Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Um filme do Zé do Caixão
O brasileiro, depois das convulsões da Bolsa e dos ataques especulativos, vai ficar imunizado contra o terror. A queda do Chico Lopes do Banco Central é menos do que um desafio a criptógrafos, ainda mais quando se atribuir coisas ao FMI deixou de ser, há bom tempo, visão conspiratória da história.
Como se vivêssemos um script dos filmes do José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, ficamos mergulhados no sonambulismo, atarantados, como se na hora em que despertarmos de verdade tudo isso tenha acabado. Mitrídates, rei histórico, tomava doses mínimas, diárias, de veneno para ganhar antígenos contra conspiradores da corte, todos com venenotecas mais variadas em estoque do que a Biblioteca de Paris: empadinhas ao curare, risólis com formicida, spray de cicuta, pastilhas de raticida, maionese à salmonela, pasteizinhos de soda cáustica, enfim de tudo um pouco. Algo mais ou menos parecido se dá com nossa gente habituada a viver na vertigem da beira do abismo.
No meio dessa confusão, o governador Jaime Lerner foi a Brasília e falou com o presidente FHC. Quem sabe até o fragor da batalha tenha levado Fernando Henrique ao convencimento de que bater um papo com o governador paranaense se constituísse numa amenidade e isso porque era portador de propostas que ajudam o ajuste fiscal, como a do fundo de pensão.
Junto com as propostas, é claro, as reivindicações como a da reação à Medida Provisória que permitiria uma agressão a mais de 52 mil produtores rurais da região de fronteiras e aquele recurso devido pela União ao Paraná, por causa da transformação de celetistas em estatutários. Já anteontem à noite, Lerner conversou com o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, sobre a inconveniência da Medida Provisória relativa à faixa de fronteiras.
É bom que o governo tenha tido missão frutuosa porque a outra viagem, a de ócio e curtição, ao exterior, não se justifica em hipótese alguma. É absurdo inaceitável para uma hora mutante e de crise que se afunila. Fuga, nada mais.
ALEGORIA
País que está na UTI precisa de Soros: fisiológico e glicosado
BIZARRICE O PT tem se destacado, em seu aspecto mais lamentável, pelo moralismo e agora se bate para justificar as nomeações de parentes de Zeca do PT, governador do Mato Grosso do Sul. Como a origem da expressão nepotismo vem do latim nepote, que quer dizer sobrinho, é de concluir-se que até meninos de rua do Brasil são eruditos, pois quando pedem esmolas chamam os outros de tio.
AXIOMA A prática do parenteralismo, não apenas em órgãos públicos como também nas empresas particulares, é muito comum. Aqui isso se dá duplamente: no governo e nas empresas que gravitam em torno dele. Exemplo a propaganda, ações ligadas a promoções culturais e esportivas. Coisa de pai para filho.
GLOSA Mauro Beting comentava um jogo do campeonato espanhol e sugeriu que o atacante Jordi Cruiff deveria ser apenas Jordi (certamente porque jamais chegaria ao futebol do pai) e não Cruiff. Agora a gente fica sem saber se é o Mauro ou o Joelmir que devem ficar apenas com o prenome. A língua, como dizia a avó do Luiz Alfredo Malucelli, Malu, é o chicote do traseiro.
APELIDO Em Morretes, dois apelidos para bebum: Barreado, porque fica 24 horas no fogo, e Cobrinha de Farmácia porque é conservada em álcool.
METÁFORA Em Foz do Iguaçu, depois dos tão badalados Jogos da Natureza, em que nem os hotéis receberam seus haveres, perguntava-se para onde havia ido tanto dinheiro. A resposta era uma paródia a um filme famoso: O Evento levou.
CORTE A Universidade Católica suprime as bolsas aos carentes. Se essa medida implicasse em baixar a mensalidade do conjunto de alunos, ainda seria aceitável. O pior é que o complexo principal da instituição foi dado de graça por Lupion e abrangia toda a área onde estava o Jockey Club. Num tempo tão fortemente pragmático, torna-se difícil senso mínimo de compaixão.
SPRAY Simetria entre ACM e Aníbal Khury até nos discursos de anteontem: ambos dizem ajudar o governo, mas sem tutela. Na verdade, ambos é que tutelam ou, ao menos, pretendem fazê-lo. - Os dois prometeram fiscalizar o poder central, o que fazem apenas em casos muito pontuais. - Entusiasmo no Palácio, como sempre, pelos supostos ganhos da missão em Brasília. Esperar senso de crítica naquele ambiente é impossível. Nem os mais comedidos estão habilitados a entender que diplomacia e tapinha nas costas, promessas genéricas do tipo vamos estudar fazem parte do cerimonial manjadíssimo. - Se a União liberar o que Paraná pede para viabilizar o Fundo de Previdência terá, obviamente, que fazê-lo em relação às outras unidades e o FMI está de olho em tudo isso, e basta ele não entender para que o veto venha com uma fúria de raio de Zeus. - A tese é boa, construtiva, porém carece de maior articular em rede dos interessados. Outra coisa: não importa se alguém sair na frente (Pernambuco, por exemplo, criou já o seu sistema previdenciário a taxas suavíssimas) e esse tipo de vaidade de posar de pioneiro é um pouco de frescura, conquanto se reconheça que o Renato Follador fala nisso desde os primeiros dias da primeira gestão Lerner. - Samek esteve com Lula em São Paulo e o dirigente paranaense embarcou no delírio petista de que é possível reproduzir as Diretas-Já e os Cara-pintadas em mobilizações nacionais. O PT não tem proposta alternativa para a crise e esquece que se Lula ganhasse, um dia depois do pleito ocorreria algo mil vezes pior do que estamos assistindo, pela fuga de capitais e receio dos xiitas. - O que o PT regional deveria fazer é explicar porque perdeu tanta força e representação ao embarcar na canoa da aliança com o PMDB.
FOLCLORE O episódio ocorrido com o jogador Tuta na Itália fez lembrar uma velha estória que o Betini (Cai Bem) costuma contar, e que teria ocorrido em Cambará: o centroavante está livre e hesita em chutar e o goleiro, nervoso, pede que ele o faça logo, pois vai deixar a bola passar e o atacante alega que não pode fazê-lo porque também está comprado. Um caso clássico de corrupção recíproca e que pune os dois participantes.
CROMO A estrela cadente se deslocou no espaço noturno e dissipou-se como se fosse fogo de artifício: a compensação veio em meio à queda da Bolsa.
AFORÍSTICO Apesar de tudo, o patriarcalismo está aí: olha-se o presidente, ainda mais com seu jeito de monarca, como o salvador de tudo. E assim são vistos governadores e prefeitos. Por isso, o povo merece o que tem.





