhenhém do presidente, cada vez mais imperial, FHC. Com a sua ligeireza, não soube captar a parcela de fundamento que há nessa forma de resistência, hoje menos emocional do que no estrilo de Itamar Franco, na medida em que permite uma ampla apreciação sobre os fundamentos da coesão federativa, ameaçados não apenas pelas ousadias do FMI como por esse impulso de centralização que não é apanágio deste governo, mas que vem de longe.
Além de tudo, perde a oportunidade de insistir na questão do Fundo de Previdência que pode se constituir na compensação possível que a União venha a desenvolver junto às unidades federativas para importante contribuição ao ajuste fiscal e melhora sensível na gestão dos orçamentos. O FMI está por dentro de todo o aparato brasileiro e sabe que não apenas a União, mas os estados e municípios, por seus vícios e cacoetes, configuram outra malha para os déficits cumulativos.
O governador escolheu pessimamente a hora de viajar: afunilam-se claramente as perspectivas de um acerto entre os governos central e os estaduais. Apesar da resistância imperial do presidente à reunião de hoje em Brasília a sua não-realização apenas aquecerá o dado político num momento em que a credibilidade do governo federal vai gloriosamente para o saco. Não é líder alguém que adota a retirada em momentos decisivos, mesmo que conserve uma visão cética de tudo que ocorre no Brasil como a mesmice, enfocada no discurso-lamento de Roberto Campos ao deixar o parlamento.
Deixa o governo e alguns pepinos para dona Emília como a crise dos estados, a montagem do Fundão (até agora apenas uma promessa sem capital), a deterioração municipal (ontem teve que examinar o corte pelas prefeituras do transporte escolar), a nomeação do terceiro escalão, as explicações diplomáticas para os credores em geral (fornecedores, empreiteiros, prestadores de serviços, alugueres), o andamento da novela que pode acabar no saneamento ou na aberta intervenção do Banco Central no caso Banestado, a bronca dos sindicatos por causa do corte das consignações em folha de pagamento. A impressão que se tem é que Lerner acredita na autometabolização desses problemas como se eles emergissem e na continuidade se dissipassem espontaneamente. Mecanismo bem parecido ao do jogador viciado que espera acertar na fezinha do bicho ou num dos múltiplos produtos lotéricos e por isso dorme feliz.
Entre o nhenhenhém e o blablablá nada como viajar, o que é um escolha bem apropriada a pessoas de bom gosto e que têm pouco a fazer.
BIZARRICE O ceguinho, conduzido até a Praia Mansa de Caiobá, vira-se para o ajudante: você me prometeu levar ao balneário e me trouxe para a foz do rio Belém. Esse cheiro não me engana! Sensorial, senso real.
AXIOMA
No dia em que tiver que aumentar o pedágio ou determinar que a PM disperse todas as áreas invadidas por sem terras por ordem judicial, Jaime Lerner viajará de novo.
EPIGRAMA Quando o funcionário público estadual ouve falar em Fundo de Pensão entende rapidamente a mensagem: depois de aposentado vai morar nos fundos de uma pensão que se diz, como todas, familiar, mas que não o aparenta.
GLOSA O oposicionista achou normal a viagem do governador: como não tomou posse ainda do primeiro mandato, já esgotado, demorará a fazê-lo no segundo.
SPRAY O abaixo assinado que corre na Assembléia Legislativa para um despejo geral das áreas invadidas parece coisa craneada em cima da ausência de Lerner, notoriamente um indeciso, jogando o ônus da situação para dona Emília. Um ato típico de coragem e de subserviência na proteção ao governador viajante.-
A frouxidão do governo e a perplexidade do INCRA geram esse quadro reanimado com novas invasões e do lado dos proprietários é preciso criar algum fato político para dissuadí-los. Dona Emília deve responder o seguinte: sou fiel à linha de Lerner e não vou mexer no vespeiro social.- Se a reação da polícia de ontem a um assalto a banco servir de paradigma com o tiroteio e a morte de todos os delinquentes, viraremos Chicago. Para tanto já temos um time de basquete, como se viu ontem, que em termos nacionais pode ser lembrado ao Bulls na parte feminina.- Por falar nisso a tv a cabo mostrou porque os futebolistas brasileiros que estavam no Japão (Dunga, Jorginho, Cesar Sampaio, Basílio) retornaram: as multinacionais cortaram os patrocínios naquele país em crise. Aqui o governo aperta o cinto em tudo, mas mantém essa fantasia insustentável como a de assegurar, caso falhem os patrocínios, todo o custo da equipe feminina de basquete em R$ 150 mil mensais, enquanto dá para o Grêmio de Londrina, que nos representa na disputa masculina nacional, apenas R$ 20 mil e, ainda por cima, chorando.- O delírio é livre: o Banestado está a pique de afundar e os sindicalistas querem aumento. Viver é pressionar, fugir à passividade, reagir, mas na quadra atual isso lembra alucinação.- Em fim de temporada foram instalados de 50 em 50 metros chuveiros públicos desde o Morro do Cristo até as Caieiras em Guaratuba. A empreiteira deveria tê-los instalado em dezembro. Isso lembra também que agora, em fim de temporada, promete-se ampliar os pontos negros impróprios para banho nas praias por causa da concentração de coliformes por milímetro cúbico.-
FOLCLORE Um jornalista boêmio da praça, separado, resolveu viver como casado com uma escritora. Ela não suportava a mania do companheiro de levar boêmios para o seu apartamento e que tiravam sambinha de caixa de fósforos. Um dia se irritou: botou a roupa mais ousada, meia arrastão, fez o discurso de que não suportava mais aquilo e avisou, bolsa à mão e saia curtíssima, que iria se mandar. O companheiro, meio bebum, olhou para ela e perguntou você vai descer? e ela respondeu que sim, altiva como nunca. E ele repicou, bem no tom machista e cafajeste: Já que você vai descer vá ali no bar e me traga três cervejas geladunchas!
CROMO Em tempo de moratória não deixa de ser curioso fruto e flor temporão.
AFORÍSTICO O mercado dirige o espetáculo: primeiro para atendê-lo permitiram que menores de 18 anos dirigissem motonetas e agora, depois que houve tanta aquisição, estabelecem a proibição. O mercado é o bezerro de ouro de ontem.





