Era o que faltava. Depois da sustentação de uma penosa campanha - três gestões de Lerner, uma de Saul Raiz, outra de Rafael Greca - de que Curitiba era oásis de tranquilidade urbana no Brasil, eis que a prefeitura de Ponta Grossa, regida pelo Jocelito Canto, populista da pesada, acusa o governo municipal da capital de transferir-lhe mendigos. Obviamente há um exagero e vontade de aparecer e de reduzir as dimensões dos dramas da cidade, muito alimentados por Jocelito e que começou sua carreira política atraindo os lúmpens e a população da periferia para a sua ‘‘Garagem da Esperança’’.
Esse cortejamento também foi muito comum em Curitiba nas gestões do PMDB, que achava o máximo do progressismo e até de ‘‘socialismo’’ operar nesse front de posseiros urbanos, invasores de terras. Seu feito máximo - e desenvolvido com a clara intenção de atingir a administração Lerner na cidade - foi a selvagem operação da Ferrovila, apoiada logisticamente pelo governo e que determinou a omissão da PM nos acontecimentos: isso é uma invasão legalizada com o timbre oficial! Mas a onda pegajosa da cidade-modelo, que se deve a Lerner, explica, em grande parte, a explosão migratória na periferia.
Transferir marginais de um ponto para outro é tradição brasileira, razão pela qual há muito de hipocrisia no espanto provocado pela denúncia contra Mato Grosso do Sul. Dias passados houve reportagem da Globo, triunfalista demais, em que se cotejava Curitiba com o ABCD paulista para evidenciar que aqui havia emprego e esperança com o ato inaugural da Audi-Volkswagen, quando se sabe que não é bem assim.
Essas propagandas, burras, atraem massas até nós, e em maioria de pessoas inabilitadas culturalmente para as demandas urbanas, razão pela qual se entregam a biscates ou ao mercado alternativo do tráfico de drogas ou da cata de lixo, pois a própria construção civil já está a exigir indicadores mínimos de saúde e escolaridade. Ponta Grossa é um subpólo do eixo industrial, o maior do Paraná, que a liga a Curitiba. E por essa razão tem poder catalizador desses problemas com as levas migratórias campo-cidade atrás de atendimento médico-hospitalar e de possível fixação.
O governador, outro dia, foi a FHC dizer que as soluções devem vir a partir das pessoas (não dos números, razões de mercado e do marketing certamente), mas o empenho oficial, embora significativo na parte habitacional (um novo padrão de casas populares no qual o próprio morador desenha e mostra como ter a sua casa e, especialmente, as Vilas Rurais, iniciativa, esta sim, inovadora no trato ao bóia-fria e na sua promoção social), é muito precário.
BIZARRICE A propósito dessa troca de mendigos, uma das explorações mais fortes contra o governador Carlos Lacerda, da Guanabara, pela oposição, era a de que mandava lançar os pedintes no Rio da Guarda, campanha sustentada pelo jornal ‘‘Última Hora’’. Numa ocasião, Lacerda veio a Curitiba e nós da UH fizemos uma série de reportagens preparatórias contra o homem da UDN. Como ele era chamado de ‘‘Corvo’’ houve caça a esses garis voadores. Consta até que um estudante, hoje desembargador, pendurou um corvo no alto do Braz Hotel para lançá-lo sobre o udenista. Dizem que foi o Abrão Miguel, ex-presidente do TJ, que jogava futebol comigo no time do Esplanada, da terceira divisão, junto com o Ociron Cunha, ex-reitor da Federal e que tinha o apelido de ‘‘Bancário’’.
APELIDO
Por falar em apelido, o do saudoso desembargador Mercer era ‘‘Rin-Tin-Tin’’, pois como jogador do Atlético marcava os outros com o zelo do cão famoso e que brilhava nos faroestes de Hollywood
AXIOMA Sobre o nepotismo e o hábito de os políticos driblarem a exigência dos concursos há piadas: aquela do Aníbal Khury de que não os faz porque só passam japoneses, mulheres e comunistas é uma. Outra é do amigo humilde do presidente FHC e que foi visitá-lo na Alvorada. Daí o presidente pergunta se deseja um cargo e o visitante responde que sim. Há o de cozinheiro que dá R$ 4 mil, oferta que o outro acha excessiva para seus hábitos. Sugere o de copeiro que dá R$ 3 mil. E assim por diante, mas sempre com o sujeito achando muito. Aí o presidente procura saber qual a sua pretensão e o amigo responde que algo entre R$ 1,5 mil. FHC franze a testa e explica: ‘‘Desse valor para baixo há exigência de concurso público.’’
GLOSA Miran Pirih, deputado estadual de origem croata, tem a sua eleição discutida por ser naturalizado. No meio do embate, um dos oradores cita o maior constitucionalista brasileiro Pontes de Miranda. Pirih, que tinha o jeito de falar do estrangeiro, sentencia, para espanto de todos: ‘‘Este Pontes de Mirranda é um fofoquerro.’’
SPRAY Bastou o secretário dos Transportes afastar-se para que houvesse alguns encontros entre empresários da área e os consórcios do pedágio. Um deles teve lugar em Ponta Grossa. - Há uma divisão interna, forte, no Setcepar, alvo sempre de disputas, muitas delas drenando para o Judiciário e que têm posturas diferentes relativamente ao pedágio. - O não-acatamento da medida pleiteada pelo governo estadual pelo Tribunal Federal (RGS) não altera nada, pois tudo fica na dependência do julgamento do mérito. - Na verdade, haverá muito choque entre peritos atuariais sobre o impacto do corte pela metade na tarifa e o ajuste na redução das obras. Essa matéria será novelesca e o governo, se perder, não pode assumir o ônus de dobrar o pedágio porque isso inviabilizará o modal rodoviário, caro demais para mercadorias como os granéis, o que lhes retiraria competitividade. - Ninguém acreditava que o governo conseguisse facilmente o capital inicial para a ParanáPrevidência. Otimismo com a ida a Brasília não tinha, como previ, qualquer fundamento, se considerarmos a quadra que o Brasil atravessa com o FMI fungando em nossa nuca. Agora o governo quer recorrer ao Banco Mundial do qual é cliente por seus méritos e capacidade de programar. Lançar o Fundão sem fundos é uma contradição em termos.
FOLCLORE No livro de Wilson Bóia ‘‘Alceu Chichorro’’ há uma foto do biografado na bancada paranaense ao IX Congresso Nacional de Jornalistas em setembro de 61 em Friburgo. Lá estamos eu, João Féder, José Joaquim, Silvio Back e o gênio Chichorro. Nesse encontro quem brilhou por lá foi o Aporelly, o Barão de Itararé. Só o descobrimos quando no ônibus lotado, em que viajávamos, ouvimos aquela voz tremida ‘‘Fazei o que o Divino Mestre aconselhava: sentai-vos uns aos outros!’’
CROMO Olhava, deslumbrado, a lua quando caiu numa cratera da Sanepar.
AFORÍSTICO Quem tem tais aliados como o governo dispensa a oposição.

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