Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Os pactos e o pato
Que os pactos - do federativo ao da resistência aos preços - fazem parte da tradição brasileira não se pode ignorar. Mas quem paga o pato é sempre o povo. Pois o ministro Celso Lafer, figura qualificadíssima sob o ponto de vista intelectual, está pretendendo montar uma rede de agentes econômicos no sentido de evitar a volta da inflação, que ameaça entrar novamente em cena. Assim, por exemplo, os supermercadistas tentariam, pelo diálogo e a negociação, minimizar os efeitos do repasse de aumentos ao consumidor.
Houve até quem lembrasse do Pacto de Moncloa, da Espanha, algo inimaginável no primarismo das nossas práticas e em vista de atrasos organizacionais. A Europa enfrentou duas guerras mundiais, sofrimentos jamais vividos por brasileiros, e é nesse fundamento que surge a visão de poupança, que não temos, e que sempre se constituiu num pré-requisito de civilidade.
Como imaginar qualquer tipo de pacto em que uma figura fortíssima da oposição, uma reserva possível para a presidência, mais palatável do que Lula, como Tarso Genro, pede eleições, como se vivêssemos num regime de gabinete, sob a suposição de que o recentemente reeleito FHC teria perdido legitimidade e estaria sem credibilidade por causa da virada na política econômica? Ora, quem mede a credibilidade é instituto de opinião pública num plano geral, e no institucional o Parlamento. Este vem dando todo o apoio às medidas impopulares, como as da previdência aos funcionários públicos, quase uma casta quando confrontados com a esmagadora maioria de trabalhadores do setor privado. Consta igualmente que o novo Congresso, nascido do último pleito, fez pender ainda mais em favor do governo a correlação de forças, o que o habilitará a ir mais fundo na questão das reformas.
Um dos defeitos da esquerda brasileira é o golpismo, afinal caminho mais curto para chegar ao poder, como alguns acreditavam que acontecia sob Jango, do que os riscos da revolução mesmo, boa no discurso, trabalhosa na prática. Que um político fossilizado pelo populismo delirante sugerisse algo parecido, não espantaria. Jamais, porém, se aceitaria que isso partisse de uma figura que tem sido uma vanguarda pelo aperfeiçoamento democrático.
É correto levantar suspeita sobre a legitimidade de um sistema que elege as pessoas na variabilidade dos planos econômicos, como se deu com Sarney e o Cruzado, e agora com o dique cambial de FHC, mas claramente leviano pretender novas eleições. Por sinal que um dos sinais que ela deixou foi o da hostilidade aberta à classe política, nos votos nulos e brancos do pleito proporcional. Se adotássemos o voto facultativo, o colégio eleitoral seria mais ou menos o mesmo das eleições do Império, tal o ceticismo reinante e que se alimenta de atitudes como essa que lembram as da UDN do passado.
AFORÍSTICO
Quando a Copel for privatizada, a turma do Lerner adquire para seu escritório as instalações do Chapéu Pensador: eletrizante
BIZARRICE Quando o ministro brasileiro disse que a crise decorrente da liberação cambial é um ajuste, deu para lembrar que, na perspectiva de geólogos, há também algo como acomodação de camadas tectônicas no caso da Colômbia.
AXIOMA O Funbepe, fundo de pensão do Banestado, detém cerca de 30% do patrimônio do banco a ser saneado e privatizado. Como ele foi mais sacaneado, inclusive neste governo com as barbáries da Leasing e da Corretora, do que saneado, espera-se que se conceda ao Funbepe o papel de correr atrás dos créditos incobráveis. Sabendo que o futuro deles dependerá disso, dá para imaginar a eficiência. É algo que poderia entrar na formatação da transição do banco saneado para privatizado, já interessando cerca de oito empresas. Aliás, para levar algum há sempre interessados. Vide montadoras.
É preciso pôr alguém que corra atrás dos devedores como um esfomeado se manda em direção de um prato de comida. Aí não entra pano quente, jogada de deputado, muitos deles devedores ou avalistas, e a coisa funciona.
GLOSA Um jovem deficiente físico passou no vestibular de Fisioterapia da Tuiuti e da Católica e não tem como pagar qualquer um dos cursos. Chama-se Hilton Cesar de Carvalho. Ponho em destaque o tema, aliás bastante comum, para testar o nível de solidariedade humana dessas escolas que tanto faturam. O que custa uma bolsa de estudos num caso desses?
SPRAY Há sinais, cada vez mais perceptíveis, de que a Flutrans, que explora um terminal em Antonina, encontra dificuldades. Apostou-se muito, tanto nessa concessão como na da Ponta do Félix. Nesta há necessidade de aprofundar o calado, o que ficará a cargo da concessionária. - Por falar em portos, o de Paranaguá, fundamento econômico da cidade, lembra o baobá de O Pequeno Príncipe, de Saint Exupery: naquele caso, a árvore foi plantada num planetinha e se mostrou capaz de desintegrá-lo com suas raízes. Em Paranaguá, a cidade perde suas características (não apenas por causa de alguns bárbaros que a geriram), em função da expansão portuária. Já citei aqui e volto a fazê-lo: que tal adotar o modelo de Itajaí, onde funções urbana e portuária não conflitam?
Com a subida dos combustíveis na segunda-feira, vem a escalada nos fretes e nas tarifas de ônibus. Em Curitiba, há o problema adicional do arrocho dos salários de cobradores e motoristas. Vem ferro aí e não há pacto que consiga neutralizar. - Segundo o velho crítico do lernerismo, Cândido Chagas, está se dando com o metrô o mesmo que houve com o artifício cambial no Brasil. Quiseram nos impingir o bonde por duas vezes para fugir à realidade de implantar o metrô - diz o Candinho, dando risadinhas sinistras, já que ele defendia o metrô há muitos anos. - Por sinal que o buraco de Guaratuba, que Lerner e Nelson Justus prometeram cobrir, é outra preocupação do Cândido. - Valdir Córdova, o Bicudo, foi confirmado na assessoria de imprensa do outro Candinho, Martins de Oliveira. Esse apita bem no assunto.
FOLCLORE Relator de uma ação do Campo Comércio de Peças para Tratores de Campo Mourão e o Bradesco, no Tribunal de Alçada, o juiz Ruy Cunha Sobrinho, após defender a tese de que o Artigo 192 da Constituição Cidadã (os juros anuais de 12%) é auto-aplicável, com admirável base doutrinária, faz duas citações ótimas, uma de Stálin de dez em dez anos toda a burocracia, incluindo a magistratura do país deveria ser fuzilada, hipótese que obviamente dispensa e não por motivos de ordem corporativa, e outra de Millôr Fernandes coerente é o sujeito que nunca teve outra idéia. A tese dos 12% foi unânime.
CROMO E o que querem essas ossudas mulheres da passarela, magreza dramática, que lembram garças com mais espírito e penas do que carne?





