Luiz Geraldo Mazza
Ney Braga fez nos anos 60 uma revolução no Paraná, integrando-o física e politicamente com a prioridade concedida a obras de infra-estrutura como estradas, energia elétrica, telecomunicações. Transformado em canteiro de obras, vivíamos uma espécie de primeiro dia da criação. O próprio Ney tentava botar isso, via marketing, na cabeça dos paranaenses. E tinha minoria para apoiá-lo na Assembléia.
Diferença entre aquele salto, proporcionado pelo Fundo de Desenvolvimento Econômico (uma taxa a mais no IVC, Imposto de Vendas e Consignações, o ICMS da época, para investimentos na área e com a sobra para capital fixo e variável de indústrias), e o que se anuncia com Lerner e o pólo automotivo de última geração é que Ney aplicava dominantemente no setor público para o deslanche da economia e Lerner usa o mesmo diagrama voltado integralmente para a iniciativa privada, mormente as multinacionais.
De qualquer maneira estamos num divisor de ciclos, mais do que isso de eras. Com Ney saímos da monocultura para a diversificação agropecuária que iria consagrar Paulo Pimentel com seu programa de renovação do rebanho, no qual se trocava de mano o gado ruim pelo indiano (gir, nelore, guzerá), cuja presença no Brasil devemos a Celso Garcia Cid e a Lupion que tiveram o peito de enfrentar o lobby do triângulo mineiro contra a importação, num tempo em que JK mandava e desmandava. Com Lerner temos a oportunidade de queimar etapas e entrar na modernidade. A próxima revista Exame mostrará a singularidade desse processo, embora um pouco exagerada e subestimando efeitos negativos.
Não houve até agora a mensuração dos impactos de caráter metropolitano (viário especialmente), ecológico (o foco ainda é a bacia do Iguaçu, isso sem falar nos outros fatores como o relativo a usos do solo) e especialmente o social, este exigindo um mínimo de previsão sobre a rede de proteção em saúde e educação em função do aceleramento das migrações que acompanham como rotina a implantação de complexos automotivos. E isso era preciso fazer como tentei demonstrar no encontro da agenda social nas palestras que proferi em Faxinal do Céu.
Mais um detalhe: a mundialização da economia está acabando as referências locais, empresas de porte de caráter regional como se deu com a Prosdócimo diante da absorção da Electrolux (isso sem falar nos casos anteriores da Móveis Cimo, a maior do país, a Hermes Macedo, primeira da América Latina em lojas de departamentos, a viação Nossa Senhora da Penha, etc). Outra questão, esta para mim obsessiva: estamos adensando demais o eixo industrial Curitiba- Ponta Grossa, o que amplia os desníveis internos e tende a concentrar renda.
Uma das falhas de Ney, hoje visível na dianteira que gaúchos e catarinenses têm sobre nós em matéria social, foi a de privilegiar o econômico em detrimento das ações sociais. Urge fazer algo e com rapidez porque no sistema capitalista, ainda mais tardío e selvagem como o nosso, o econômico anda a jato e o social em ritmo de carroça.
BIZARRICE - Lerner usou para Requião - deveria estar de uniforme listrado de presidiário e aparece de toga como o juiz do mundo - imagem idêntica à que Álvaro Dias empregou para condenar um promotor, um juiz e um desembargador que permitiram manobra de apropriação de dinheiro sob custódia do Badep. Desta grana, apenas uma parte foi recuperada. Lerner mudou o tom e o estilo. O caráter cáustico da imagem pode levá-lo a um confronto verbal desgastante.
SPRAY - O apoio da Câmara Municipal à CPI dos títulos estaduais foi uma forma oblíqua de encher a bola do senador Requião no momento em que Lerner o fustigava, prova de ausência de coordenação política. - É melhor ser estilingue do que vidraça: a oposição, quanto mais minoritária, mais brilha. Tanto é verdade que Pedro Tonelli fazia mais estragos do que os cinco do PT de agora.- No governo Richa, dois deputados, Luiz Alberto Martins de Oliveira e Airton Cordeiro, endoidaram a triunfalista maioria, deitaram e rolaram em episódios como o do choque Belmiro Valverde versus Garanhão, mesmo com a imprensa (como sempre) na contramão. - Dois deputados estaduais e quatro vereadores na lista dos comunicadores que receberam grana em novembro de 97, dois deles os que mais faturaram, um com R$ 20 mil e outro com R$ 12,5 mil. -
Pelo jeito o governo considera os comunicadores com maior retorno do que os veículos pela idéia de que custam menos. As TVs levaram R$ 6,4 milhões, jornais menos da metade (R$ 2.9 milhões), revistas pouco mais de R$ 1 milhão, rádios com R$ 564 mil e comunicadores com R$ 132 mil. Como haver contraste, eis a questão. - Forte cheiro de pizza no Senado com a CPI dos precatórios. A subdivisão do trabalho tem um lado bom ao impedir que senadores interroguem figuras dos seus Estados de origem. Aliás para driblar isso, Amin está fazendo acusações ao Paraná em lugar de Requião. Isso não é laranjice. - Ameaça de Lerner de tocar o caso das diárias frias contra Requião não pegou bem e desrespeitou uma regra ética de pistoleiro: quem manda matar ou vai matar não dá aviso. Parece fraqueza.
FOLCLORE - Há muito os japoneses desenvolveram clones humanos. O problema está em distinguí-los porque já são, por natureza, todos iguais. Essa aí é mais uma prova de que em piada étnica é inevitável o preconceito. Lerner, embora ao rir pareça japonês, adora contar anedota de polaco, a sua origem.
CROMO - Um pássaro, asas de fogo, sai à minha frente. Um corte epistemológico, obra de um joão de barro, construtor, plagiado por Le Corbusier.
AFORÍSTICO - Como fica leve a política do Paraná sem o Aníbal Khury.





