Luiz Geraldo Mazza
Se os critérios adotados pela comunicação social do Paraná, através dos tempos sem exceção, fossem usados na análise da pesquisa Datafolha sobre a popularidade de Fernando Henrique em meio ao ciclone financeiro, resultaria, nada mais nada menos, do que uma soma de 60% de apoios, já que costumam os alquimistas palacianos somar os índices de bom e ótimo com o de regular. Faz-se isso com a mesma facilidade com que o garçom da boate na hora de dar a conta ao cliente nela acrescentava o RG, o CPF, a placa do automóvel e o ano da ocorrência. Contava-se, é claro, com o possível porre ou a zonzeira do cliente, como as gestões paranaenses fazem de um modo geral com a cabeça do público manipulada pela propaganda.
Álvaro Dias, Requião, Lerner, como seus antecessores, batiam recordes diante da facilidade com que se somavam quantidades e valores incompatíveis. Com a metralhadora giratória da propaganda, imune como se vê às crises, como se dá precisamente neste momento (aquela mensagem da Sanepar na praia é mais vaga do que as ondas do mar), a cabeça do público é alugada de uma forma que lembra em tudo o ordenamento fascista. Isso se repetia em governo que se dizia de esquerda e que não passava de populismo requentado como o de Requião.
Como a Folha de S.Paulo tem uma inclinação pela negatividade, o que é um cacoete dos liberais avançados e da esquerda, como se essa fosse a vacina contra o triunfalismo, não iria dar colher-de-chá a um desempenho majoritário em termos de credibilidade: seria uma paulada nas linhas de suas manchetes e também dos seus artigos de opinião, notadamente os assinados na segunda página. O fato é que os índices negativos de FHC a tudo superam. Submetidos, porém, ao filtro da comunicação paranaense se transformariam em positivos.
De repente, o presidente sabe do assunto, substitui o seu porta-voz, de expressão quase mumificada, e convoca os badaladores da terra. Será a glória.
Imaginem o governo federal gastando proporcionalmente em comunicação o que o Paraná despendeu (mais de R$ 110 milhões ao ano) e teríamos um cataclisma do mais abusado otimismo, capaz de desbancar o Carnaval como fuga.
AFORÍSTICO
Abismo para o Brasil é fácil tirar de letra. Sempre foi assim
BIZARRICE Há um novo folguedo na cidade: aposta em cima de quantos totens estão desguarnecidos de carro e equipe da PM. Como está se dando com a maioria (pelo menos é a transformação que a gente vê), há uma tendência em mudar o nome pomposo, antropológico, de totem para o de tetéia. É um adorno como de certa forma se dá com a fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, eficaz para os crentes, inócua para os céticos.
AXIOMA Licitação da inspeção eletrônica para veículos está provocando suspeita em todo o País. Aqui foi assim, também. Bastou o Romanelli levantar a questão no Judiciário (porque no Legislativo o governo ganha fácil) para que Lerner se visse obrigado a anular o que já havia sido concedido. Como sempre, os amigos do rei levam a melhor, tal qual se dá em advocacia administrativa e propaganda. É por isso que nem sempre uma licitação se constitui em ação lícita.
GLOSA Dois mil trabalhadores de Curitiba descobriram as delícias da terra de Marlboro com o fechamento da fábrica da Philip Morris: o sabor da aventura. Só falta botar aquela música forte ao fundo. Bem mais adequada, como diria o especialista Eduardo Virmond, do que A Marcha Fúnebre de Chopin.
SPRAY Não dá para acreditar: um semanário divulga nesta semana que, apesar de todos os protestos e advertências formais, foram gastos nada menos de R$ 109 milhões em propaganda em 1998. E só nas diretas, aí não incluídos Copel, Sanepar e Banestado. Até nos States seria absurdo para um governo local. - Pois a maior dificuldade que o governo terá, neste segundo mandato, vai ser no campo das relações com a mídia habituada ao regime de subvenção, o que se agrava com a crise que a todos atinge. Daí a visita do secretário da Fazenda aos jornais para explicar que há atraso, mas que o dinheiro sai. - Se é ruim para o governo, e de certa forma para a mídia, acaba favorecendo a população que deve em função disso receber melhor informação pública. Aliás, a equipe que foi mobilizada se obriga por origem e pelo valor pessoal dos convocados a abolir, de vez, o caráter promocional que o sistema costuma emuitir no noticiário oficial. O comando de David Campos é também uma esperança de melhora, não apenas pela capacitação pessoal, mas por não ter os vícios comuns dos executivos da área. - Na CBN, uma pesquisa sobre a credibilidade do governo federal com a crise não foi de todo o mal: 56% rejeitam FHC, mas 44% o apóiam. - Se há uma razão para justificar outra (e prolongada) viagem de Jaime Lerner é esta: está querendo apenas fugir do Carnaval curitibano, pior, mil vezes, do que a rotina palaciana com o cordão dos puxa-sacos. - Requião, ao tentar ombrear-se com a figura de Josaphat Marinho no Senado, ao dizer que como o seu ex-colega baiano é aplaudido, respeitado, mas não ouvido, é de uma falta de senso mínimo das coisas. Nem em 20 mandatos conseguirá a expressão daquele que tentou usar como paradigma. Foi honesto: é exatamente o que pensa de si mesmo. Autocrítica, nesse caso, é uma impossibilidade radical. - Festa na família Fruet: Dona Ivete, viúva de Maurício, assistiu em Brasília o nascimento dos netos gêmeos, filhos do advogado Cláudio. Nomes dos gêmeos: Maurício e Giovanna. - Gustavo Fruet partilhou das alegrias da família e passou a fazer o seu entrosamento com a bancada do PMDB, junto da qual tomou posse ontem. - Vem aí a bola de neve: no sábado o Carrefour remarcava preços, tirando mercadorias da mão de clientes, aquele atletismo do tempo da inflação.
METÁFORA Um político bebe tanto que se diz que até o seu xixi é 15 anos.
FOLCLORE O que ofende mais um político nem sempre é chamá-lo de ladrão. O Carlos Heitor Cony, escritor, que sabe do narcisismo de FHC, disse que o presidente escreve pior do que José Sarney. Explicavam isso para o Candinho Chagas, que chama Lerner de chuncheiro a três por dois, quando o Luiz Gonzaga de Mattos contou que da música Malandro de Araque, de Vinícius de Moraes, Azeitona e Jaime Lerner, a parte cabível ao governador é o refrão que repete Zuzu, Zazá, Zizi, Zezé. E foi zozó risada pra todo o lado.
CROMO Se a mosca azul que dizem girar sobre os políticos é varejeira, é mais fácil ela lhe inculcar a berne do que a glória.





