Luiz Geraldo Mazza
Uma vida (muito) provisória
Se o governo não tem à sua frente um horizonte para programar os próximos dois meses como fará para operar prospectivamente o Terceiro Milênio? Se ao poder instituído faltam tais condições básicas de previsão, como se sente o indivíduo nessa ordem?
Não espanta, pois, que haja uma fila, em Curitiba, de mais de 2 mil pessoas buscando um trabalho provisório para vendas de Páscoa quando o número de vagas é de apenas quatrocentas. São dois tipos de desespero: o do pessoal desempregado e que se agarra na primeira oportunidade e também o da indústria e do comércio que imaginam um encalhe de ovos e coelhinhos, como nunca se deu, para apelar à pressão de promotores de venda no interior dos supermercados em cima da clientela.
O presidente Fernando Henrique apenas promete, até para mostrar-se, uma vez mais, palatável ao FMI, ‘‘apertar o cinto’’, como instigação que quase sempre resulta nula, o que o público já está fazendo à falta de qualquer outra alternativa. A noção de provisoriedade a tudo permeia, como se tudo fosse de natureza fungível e se dissipasse. Nunca se viveu com tanta intensidade a emergência como agora como se um filósofo, usando esses estratagemas de linguagem publicitária, anunciasse que o futuro já era.
Pior de tudo é que se teme o retorno da Hidra inflacionária e essa é a maior angústia porque esse imposto de caráter traiçoeiro arrebenta com os pobres. A reportagem da ‘‘Folha’’ mostra que o símbolo-chave do Plano Real, o frango, saltou de R$ 0,80 para R$ 1,40. O preço ainda não é assustador, mas já houve uma alta - isso para devolver a consciência - de 75%. É essa corrosão que ameaça voltar e com toda força. Nada mais claro, nesse exemplo, quase fábula, para sinalizar a impossibilidade de enxergar o amanhã.
E como se não bastasse essa carga toda ainda teremos, dentro em pouco, a celebração da saturnália carnavalesca que, como todas as provisoriedades, se depura justamente com as cinzas, símbolo de humildade e reencontro, na quarta-feira ainda no torpor da ressaca. Quanto maior a crise, mais aguda a busca da evasão e do escapismo. O Carnaval vai ser a prova de que o FMI é duro, posto que repetitivo nas suas terapias, sem mexer, porém, na festa. Se mexesse já sabe: povo alienado é assim mesmo e por uma causa dessas iria aos extremos.
AFORÍSTICO
Chamar a política do Paraná de medíocre é mostrar-se cúmplice de tudo o que acontece, pois ela não merece esse parâmetro
BIZARRICE Sobre o frango - especialmente no tempo em que era com a canja a dieta dos doentes e operados - há a anedota clássica de que o pobre só o consumia quando um dos dois estava doente. O Plano Real o erigiu, ao lado do iogurte, em símbolo da estabilidade. Está custando quase o dobro com o FHC, elegante e majestático, no puleiro.
AXIOMA Ainda sobre o futuro e o longo prazo: Keynes dizia que a longo prazo todos estaremos mortos. E a respeito das penosas há aquele conselho sábio de que não se deve contar com o ovo no fim da galinha.
GLOSA Mas em Colombo, sexta-feira, Jaime Lerner e Rafael Greca contaram com esse imponderável ovo ao inventarem o tal circuito italiano do turismo, discurso sobre o nada, o não-existente, pretendendo parasitar o empreendimento de um empresário que vai lançar um hotel-fazenda na região. Ilusionismo em política nesses tempos bicudos é redundância. O virtual é a mania da moda e, convenhamos, nada virtuoso, como pensavam os escolásticos.
SPRAY Ainda no primeiro semestre haverá nova batalha, pesadíssima, em torno de um novo cartório - o da inspeção veicular, que está dando mil problemas em todo o Brasil e que já teve alguns percalços por aqui. - Essa inspeção eletrônica é relevante, mas a alta rentabilidade que dará ao serviço assanha amigos do rei, como se viu na primeira licitação, depois anulada. - Uma das alternativas do governo para desovar estoques da indústria automotiva é executar uma política de remoção de velharias mecânicas da estrada (perigo para todos) calculada em no mínimo 17 milhões de unidades para ‘‘renovação’’ em duas décadas. - Há grupos já estruturados para tomar conta do serviço e faturar os tubos. Opção de conferir licença a oficinas mecânicas para esse trabalho foi levada em conta, conquanto se constitua numa temeridade. Se com cautelas oficiais nos Detrans ocorrem as maiores fraudes imagine-se o que não haveria numa abertura dessas. - Pouco mais de 5% de queda nas vendas do comércio em janeiro se deu ainda fora da influência do quadro atual depois da virada cambial. É a média de todo Paraná. Na primeira quinzena, o registro era de aumento considerável sobre igual período de 1998. - As regiões metropolitanas de Curitiba e Londrina tiveram índice pouco inferior a 5%: a primeira 4,88% e a segunda 4,97%. - O Ibama nem pensa em cuidar do assunto, mas é assustador o número de famílias que conservam animais selvagens em casa, alguns até exóticos como iguana, leão, onça, lontra. Havia um que guardava uma piton, serpente da Índia, em casa. Há uma em exposição, bem acondicionada num recipiente de vidro, no Pesque-Pague Pôr-do-Sol na BR-116. - Muito estranho aquele caso da suposta conjura para matar o desembargador Otto Sponholz. Como se não bastasse, num depoimento, um dos suspeitos teria dito que visavam eliminar também o deputado estadual Aníbal Khury. Os encanadores, tidos como suspeitos, levam muito jeito de enganadores. - O senhor Glênio Madruga, de Curitiba, pergunta como é possível sair da crise um país que tem num ano 114 feriados? Vale a reflexão.
FOLCLORE Cada figura nova do pátio de milagres, que é a Boca Maldita, é sempre observada e cultuada. Um dos interessantes foi um tipo muito doente, que tinha momentos de catatonia (imobilismo de estátua) entremeados de delírio ambulatório e como carregava sapatos e roupas, objetos velhos às costas, foi apelidado de ‘‘Ferry Boat de Carga’’ para não ser confundido com o outro ‘‘Ferry Boat’’, que subia a Rua XV com uma pessoa e descia com outra. Num dia ele entrou num banco onde está hoje a Livraria Curitiba e parou na frente de um dos caixas e, com uma expressão samaritana como se fosse abandonar o corpo e levitar, evacuou no local. Banco tem alarme para fogo, água e assalto, menos para isso. Daí porque a correria foi incontrolável. Stanislaw Ponte Preta, à época, disse que o tipo havia feito um depósito diferente. Eu e o Fernando Veloso, o pintor, vimos tudo da porta e caímos na risada.
CROMO Pião, bola de gude, peteca, só na nossa memória: meninos de agora cuidam do lúdico diante do videogame sofisticado.

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