Luiz Geraldo Mazza
Expectativa pode ser o embrião de um fato como o boato, no dizer de Anfrísio Siqueira, e o é, muitas vezes, da verdade. Na turbulência que o Brasil vive, se confundem, quase sempre, as duas coisas. Mas no mercado financeiro é mais fácil uma expectativa produzir efeitos reais por aqueles agentes mais hábeis na manipulação do que no campo da política e da administração.
O retorno de Lerner de Brasília trouxe expectativas e apenas um fato real: a disposição do governo de rever a Medida Provisória da Faixa de Fronteiras. Aquilo que é mais relevante, como o Fundo de Previdência e a grana para cobrir gastos estaduais com a transformação de funcionários celetistas em estatutários, é uma hipótese de trabalho, olhada com simpatia, nada mais.
Com isso, percebe-se que a informação oficial continua igual à dos anos 50: lembro quando a defesa do cabo submarino para comunicações, o que era avanço na época, fazia parte da pauta das idas e vindas de governadores, primeiro ao Rio, e depois a Brasília: qualquer palavra dava margem a comemorações de todo esse empresariado habituado a gravitar em torno do poder. E assim era com relação à ampliação do cais do porto, as ligações Curitiba-São Paulo e a Foz do Iguaçu. Lupion ou Bento voltavam e lá vinha o noticiário otimista que os fatos não iriam confirmar, a não ser de forma mediata.
Embora sempre fossem muito bons os quadros de jornalistas do governo, primeiro no Palácio São Francisco, depois no Iguaçu, nunca tivemos equipe tão categorizada como a de agora. A mobilização em contratar gente do primeiro time é de tal ordem que não se vê isso nem em tempo de campanha eleitoral.
O secretário David Campos já havia montado um butantã ao trabalhar com Cássio Taniguchi. Mas não dá para comparar as complexidades modulares de um núcleo com outro. Importante é preservar uma filosofia de comunicação que não confunda informação com propaganda, o caráter promocional embutido naquilo a que se dá tratamento de notícia. E isso, infelizmente, não está acontecendo, conquanto a maioria dos novos quadros seja composta de vivenciados na dureza da iniciativa privada e até em veículos sem os vícios da tutela.
FOLCLORE
A paranóia anda solta de tal forma que quando o governo estadual anunciou que iria cadastrar os servidores, alguns entenderam castrar e obviamente botaram o pé na estrada
BIZARRICE Luis Roberto Soares, ex-deputado e ex-secretário de Cultura, tido como um estivador da leitura, é apelidado de Cósqui, desde União da Vitória. Com as dificuldades encontradas para reeleger-se, foi chamado de Mau Cósqui, já que o Bonkoski era o Ervin, bom de voto no passado e hoje apenas devoto.
AXIOMA A campanha da Globo pela proibição de criar o feroz pit-bull, o que já aconteceu em vários países, fez lembrar a anedota do criador sadomasoquista que andava com seus cães em teste permanente com os outros, divertindo-se ao matá-los. Fazia isso na rinha, mas, às vezes, saía por aí atrás de cobaias. E nesse empenho chegou a um lugarejo, onde um caboclo tirava pulgas de um cão magro e feio, com pêlos de coloração amarelo-escuro. Ofereceu 100 reais para que ele pudesse ser testado por seu mastim. O homem arregalou os olhos porque nunca tinha visto tal importância e topou. Resultado: seu cão derrubou o mastim de saída. O criador, inconformado, foi buscar um dobermam, ofereceu R$ 200 pelo teste e acabou dançando, e assim por diante. O caboclo já estava virando neoliberal com tanta grana, mas o perdedor, agora conformado, queria saber a origem daquele animal. O caboclo, de cócoras, preparando uma paiova, explicou: o bicho tinha fugido de um circo e apareceu no seu rancho esfomeado e com o pelo tomado por carrapicho. Cortei a juba e os pêlos e ele está aí até hoje. Só não há jeito de latir.
GLOSA A aeróbica do Senhor do padre Marcelo Rossi vai aquecer a bateria de uma escola de samba na Marquês de Sapucaí. As concessões ao espetáculo acabam sempre assim, mas não para confundir o turíbulo ou qualquer outro instrumento da liturgia com o tarol, o agogô, a cuíca e o pandeiro.
APELIDO Curitiba também é boa de apelido: uma pessoa, com um tipo de delírio ambulatório, tal a insistência com que anda de um lado para outro subindo com um transeunte e voltando com outro, é chamada de ferry-boat.
SPRAY O PFL tende a ficar mais forte com a troca de legendas. O PSDB acha, no entanto, que está ficando mais balofo. Cá entre nós, balofos são todos. - O PDT é o único que está disposto a ir à Justiça para discutir a debandada. E há um fato interessante: se o deputado federal Airton Roveda, que sofre um processo na Justiça Eleitoral, tiver o seu mandato cassado, que originalmente era do PDT, quem se beneficia? - O PPS, tido como Partido Comunista de baixos teores ou rosa-choque, pode engordar com a chegada de Beraldin e também do Carlos Simões. - Um caso curioso e provavelmente único no Brasil: o jornalista Abdo Aref Kudri, presidente do Sindicato de Jornais e Revistas, tem posição radical contra as vantagens das agências de propaganda na partilha das verbas do governo. - Há, de fato, coisas inaceitáveis: apropriação indevida de comissões até nos editais, o que já foi norma. - Kudri pediu publicamente, em nota distribuída na primeira página de todos os jornais paranaenses, que o governo explicasse, de forma clara, em que conduto botaram os mais de R$ 340 milhões em três anos. - Todas as explicações até hoje foram evasivas e o pleito tinha caráter de verdadeira interpelação, e se o governo fosse democrático responderia, a não ser que esteja desprezando o interpelante e a sua representação. - O fato é que a cada governo há um grupo de agências que se beneficia demasiadamente, mas agora, com a verba curta e a crise solta, tudo se encaminha para um jogo da verdade. - Amanhã a Associação dos Procuradores do Estado faz assembléia sobre assuntos decorrentes do ajuste fiscal: delibera sobre a criação de Cooperativa de Saúde para ativos e inativos (evidência de que desconfiam das providências anunciadas), Fundo de Previdência Privada para associados da ativa e ainda a forma de recolher contribuições, já que o governo cortou os descontos.
CROMO Na hora do ofertório, o corpo místico de Jesus na hóstia, não dá para fazer o balanço da aeróbica do Senhor, que meu neto Ângelo Antonio, o mais novo, reproduz com muita graça. A um anjo tudo se permite.
AFORÍSTICO Fraga no Banco Central: Similia similibus curantur, o princípio da homeopatia aplicado à arte de governar. Como se sabe, ela acentua os sinais dos sintomas. Na prática, equivaleria ao dólar subir de novo, o que não pode e nem deve, provavelmente, ocorrer. Soros para o doente terminal?





